Capítulo 1

1723 Words
reboco úmido, e o ar abafado tornava difícil até respirar. A pequena janela deixava entrar apenas um fio de luz, suficiente para revelar a figura trêmula de Elisa, ajoelhada diante da cama. — Pai, por favor... — a voz dela falhou, e a súplica se repetiu pela milésima vez. — Eu não quero fazer isso! — Me desculpe, Elisa. — A voz dele soou fria, impassível, como se falasse de um simples negócio. — Não me lembro de ter te dado opção. Apenas te comuniquei. Ela o olhou, incrédula. Os olhos marejados e o rosto pálido denunciavam o medo que sentia. — Você está me vendendo! — O grito saiu entrecortado pelo choro. — Eu mereço mais do que isso, pai. Casar com um estranho porque você e a Nanci gastaram todo o dinheiro da família? O tapa veio rápido, certeiro, estalando contra o lado esquerdo do rosto dela. Elisa cambaleou, levou a mão à face e prendeu o choro. Já estava acostumada — o amor do pai sempre vinha acompanhado de dor. — Eu te criei a vida toda, menina ingrata. — Ele apontou um dedo firme em seu rosto, o hálito de álcool e raiva queimando o ar entre eles. — O mínimo que pode fazer por mim é ser útil. Agradeça a chance de se tornar uma esposa decente. — Você é meu pai. Sua obrigação era me criar, não me vender. Os olhos dele se estreitaram. — Você devia ser mais agradecida, Elisa. — Agradecida pelo quê? — A revolta rompeu em ondas. — Por esse quarto que parece um mausoléu? Pela comida que é sempre o resto? Ou pelas roupas velhas das suas filhas legítimas? Ele riu com escárnio. — Está com síndrome de Cinderela agora, é isso? — Cruzou os braços, satisfeito com o poder que tinha sobre ela. — Vai se casar com Dante Villar, e não tem nada que possa fazer pra fugir disso. O nome caiu como uma sentença. Elisa sentiu o estômago revirar. — Eu odeio todos vocês. — As palavras m*l saíram antes de outro tapa, ainda mais forte. — Devia ter morrido com a sua mãe — disse ele, cuspindo cada sílaba como veneno. — Aquela vagabunda me deixou com uma bastarda pra sustentar. Se eu não tivesse te acolhido, estaria agora na rua, vendendo o corpo pra sobreviver. O mundo girou. Elisa respirou fundo, segurando o choro que queimava na garganta. — Obrigada, papai — sussurrou, engolindo o orgulho. — Posso... tomar banho e me arrumar pro jantar? Ele a mediu de cima a baixo, satisfeito com a submissão. — Faça isso. Depois conversamos sobre os detalhes. — Virou as costas e saiu, batendo a porta com força. O som ecoou como um trovão dentro dela. Elisa fechou os olhos, respirando fundo, e deixou o corpo cair sobre a cama sempre impecavelmente arrumada. Puxou o celular velho — presente da irmã caçula, Karla, que fingira ter sido assaltada só pra poder dar o aparelho à irmã. Elisa sorriu triste, lembrando da cumplicidade silenciosa entre elas. A tela trincada refletia seu rosto manchado de lágrimas. Abriu o navegador e digitou o nome do homem que, em breve, seria seu marido. Dante Villar. O nome devolveu centenas de resultados: empresário, político, influente, reservado. Sempre de terno e gravata, olhar sério, postura irretocável. Não havia uma única foto descontraída, um sorriso, um rumor sequer sobre sua vida pessoal. Ela estudou os traços do rosto dele — a pele morena, os olhos escuros e intensos, o cabelo perfeitamente alinhado. Era lindo. Lindo demais para ser real. Mas o que tinha de bonito, devia ter de perigoso. Que tipo de homem compra uma esposa? Um arrepio percorreu sua espinha. Será que ele a forçaria a algo? Seria violento como o pai? Ou a trataria apenas como uma funcionária sob contrato? Por um instante, uma ideia cruzou sua mente: talvez ele fosse gay. Talvez tudo não passasse de um casamento de fachada. Essa hipótese, absurda que fosse, trouxe algum alívio — significava que, ao menos, ele não a tocaria. O som de passos no corredor a fez esconder o celular sob o travesseiro. A porta se abriu, revelando Karla, com os cabelos presos num coque desalinhado. — Mais cuidado, Lisi! — sussurrou a irmã, fechando a porta atrás de si. — A mamãe podia ter entrado. — Eu estava pesquisando sobre o meu “noivo”. — Fez aspas no ar e revirou os olhos. — Mas o cara é um livro trancado. — Trancado? — Fechado é pouco. No caso dele, o livro está lacrado e sem chave. — Tentou brincar, e as duas riram baixo. Karla se sentou na beira da cama. — Pensa pelo lado bom... Você vai sair daqui. Vai se livrar do papai e da minha mãe. — Me livrar? — Elisa soltou uma risada amarga. — Ninguém que é “bom” compra uma esposa, Karla. A irmã hesitou. — Talvez ele te trate melhor. — Ou talvez só me prenda em outra prisão — disse, com o olhar perdido na parede. O silêncio pesou até que a mais nova bateu palminhas, tentando quebrar o clima. — Anda, vem. Mamãe está