O sol m*l havia subido quando Elisa abriu os olhos. A luz fraca atravessava as frestas da cortina rota, riscando o chão do quarto pequeno onde dormia — o mesmo onde ficavam os baldes de limpeza e as roupas passadas da família. O cheiro de mofo misturava-se ao do sabão, impregnado nos lençóis ásperos.
Seu estômago roncava, lembrando-a de que a última refeição havia sido no café da manhã do dia anterior — e mesmo assim, alguns biscoitos que sobraram depois que todos já tinham comido.
Ela se levantou devagar, lavou o rosto na pia do canto, prendeu o cabelo loiro num coque e respirou fundo. Descer para o café era como atravessar um campo minado: uma palavra errada, um olhar m*l interpretado, e o castigo voltaria.
A cozinha estava iluminada, impecável, com a mesa principal cuidadosamente posta. A toalha de linho, os pratos alinhados, o bule de café soltando fumaça. Era um cenário de revista — e mesmo assim, frio, impessoal.
Carlos lia o jornal, óculos no meio do nariz, expressão sisuda de quem se acreditava o dono de tudo. Nanci cortava o pão com delicadeza afetada, o anel dourado tilintando no prato. Karen, a filha preferida, falava sobre o baile de formatura; Karla, quieta, apenas mexia o café.
Elisa parou na porta por um instante, respirou fundo e fingiu o sorriso mais ensaiado que tinha.
— Bom dia.
Nenhum olhar se ergueu. Nenhuma resposta. O som do jornal sendo virado foi a única reação.
Ela se aproximou e sentou-se no banco de plástico — o único que não combinava com o conjunto da mesa. Desde que Karla passara a comer com os pais, o lugar de Elisa fora rebaixado. Literalmente.
— Me desculpem por ontem. — tentou, a voz baixa, os olhos buscando algum traço de humanidade. — Eu não devia ter falado o que não sei.
Karen ergueu os olhos, um sorriso de escárnio nos lábios pintados.
— Não devia mesmo. Nem falar, nem existir, né?
— Karen. — Nanci a advertiu com falsa doçura. — Não fale assim, querida. Não pega bem.
Fez uma pausa e acrescentou, sem olhar para Elisa: — Você não tem que se rebaixar ao nível dela.
— Já chega. — Carlos pigarreou. — Senta e toma café, Elisa.
Ela obedeceu. O aroma do café fresco era quase c***l — uma provocação.
Estendeu a mão em direção à cestinha de pães, mas a mão de Carlos desceu sobre a dela, firme.
— Ainda não terminei. — disse, frio.
Elisa recuou. — Desculpe. O senhor disse pra eu tomar café…
— Os pães estão contados. — ele respondeu, sem levantar os olhos. — Come biscoito.
O pacote de cream cracker caiu sobre a mesa com um baque seco.
Ela ficou olhando, tentando disfarçar a humilhação, mas Nanci soltou uma risadinha breve, quase elegante.
— É o que dá não saber o seu lugar, não é, Carlos? — comentou, como se falasse sobre o tempo. — A gente acolhe, dá casa, comida... e ainda assim, se acha no direito de questionar.
— Não precisa exagerar, mãe. — Karla tentou intervir, com a voz mansa. — Ela só está com fome.
— Fome? — Nanci arqueou uma sobrancelha. — Fome é o que se passa quando não se tem onde cair morta. Ela devia agradecer por ter teto.
Elisa abaixou a cabeça. As palavras doíam mais que qualquer castigo. O estômago revirava, mas o orgulho pedia que ela não chorasse.
— Talvez eu devesse mesmo me casar. — murmurou, a raiva misturada ao desespero. — Se meu marido me der um pão por dia, já vai ser um avanço.
Carlos ergueu os olhos lentamente por cima do jornal. O silêncio que se formou foi sufocante. Por um segundo, Elisa pensou que ele fosse se levantar e bater nela ali mesmo.
Mas ele apenas sorriu. Um sorriso seco, frio, que não alcançava os olhos.
