Capítulo 2

1954 Words
O sol m*l havia subido quando Elisa abriu os olhos. A luz fraca atravessava as frestas da cortina rota, riscando o chão do quarto pequeno onde dormia — o mesmo onde ficavam os baldes de limpeza e as roupas passadas da família. O cheiro de mofo misturava-se ao do sabão, impregnado nos lençóis ásperos. Seu estômago roncava, lembrando-a de que a última refeição havia sido no café da manhã do dia anterior — e mesmo assim, alguns biscoitos que sobraram depois que todos já tinham comido. Ela se levantou devagar, lavou o rosto na pia do canto, prendeu o cabelo loiro num coque e respirou fundo. Descer para o café era como atravessar um campo minado: uma palavra errada, um olhar m*l interpretado, e o castigo voltaria. A cozinha estava iluminada, impecável, com a mesa principal cuidadosamente posta. A toalha de linho, os pratos alinhados, o bule de café soltando fumaça. Era um cenário de revista — e mesmo assim, frio, impessoal. Carlos lia o jornal, óculos no meio do nariz, expressão sisuda de quem se acreditava o dono de tudo. Nanci cortava o pão com delicadeza afetada, o anel dourado tilintando no prato. Karen, a filha preferida, falava sobre o baile de formatura; Karla, quieta, apenas mexia o café. Elisa parou na porta por um instante, respirou fundo e fingiu o sorriso mais ensaiado que tinha. — Bom dia. Nenhum olhar se ergueu. Nenhuma resposta. O som do jornal sendo virado foi a única reação. Ela se aproximou e sentou-se no banco de plástico — o único que não combinava com o conjunto da mesa. Desde que Karla passara a comer com os pais, o lugar de Elisa fora rebaixado. Literalmente. — Me desculpem por ontem. — tentou, a voz baixa, os olhos buscando algum traço de humanidade. — Eu não devia ter falado o que não sei. Karen ergueu os olhos, um sorriso de escárnio nos lábios pintados. — Não devia mesmo. Nem falar, nem existir, né? — Karen. — Nanci a advertiu com falsa doçura. — Não fale assim, querida. Não pega bem. Fez uma pausa e acrescentou, sem olhar para Elisa: — Você não tem que se rebaixar ao nível dela. — Já chega. — Carlos pigarreou. — Senta e toma café, Elisa. Ela obedeceu. O aroma do café fresco era quase c***l — uma provocação. Estendeu a mão em direção à cestinha de pães, mas a mão de Carlos desceu sobre a dela, firme. — Ainda não terminei. — disse, frio. Elisa recuou. — Desculpe. O senhor disse pra eu tomar café… — Os pães estão contados. — ele respondeu, sem levantar os olhos. — Come biscoito. O pacote de cream cracker caiu sobre a mesa com um baque seco. Ela ficou olhando, tentando disfarçar a humilhação, mas Nanci soltou uma risadinha breve, quase elegante. — É o que dá não saber o seu lugar, não é, Carlos? — comentou, como se falasse sobre o tempo. — A gente acolhe, dá casa, comida... e ainda assim, se acha no direito de questionar. — Não precisa exagerar, mãe. — Karla tentou intervir, com a voz mansa. — Ela só está com fome. — Fome? — Nanci arqueou uma sobrancelha. — Fome é o que se passa quando não se tem onde cair morta. Ela devia agradecer por ter teto. Elisa abaixou a cabeça. As palavras doíam mais que qualquer castigo. O estômago revirava, mas o orgulho pedia que ela não chorasse. — Talvez eu devesse mesmo me casar. — murmurou, a raiva misturada ao desespero. — Se meu marido me der um pão por dia, já vai ser um avanço. Carlos ergueu os olhos lentamente por cima do jornal. O silêncio que se formou foi sufocante. Por um segundo, Elisa pensou que ele fosse se levantar e bater nela ali mesmo. Mas ele apenas sorriu. Um sorriso