O baile vai cobrar

1398 Words
Augusto narrando Tem hora que liderança não é sobre apagar incêndio, é sobre acender luz. E depois do que rolou esses dias, eu não ia deixar clima de tensão virar fofoca de beco. Morro sentiu o corte, a mudança. Quando estrutura mexe, soldado começa a cochichar, e cochicho é igual cupim: corrói por dentro. Eu tava no escritório, janela aberta, olhando o movimento lá embaixo, cada passo que eu dei até aqui foi pra manter controle, não é agora que vou deixar dúvida virar narrativa. Peguei o rádio. — Magrão, sobe aqui. Não demorou. Ele entrou já no modo atento, postura firme, mas sem aquela tensão exagerada, moleque aprendeu rápido a se posicionar. — Chamou, chefe? Eu fiz sinal pra fechar a porta. — Final de semana tá chegando. Ele ficou quieto, esperando o resto. — Quero baile. Ele arqueou a sobrancelha de leve. — Baile? — Baile grande, organizado. Ele já entendeu, baile não é só festa, é mensagem. — Qual é a visão? — ele perguntou. Eu encostei na mesa. — A visão é simples: mostrar que tá tudo alinhado, que não tem rachadura, que comando tá firme. Ele assentiu devagar. — Segurança reforçada? — Discreta, mas presente, quero ponto estratégico coberto, nada de cara armada pagando de protagonista. Ele deu meio sorriso. — Pode deixar, vai ser fino. Eu caminhei até a janela. — E outra coisa, Magrão. — Fala. — Quero a Mayte circulando. Ele não respondeu na hora. — Visível — eu completei. — Conversando, e mostrando presença. Porque liderança não é só decidir no silêncio do escritório, é sustentar olhar na rua. — Vai dar o que falar — ele comentou. — Já tão falando de qualquer jeito. Ele respirou fundo. — E o clima? Eu virei pra ele. — Clima a gente cria. Silêncio rápido. Ele entendeu tudo que eu não falei, baile vai ser vitrine. Quem tá fechado, confirma lealdade. Quem tá indeciso, escolhe lado, incomodado… se revela. — DJ já tá certo — ele começou a organizar em voz alta. — Som forte, estrutura montada sexta, bebida alinhada, equipe de apoio posicionada nas entradas. — E revista? — Inteligente. Eu apontei pra ele. — Isso, respeito mantém ordem melhor que medo. Ele cruzou os braços. — Quer discurso? Eu ri de leve. — Eu não faço discurso em baile, eu apareço. Presença fala mais alto. Ele já tava mentalmente dividindo tarefa, eu via no olhar. — Vou chamar o Darlan pra logística. — Chama. — E a comunicação? — Solta natural, nada oficial demais, quero que pareça espontâneo. Ele deu aquela risada curta. — Espontâneo estratégico. — Exatamente. Ele ficou em silêncio por um segundo. — Isso é resposta, né? Eu sustentei o olhar. — É lembrança. Lembrança de quem manda, de quem sustenta e de que estrutura não treme com saída de peça. Ele fez que sim com a cabeça. — Pode deixar comigo. Quando ele já tava saindo, eu chamei de novo. — Magrão. Ele virou. — Sem excesso. — Como assim? — Baile é celebração, não provocação. Ele entendeu o recado oculto. Nada de música com indireta, de ostentação agressiva que pareça deboche pra quem saiu. Não é hora de cutucar. — Vai ser organizado. — ele garantiu. Eu fiquei sozinho depois que ele saiu, olhei de novo pela janela, o morro precisa de ritmo, normalidade. Precisa lembrar que comando continua respirando firme, final de semana não vai ser só festa, eu conheço meu território. Quando o som bater forte e o povo ocupar a rua com sorriso no rosto, qualquer dúvida vai perder força, porque poder também se mostra assim. Na tranquilidade de quem sabe que tá no controle. E se alguém lá fora estiver achando que tem brecha… Vai ouvir a resposta no grave do som, a organização, por aqui, sempre foi sinal de força. Eu ainda tava olhando a rua quando peguei o segundo celular. Não é o que toca o dia inteiro, é o que resolve quando precisa mostrar peso. Disquei o primeiro contato. Chamou duas vezes. — Fala, Augusto. — Final de semana tem baile. Silêncio curto do outro lado. — Grande? — Do tamanho certo. Ele entendeu o código. — Presença nossa? — Quero todo mundo alinhado, nada de aparecer pra medir força, é pra fortalecer ponte, não disputar palco. Ele soltou um riso contido. — Tá consolidando território? — Tô consolidando ambiente. — Diferença? — Ambiente firme evita movimento errado. Mais dois nomes na sequência. Empresário que investe onde vê estabilidade, um político que gosta de foto onde o povo tá sorrindo. Um cara do som que traz estrutura de evento grande sem fazer pergunta demais. Com cada um, mesma linha: — Clima tá bom, quero tu lá. Convite de quem sabe que a presença do outro agrega… mas a ausência também diz coisa demais. Quando desliguei o último, a porta abriu sem bater. Eu nem precisei olhar pra saber quem era. O salto dela é firme até quando tá irritada. — A gente pode conversar? Tom baixo, mas tenso. Virei devagar. — Sempre. Ela entrou fechando a porta atrás de si, não sentou. Ficou em pé, encarando. — Eu mexi na gaveta da sua mesa. Eu arqueei a sobrancelha. — Mexeu? — Não foge. Ela jogou uma foto em cima da mesa, eu reconheci antes mesmo de olhar direito. Luly. Foto antiga, e rindo. Braço encostado no meu, tempo que já devia estar enterrado. — O que é isso? — Mayte perguntou. Não tinha grito, tinha cobrança. Eu encostei na cadeira. — Uma lembrança. — Guardada na sua mesa principal? — E daí? Ela cruzou os braços. — Daí que você sempre fala sobre transparência, sobre o passado resolvido, a estrutura limpa. O jeito que ela falou limpa não foi inocente. Eu sustentei. — E tá suja por causa de uma foto? — Tá escondida. Eu respirei fundo. — Não tá escondida, tá guardada. — Qual a diferença? — Intenção. Silêncio pesado. Ela deu um passo mais perto da mesa. — Você ainda fala com ela? — Não. — Ainda pensa nela? Eu dei um meio sorriso cansado. — Pensar não é crime. Ela não achou graça. — Isso não é sobre crime, Augusto. Eu levantei devagar. — Então é sobre o quê? Ela demorou um segundo antes de responder. — Sobre coerência. A palavra ficou no ar, coerência. Ela tá crescendo rápido demais, já não questiona como filha, questiona como igual. — Tu acha que isso enfraquece o que eu construí? — perguntei. — Eu acho que tudo que não tá resolvido vira brecha. Direta, sem rodeio. Eu caminhei até a janela. — Luly faz parte da minha história, não da minha estratégia. — História m*l resolvida interfere em estratégia. Eu virei pra ela. — Tu tá com medo de quê? Ela hesitou, e foi aí que eu vi, não era só cobrança. Tinha algo pessoal ali. — Eu tô com medo de distração — ela respondeu firme. Eu segurei o olhar dela. — Eu não me distraio. — Todo mundo se distrai. — Eu não. Silêncio. Ela olhou pra foto de novo. — Então por que guardar? Eu peguei a foto na mão. — Porque apagar não muda o que aconteceu. Ela respirou fundo. — E o que aconteceu? Eu deixei a pergunta passar por mim antes de responder. — Foi uma época diferente, outra dinâmica. — E hoje? — Hoje é outra fase. Ela ficou me encarando, tentando medir se eu tava falando como líder ou como homem. — O baile é pra consolidar força, né? — ela mudou o assunto, mas não totalmente. — É. — Então não pode ter ruído interno. Eu aproximei. — Não vai ter. Ela olhou pra foto uma última vez. — Resolve isso. Não foi pedido, foi exigência. Virou as costas e caminhou até a porta, antes de sair, parou. — E não desconversa comigo de novo. A porta fechou. Eu fiquei sozinho com a foto na mão, baile pra mostrar estabilidade. Contatos pesados confirmando presença. Estrutura alinhada. E dentro do escritório, uma pergunta que eu não respondi direito. Coerência. Ela tá certa em uma coisa, brecha começa pequena, e às vezes não vem de fora. Eu olhei pra foto mais uma vez, depois guardei de novo, mas não na gaveta principal. O jogo lá fora é grande. Mas o de dentro… Às vezes é o que decide tudo.
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