— Engraçada. Puxou a língua da mãe.
A frase a atravessou como uma lâmina.
A mãe. A mulher que, segundo ele, “morrera por incompetência própria”.
Karla, ao lado, se mexeu desconfortável.
— Pode comer o meu pão, Lisi. — disse, baixinho.
Carlos virou-se para ela com um olhar tão gelado que o ar pareceu sumir da cozinha.
— Ninguém te perguntou nada, Karla.
— Mas ela tá com fome! — insistiu, a voz embargada. — A família tem que se ajudar.
Nanci bateu o talher no prato. — Carlos! — exclamou, indignada. — Veja o que essa menina tá aprendendo com ela!
— Basta. — Carlos ergueu a mão, o tom de autoridade voltando. — Coma, Elisa. Mas só esse. E agradeça à sua irmã.
Elisa ergueu os olhos marejados para Karla e assentiu. — Obrigada. — murmurou, e deu uma mordida no pão.
Era doce, talvez por causa da generosidade de quem o ofereceu.
Enquanto mastigava devagar, o som das vozes ao redor retomou — o falatório sobre o vestido de Karen, a festa, os convidados importantes. Elisa olhou o prato vazio e pensou em como tudo naquela casa girava em torno de aparências. Nem um pão sobrava para ela, mas o nome da família era sagrado.
— Quando vai ser o casamento? — perguntou, quebrando o fluxo da conversa.
— No sábado. — respondeu Carlos, satisfeito. — Já mandei os documentos. O advogado do Villar vai cuidar de tudo.
— O advogado dele? — franziu o cenho. — Então ele não vai nem me conhecer antes?
— Ele já viu fotos. — disse Nanci, como se explicasse algo óbvio. — E basta isso. Você devia se considerar sortuda.
— Sortuda. — repetiu, amargando o gosto da palavra.
Carlos levantou, dobrando o jornal. — Hoje uma funcionária dele vem aqui. Quer ver você, ou sei lá o quê. Às duas. Faça o favor de estar apresentável.
— Sim, senhor.
— Karen, empresta uma roupa bonita para sua irmã.
— Mas pai...
— É um investimento, filhota. — sorriu, paternal. — Se esse casamento der certo, te compro outro vestido.
Karen sorriu satisfeita. Karla abaixou a cabeça, as mãos tremendo.
Quando todos saíram, Elisa ficou sozinha diante da mesa, olhando para o pão pela metade. O bule de café ainda soltava fumaça, mas o ar parecia congelado.
Ela levou o pedaço restante à boca, mastigando devagar, tentando engolir a vergonha junto com o alimento.
Sabia que, naquela casa, não existia espaço para amor. Só para trocas.
E ela estava prestes a ser a mais cara delas.
O silêncio depois do café parecia mais alto que qualquer discussão. A cozinha ainda cheirava a café e pão fresco. Os pratos usados jaziam na mesa, restos de manteiga endurecida e migalhas espalhadas, como testemunhas do que nunca lhe pertencia.
Elisa recolhia tudo em silêncio, os movimentos automáticos. Pousava cada prato com cuidado, como quem tem medo de fazer barulho e atrair raiva.
O chão frio sob os pés descalços, a roupa desbotada de sempre — uma blusa velha e a saia amarrotada que antes fora de Karen.
— Quer ajuda? — a voz de Karla soou atrás dela, baixinha, quase um segredo.
A menina vinha descalça também, os cabelos ainda desgrenhados, o olhar cheio de culpa.
— Acho que vão brigar com você se me ajudar, Karlinha. — Elisa respondeu sem virar o rosto. — Não quero confusão pra você. Já me ajudou bastante ao me dar o seu pão.
Karla cruzou os braços, inconformada.
— Papai é tão c***l com você. — pegou a jarra de suco, tampou e guardou na geladeira com força. — Quero dizer... olha isso! — voltou para a mesa e apontou para o cesto ainda cheio. — Ninguém comeu, Lisi. Ninguém!
Elisa olhou o cesto, respirou fundo e deu um meio sorriso cansado.
— Eu sei. É sempre assim, lembra? — disse, enxugando uma tigela. — Fingem que falta pra justificar me negar. Já me acostumei.
— Mas não devia se acostumar! — Karla protestou, baixando o tom para não ser ouvida além da porta. — Tá ficando pior. E o que o papai disse hoje... sobre te casar e dar vestidos pra Karen... foi nojento. Ele fala igual a um c*****o.
Elisa parou de lavar por um instante. A água batia no metal da pia, o som se arrastando pelo ambiente como uma trilha de tensão.
— Eu tô com tanto medo, Karlinha... — murmurou. — Aqui é r**m, mas pelo menos eu sei o que esperar. Eu vou ser esposa de um homem que nunca vi. — ela esfregava um prato com mais força do que o necessário. — E se ele for pior que o papai? E se me bater? E se eu... nunca mais voltar? — sua voz falhou. — Papai não vai se importar. Só vai querer o dinheiro na conta.
A menina se aproximou, sem medo de se molhar com os respingos da pia, e tocou de leve o braço da irmã.
— Eu sinto tanto por você, Lisi. — sussurrou. — Não queria que nada disso te acontecesse. Eu te amo, tá? Muito.
Elisa pousou o prato, virou-se e abraçou a irmã com força.
— Eu também te amo, Karlinha. — disse entre lágrimas contidas. — Você é a única coisa boa que eu tenho aqui. A única pessoa que vai me fazer falta.
Por um momento, o mundo parou ali — duas irmãs abraçadas no meio de uma cozinha fria, tentando aquecer uma à outra num lar sem afeto.
— Será que eu vou poder te visitar? — Karla perguntou, forçando um sorriso. — Vai que você mora perto...
— Primeiro a gente tem que ver se meu marido vai me deixar receber visitas. — Elisa fungou, tentando parecer forte. — Mas eu vou levar meu celular escondido. A gente se fala, prometo. Nem que seja uma mensagem por semana.
Karla sorriu, enxugando as lágrimas com o dorso da mão.
— Eu vou cobrar, hein. E se não responder, eu invado a casa dele.
— Ai, não faz isso. — Elisa riu fraco. — Melhor não me dar esperanças.
Pôs a última louça pra secar e virou-se pra irmã. — Vamos terminar logo. Preciso me arrumar pra virar mercadoria.
— Você não é mercadoria, Lisi. — Karla rebateu, firme. — Eles é que são podres demais pra ver o valor que você tem.
Elisa respirou fundo, o olhar distante.
— Obrigada, mas não fala assim. Se ouvirem, sobra pra você.
— Então que sobre. — a menina respondeu, cruzando os braços. — Não quero mais ver você sofrer calada.
Elisa pousou a mão sobre o rosto da irmã, num gesto protetor.
— Você é boa demais pra esse lugar. Fica forte, tá? Um dia você sai daqui também.
— Um dia nós duas saímos. — Karla insistiu. — Nem que seja fugindo.
Elisa riu baixinho, um riso sem esperança.
— Eu já vou fugir, só não do jeito que queria.
Ficaram em silêncio por alguns segundos, o barulho da torneira preenchendo o espaço entre elas.
Depois, Karla respirou fundo, enxugou as mãos no pano e tentou mudar o clima.
— Agora vamos acabar logo com isso. Preciso te deixar linda pra assustar a funcionária do seu futuro marido. — disse, piscando.
Elisa sorriu de canto, com um humor frágil.
— Linda pra ser examinada, que delícia. Me sinto um pedaço de carne em exposição.
— Um pedaço de carne com classe. — brincou Karla, fazendo uma reverência exagerada.
As duas riram baixinho, cúmplices, e seguiram juntas para o quarto de Karen.
No corredor, o som dos saltos da madrasta ecoava ao longe, lembrando que a trégua era curta.
Mas, por alguns minutos, Elisa pôde respirar — como se o amor da irmã caçula fosse o último refúgio que restava antes do abismo.