seco, frio, que não alcançava os olhos. — Engraçada. Puxou a língua da mãe. A frase a atravessou como uma lâmina. A mãe. A mulher que, segundo ele, “morrera por incompetência própria”. Karla, ao lado, se mexeu desconfortável. — Pode comer o meu pão, Lisi. — disse, baixinho. Carlos virou-se para ela com um olhar tão gelado que o ar pareceu sumir da cozinha. — Ninguém te perguntou nada, Karla. — Mas ela tá com fome! — insistiu, a voz embargada. — A família tem que se ajudar. Nanci bateu o talher no prato. — Carlos! — exclamou, indignada. — Veja o que essa menina tá aprendendo com ela! — Basta. — Carlos ergueu a mão, o tom de autoridade voltando. — Coma, Elisa. Mas só esse. E agradeça à sua irmã. Elisa ergueu os olhos marejados para Karla e assentiu. — Obrigada. — murmurou, e deu uma mordida no pão. Era doce, talvez por causa da generosidade de quem o ofereceu. Enquanto mastigava devagar, o som das vozes ao redor retomou — o falatório sobre o vestido de Karen, a festa, os convidados importantes. Elisa olhou o prato vazio e pensou em como tudo naquela casa girava em torno de aparências. Nem um pão sobrava para ela, mas o nome da família era sagrado. — Quando vai ser o casamento? — perguntou, quebrando o fluxo da conversa. — No sábado. — respondeu Carlos, satisfeito. — Já mandei os documentos. O advogado do Villar vai cuidar de tudo. — O advogado dele? — franziu o cenho. — Então ele não vai nem me conhecer antes? — Ele já viu fotos. — disse Nanci, como se explicasse algo óbvio. — E basta isso. Você devia se considerar sortuda. — Sortuda. — repetiu, amargando o gosto da palavra. Carlos levantou, dobrando o jornal. — Hoje uma funcionária dele vem aqui. Quer ver você, ou sei lá o quê. Às duas. Faça o favor de estar apresentável. — Sim, senhor. — Karen, empresta uma roupa bonita para sua irmã. — Mas pai... — É um investimento, filhota. — sorriu, paternal. — Se esse casamento der certo, te compro outro vestido. Karen sorriu satisfeita. Karla abaixou a cabeça, as mãos tremendo. Quando todos saíram, Elisa ficou sozinha diante da mesa, olhando para o pão pela metade. O bule de café ainda soltava fumaça, mas o ar parecia congelado. Ela levou o pedaço restante à boca, mastigando devagar, tentando engolir a vergonha junto com o alimento. Sabia que, naquela casa, não existia espaço para amor. Só para trocas. E ela estava prestes a ser a mais cara delas. O silêncio depois do café parecia mais alto que qualquer discussão. A cozinha ainda cheirava a café e pão fresco. Os pratos usados jaziam na mesa, restos de manteiga endurecida e migalhas espalhadas, como testemunhas do que nunca lhe pertencia. Elisa recolhia tudo em silêncio, os movimentos automáticos. Pousava cada prato com cuidado, como quem tem medo de fazer barulho e atrair raiva. O chão frio sob os pés descalços, a roupa desbotada de sempre — uma blusa velha e a saia amarrotada que antes fora de Karen. — Quer ajuda? — a voz de Karla soou atrás dela, baixinha, quase um segredo. A menina vinha descalça também, os cabelos ainda desgrenhados, o olhar cheio de culpa. — Acho que vão brigar com você se me ajudar, Karlinha. — Elisa respondeu sem virar o rosto. — Não quero confusão pra você. Já me ajudou bastante ao me dar o seu pão. Karla cruzou os braços, inconformada. — Papai é tão c***l com você. — pegou a jarra de suco, tampou e guardou na geladeira com força. — Quero dizer... olha isso! — voltou para a mesa e apontou para o cesto ainda cheio. — Ninguém comeu, Lisi. Ninguém! Elisa olhou o cesto, respirou fundo e deu um meio sorriso