chamando pro jantar. Elisa suspirou. — Milagre ela ter feito comida hoje. As duas saíram juntas de mãos dadas. A cozinha fervilhava de vozes e cheiro de molho. Karen, a irmã do meio, já estava sentada à mesa, com um sorriso venenoso. — Olha só quem chegou... a noivinha da vez. Ansiosa, Lis? — Não estou com paciência pra você. — Respondeu baixo, puxando o banco para se sentar. — Levanta e vai colocar a mesa, você não é convidada! — Nanci ordenou, sem sequer olhar pra ela. — Anda logo. Elisa levantou-se devagar. — Mais um dia fazendo o que as suas filhas não fazem. A mulher largou a colher de p*u com força. — Não é porque vai casar que ficou independente. E vê se aprende a respeitar os mais velhos. — Vai, Lis. Aproveita pra treinar. Logo vai estar servindo o marido — debochou Karen, rindo alto. — Imagina, quase vinte anos e nunca beijou ninguém! Elisa virou-se, o sangue fervendo. — Melhor ser virgem do que uma v***a como você. A colher de p*u veio voando. O impacto doeu mais pela surpresa do que pela força, e o molho quente queimou-lhe o braço. — Aí! — gritou, levando a mão ao local. — Olha o respeito! — berrou Nanci. — Você não é ninguém pra falar assim com a minha filha! — Mamãe, a Karen mereceu! — Karla defendeu, e recebeu um olhar ameaçador. O barulho atraiu Carlos, que surgiu à porta com expressão impassível. — O que é isso agora? — Sua filha de novo — disse Nanci, teatral. — Falando o que não deve. Ele olhou para Elisa. — Pro quarto. Agora. — Mas eu nem jantei... — sussurrou, tentando conter as lágrimas. — A última coisa que comi foi um biscoito de manhã. — Melhor assim. — O tom dele foi cortante. — Chega mais magra pro seu marido. Ele vai agradecer. Elisa respirou fundo, o coração pesado, e saiu sem olhar para trás. Ouviu as risadas enquanto subia as escadas. Trancou-se no quarto e desabou sobre a cama, abraçando o travesseiro. E, pela primeira vez em muito tempo, deixou o choro vir sem resistência — como se o sal das lágrimas pudesse lavar o medo do que a esperava. O quarto estava escuro quando Elisa fechou a porta atrás de si. O som abafado das risadas vindas da cozinha ainda ecoava, c***l, como uma lembrança do lugar que nunca foi dela. Encostou a testa na madeira fria da porta e inspirou fundo, tentando conter o nó na garganta. O estômago roncou baixo — não havia jantado, nem podia descer para buscar nada. O cheiro do molho ainda pairava no ar, misturado ao amargor das lágrimas que desciam sem que ela percebesse. Sentou-se na cama e abraçou os joelhos. Por um instante, o silêncio pareceu pesar tanto quanto a fome. — Que falta você faz, mamãe... — sussurrou, quase sem voz. A lembrança do pouco que sabia sobre Marlene veio como um sonho distante. Contavam que ela havia morrido no parto — uma empregada jovem, sem família, que trabalhava para os Moreti, antes de tudo desmoronar. Diziam que, mesmo sem saber quem era o pai, os patrões haviam sido generosos. Que levaram a mulher ao “melhor hospital da região”, mas que, infelizmente, ela não resistira. Era o que Carlos sempre dizia — com aquela expressão forçada de quem finge remorso. Mas, com o tempo, Elisa aprendeu a duvidar. Eles não teriam gasto um centavo com uma empregada grávida, pensou, o olhar perdido nas sombras. Muito menos com o bebê que ela deixou pra trás. E, no entanto, o homem que agora a vendia jurava ter se “comovido” com o olhar da recém-nascida. Que o coração dele “amoleceu” ao ver o rostinho da filha. — Coração? — murmurou, com um riso rouco. — Que coração? Se tivesse havido amor, ele teria protegido. Teria lhe dado um nome com orgulho, uma casa que fosse lar. Não aquele quarto abafado, nem uma infância feita de restos e humilhações. Deitou-se de lado, o corpo encolhido, tentando ignorar o vazio no estômago. A fome já não doía tanto quanto a ausência. E se ela ainda estivesse viva? Essa pergunta, antiga como o medo, voltou a martelar na mente. Às vezes, Elisa sonhava com uma mulher de cabelos claros, um perfume suave, uma voz que a chamava baixinho — e acordava chorando sem entender o porquê. Talvez fosse só imaginação. Ou talvez fosse lembrança. Virou-se para o teto e deixou o pensamento escapar em um sussurro: — Será que você me veria assim, mãe? Sendo vendida como um objeto? Nenhuma resposta veio. Apenas o som distante de um portão batendo, e o farfalhar do vento entrando pelas frestas da janela. Fechou os olhos. Queria dormir, mas o sono não vinha. O corpo pedia comida; a alma, consolo. E no meio daquele vazio, uma certeza amarga se formou: — Eu não vou chorar pra sempre — disse a si mesma, a voz trêmula, mas decidida. — Um dia... isso vai acabar. A promessa soou frágil, mas era tudo o que tinha.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD