Luly narrando
Eu fiquei parada na calçada mesmo depois que a Mayte virou a esquina, como se meu corpo ainda estivesse esperando ela voltar, mas ela não voltou. Só ficou o eco da última frase dela na minha cabeça.
Mas machucou.
Simples.
Respirei fundo tentando me recompor, mas parecia que cada respiração vinha pesada, eu não queria chorar ali no meio da rua, então comecei a andar, sem pensar muito.
Só andando.
Eu também precisava de roupa pro baile, antes de tudo explodir entre a gente, a gente tinha combinado de ir juntas escolher, era quase um ritual. A gente ria, brigava por vestido, trocava opinião, e no final sempre saía uma defendendo a escolha da outra.
Agora eu tava indo sozinha.
A loja ficava duas ruas depois do cruzamento, uma boutique pequena que a gente sempre frequentava, a dona já conhecia a gente. Assim que entrei, o sino da porta tocou.
— Bom dia, Luly!
A vendedora apareceu sorrindo, mas quando me viu direito, o sorriso diminuiu um pouco.
— Dormiu pouco, né?
Eu dei um meio sorriso.
— Deu pra perceber?
— Um pouquinho.
Ela não insistiu.
Profissional.
— Veio ver roupa pro baile?
— Vim.
Ela abriu espaço entre os cabides.
— Chegou coisa nova ontem.
Eu comecei a olhar as peças, vestido preto curto, conjunto brilhante, a saia com f***a. Normalmente eu já estaria imaginando o look completo, maquiagem, salto… Mas hoje minha cabeça tava em outro lugar.
— Espera — disse a vendedora de repente.
Ela foi até o balcão e pegou uma sacola separada.
— Eu ia até te mandar mensagem.
Franzi a testa.
— Por quê?
Ela abriu a sacola e tirou um vestido.
Lindo.
Elegante.
Tecido escuro com um brilho discreto que pegava luz de um jeito perfeito, a modelagem marcava cintura e caía solta depois, exatamente meu estilo.
— Esse aqui ficou reservado — ela explicou.
— Reservado?
— Foi separado ontem.
Eu passei a mão pelo tecido.
— Por quem?
Ela respondeu sem perceber o peso da pergunta.
— Pela Mayte.
Meu coração travou.
— O quê?
— Ela veio aqui cedo ontem — continuou a vendedora. — Disse que tinha certeza que você ia gostar desse.
Silêncio.
Eu fiquei olhando o vestido como se ele tivesse virado algo completamente diferente.
— Ela pediu pra deixar guardado pra você experimentar hoje.
A voz da vendedora ficou mais suave.
— Disse que esse era a cara da Luly.
Aquilo bateu direto no peito, porque mesmo depois de tudo… Mesmo depois de descobrir sobre mim e o pai dela… Ela ainda tinha pensado em mim.
Eu senti os olhos arderem.
— Quer provar? — perguntou a vendedora.
Demorei alguns segundos pra responder, olhei pro vestido de novo, depois pro espelho da loja, e depois pra porta. Como se metade de mim quisesse correr atrás da Mayte, e a outra metade soubesse que eu talvez já tivesse ido longe demais.
Respirei fundo.
— Quero.
Peguei o vestido com cuidado, como se fosse mais que roupa, como se fosse uma lembrança, ou talvez… Uma última tentativa de ainda existir algum pedaço da nossa amizade ali.
Eu fiquei parada na calçada mesmo depois que a Mayte virou a esquina, sem me mexer, e sem respirar direito. O barulho da rua voltou devagar, como se alguém tivesse aumentado o volume do mundo de novo, os carros passando, as motos acelerando. Mas dentro de mim tava um silêncio pesado, eu falei que ainda amava ela como amiga, e ela não respondeu. Não porque não ouviu, porque não conseguiu, e isso doeu mais do que qualquer discussão.
Passei a mão no rosto tentando secar as lágrimas antes que alguém reparasse. Aqui no bairro todo mundo conhece todo mundo, e notícia corre rápido demais.
Respirei fundo.
Hoje tem baile.
E se tem uma coisa que eu sei sobre o morro é simples: ninguém pode parecer fraco no dia de festa, nem líder, nem amiga de líder, nem mulher envolvida com líder. Eu comecei a andar sem direção por alguns segundos até perceber que minhas mãos estavam tremendo.
Peguei o celular.
Abri a conversa com o Augusto.
A última mensagem ainda tava ali.
— A gente não é erro.
Meu peito apertou.
Porque no fundo… eu queria acreditar nisso, mas tudo ao redor gritava o contrário.
Digitei, e apaguei.
Digitei de novo.
— Ela me encontrou hoje.
Enviei.
Demorou quase um minuto pra aparecer o visualizado. Depois veio a resposta.
— E?
Eu encostei numa parede da calçada.
— Ela tá magoada.
A resposta veio rápida.
— Ela vai ficar.
Direto.
Eu fechei os olhos um segundo antes de digitar.
— Isso não é simples pra mim.
Demorou um pouco dessa vez.
— Eu sei.
Outra pausa.
Depois:
— Mas não muda o que existe.
Eu encarei a tela.
Meu coração ainda acelerava cada vez que ele falava assim, como se sentimento fosse algo impossível de discutir.
— Hoje tem baile.
— Eu sei.
— Isso vai ficar estranho.
— Só se você deixar.
Eu ri fraco sozinha, como se fosse fácil.
— Ela vai estar lá.
— E eu também.
Minha respiração travou um segundo, eu digitei devagar.
— Você vai agir normal?
A resposta demorou um pouco mais dessa vez.
— Eu sempre ajo normal.
Eu balancei a cabeça, claro que ele acha isso, mas normal pra ele é diferente do que é normal pra mim.
— Normal pra você é perigoso pra mim.
Silêncio no chat.
Longo o suficiente pra eu começar a imaginar mil coisas. Então apareceu a mensagem.
— Confia em mim.
Aquilo apertou meu peito de um jeito complicado, porque confiar nele nunca foi o problema, o problema é todo o resto. Eu guardei o celular no bolso e comecei a caminhar de volta pra casa, cada passo parecia pesado, minha mente voltava pra imagem da Mayte parada na minha frente.
O olhar dela, ferido.
A gente já passou por tanta coisa juntas, a adolescência, primeiros segredos, e erros. Ela sempre foi a pessoa que eu corria quando o mundo ficava confuso, e agora… Eu virei parte do problema dela. Quando cheguei em casa, sentei no sofá e fiquei olhando pro teto, o silêncio da casa parecia maior hoje.
Eu sabia que tinha duas escolhas, não aparecer no baile, ou aparecer e fingir que tá tudo bem, só que fugir nunca foi meu estilo, e fingir… eu nunca fui muito boa.
Meu celular vibrou de novo, mensagem do Augusto.
— Que horas você vai?
Eu respondi sem pensar muito.
— Mais tarde.
Demorou dois segundos.
— Eu vou te ver.
Não foi pergunta, foi afirmação, meu coração bateu mais forte. Porque eu sabia que ele falava sério, e enquanto eu encarava aquela mensagem, uma sensação estranha cresceu dentro de mim. O baile de hoje não vai ser só festa, vai ser teste. E pela primeira vez em muito tempo… Eu não faço ideia de qual lado dessa história eu vou conseguir sobreviver.