cansado. — Eu sei. É sempre assim, lembra? — disse, enxugando uma tigela. — Fingem que falta pra justificar me negar. Já me acostumei. — Mas não devia se acostumar! — Karla protestou, baixando o tom para não ser ouvida além da porta. — Tá ficando pior. E o que o papai disse hoje... sobre te casar e dar vestidos pra Karen... foi nojento. Ele fala igual a um c*****o. Elisa parou de lavar por um instante. A água batia no metal da pia, o som se arrastando pelo ambiente como uma trilha de tensão. — Eu tô com tanto medo, Karlinha... — murmurou. — Aqui é r**m, mas pelo menos eu sei o que esperar. Eu vou ser esposa de um homem que nunca vi. — ela esfregava um prato com mais força do que o necessário. — E se ele for pior que o papai? E se me bater? E se eu... nunca mais voltar? — sua voz falhou. — Papai não vai se importar. Só vai querer o dinheiro na conta. A menina se aproximou, sem medo de se molhar com os respingos da pia, e tocou de leve o braço da irmã. — Eu sinto tanto por você, Lisi. — sussurrou. — Não queria que nada disso te acontecesse. Eu te amo, tá? Muito. Elisa pousou o prato, virou-se e abraçou a irmã com força. — Eu também te amo, Karlinha. — disse entre lágrimas contidas. — Você é a única coisa boa que eu tenho aqui. A única pessoa que vai me fazer falta. Por um momento, o mundo parou ali — duas irmãs abraçadas no meio de uma cozinha fria, tentando aquecer uma à outra num lar sem afeto. — Será que eu vou poder te visitar? — Karla perguntou, forçando um sorriso. — Vai que você mora perto... — Primeiro a gente tem que ver se meu marido vai me deixar receber visitas. — Elisa fungou, tentando parecer forte. — Mas eu vou levar meu celular escondido. A gente se fala, prometo. Nem que seja uma mensagem por semana. Karla sorriu, enxugando as lágrimas com o dorso da mão. — Eu vou cobrar, hein. E se não responder, eu invado a casa dele. — Ai, não faz isso. — Elisa riu fraco. — Melhor não me dar esperanças. Pôs a última louça pra secar e virou-se pra irmã. — Vamos terminar logo. Preciso me arrumar pra virar mercadoria. — Você não é mercadoria, Lisi. — Karla rebateu, firme. — Eles é que são podres demais pra ver o valor que você tem. Elisa respirou fundo, o olhar distante. — Obrigada, mas não fala assim. Se ouvirem, sobra pra você. — Então que sobre. — a menina respondeu, cruzando os braços. — Não quero mais ver você sofrer calada. Elisa pousou a mão sobre o rosto da irmã, num gesto protetor. — Você é boa demais pra esse lugar. Fica forte, tá? Um dia você sai daqui também. — Um dia nós duas saímos. — Karla insistiu. — Nem que seja fugindo. Elisa riu baixinho, um riso sem esperança. — Eu já vou fugir, só não do jeito que queria. Ficaram em silêncio por alguns segundos, o barulho da torneira preenchendo o espaço entre elas. Depois, Karla respirou fundo, enxugou as mãos no pano e tentou mudar o clima. — Agora vamos acabar logo com isso. Preciso te deixar linda pra assustar a funcionária do seu futuro marido. — disse, piscando. Elisa sorriu de canto, com um humor frágil. — Linda pra ser examinada, que delícia. Me sinto um pedaço de carne em exposição. — Um pedaço de carne com classe. — brincou Karla, fazendo uma reverência exagerada. As duas riram baixinho, cúmplices, e seguiram juntas para o quarto de Karen. No corredor, o som dos saltos da madrasta ecoava ao longe, lembrando que a trégua era curta. Mas, por alguns minutos, Elisa pôde respirar — como se o amor da irmã caçula fosse o último refúgio que restava antes do abismo.
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