"Quando a febre se torna prece, até os Deuses esquecidos ouvem."
— Fragmento de "Cânticos da Noite Vazia" Arquivos de Thérion
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Elisa parecia estar em chamas. As curandeiras já não sabiam mais o que fazer. Durante o dia, ela se comportava normalmente, mas quando o sol se punha, uma febre intensa queimava seu corpo como brasas vivas. Charles estava ficando cada vez mais preocupado. Melinda, por sua vez, recusava-se a aceitar que aquilo pudesse ser o cumprimento da profecia de uma bruxa louca.
— Talvez fosse melhor procurarmos por Étina — sussurrou Charles, conspiratório, enquanto observava Alda banhar o corpo febril de Elisa.
— Não! Não comece com isso de novo, Charles! — Melinda o repreendeu com a voz baixa e trêmula. — Não podemos atravessar aquela barreira. Esqueceu como era? O pavor? Eles andavam entre nossas casas como senhores da morte... Destruíam tudo. Matavam. Você se esqueceu da Anabel?
Ela não esquecera. Jamais esqueceria.
A imagem de sua amiga, com os olhos vidrados e o corpo seco como pergaminho, ainda a perseguia nos sonhos. Os gritos. O sangue ausente. As risadas dos filhos da noite ecoando pelas colinas. Tinha sido uma tarde comum. Elas brincavam juntas quando Anabel se atrasou para voltar. Os pais vieram buscá-la, mas não deu tempo de protegerem a entrada. Quando o crepúsculo caiu, os monstros atacaram. Sem piedade. Sem hesitação. E Anabel... foi só mais uma flor arrancada do jardim.
— Querida — Charles a abraçou com força. — Eu sei. Mas... podemos encontrar um local seguro, um modo de atravessar a noite. Eu não suporto mais ver nossa filha assim. Está consumida... e você sabe o que a consome.
Melinda olhou Elisa, pálida, imóvel, sua pele úmida de suor e o peito arfando. Talvez Charles estivesse certo. Nenhuma das curandeiras parecia capaz de ajudá-la. Nem Alda, nem os chás, nem as preces antigas. Elisa precisava de alguém com magia verdadeira. Precisava de Étina.
— Você tem razão... — sussurrou por fim, derrotada. — Nada do que fizermos será suficiente.
— Nós vamos encontrar um jeito. Eu prometo.
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Elisa sentia falta de Henrique como se fosse parte de sua própria alma arrancada do corpo. A febre não a deixava sair de casa à noite, e seu maior medo era que ele desistisse de esperá-la. Precisava vê-lo. Nem que fosse por uma última vez.
Naquele entardecer, antes de se deitar, passou um pano úmido no rosto para disfarçar o calor da febre. Melinda, em sua ronda costumeira, entrou em silêncio, tocou a testa da filha e, aliviada por não sentir ardência, deixou um beijo e seguiu para a cama dos outros filhos. Assim que tudo silenciou, Elisa se levantou.
Caminhou como se o chão queimasse sob os pés. Cada passo doía. A febre latejava dentro do crânio, mas seu coração a empurrava em direção à floresta. Ao chegar ao lugar onde sempre se encontravam, o vazio a atingiu como uma lâmina. Henrique não estava lá.
O desespero engoliu sua razão. Por um segundo, pensou em atravessar a barreira. Ir ao encontro dele. Ou talvez apenas tentar... talvez ele estivesse ali perto, esperando, procurando por ela...
— Ah, Elisa... — disse uma voz às suas costas, suave como o vento. — Você está viva...
Ela se virou abruptamente. Henrique saiu de entre as árvores, tão abatido quanto ela.
— Henrique! — O peito de Elisa se encheu de ar e emoção. — Pensei que tivesse desistido...
— Eu... — ele hesitou. — Estava preocupado. Muito. Vi você há algumas noites. Estava desacordada. Um casal a trouxe até o rio... parecia doente. Eu queria atravessar essa maldita barreira. Queria te proteger.
Ela se aproximou, ofegante.
— Eu senti sua falta todos os dias. Só pensava em te ver de novo.
— E eu, você. Mas isso já não é o bastante, Elisa.
Henrique tocou a barreira com raiva. O som s***o ecoou como um lamento. O mundo parecia c***l por separá-los por uma parede invisível.
— Você está fraca. Essa febre... isso não é normal. Cadê as bruxas? Por que ninguém te ajuda?
— Não há mais Filhas da Terra por aqui. Minha mãe disse que foram todas mortas.
— Isso não faz sentido — ele franziu o cenho. — Só uma bruxa poderosa pode manter uma barreira dessas. E ela precisa estar perto. Ou... o artefato usado para erguer isso tudo está aqui.
Elisa o encarou, surpresa. Como ele sabia disso?
— Quem é você, Henrique?
— Um viajante — disse, e havia verdade em seu tom. — Cresci entre pessoas que odeiam magia, mas que a estudam com fervor. Conheço feitiços, Elisa. Uma barreira como essa protege algo grande. Algo importante. Nenhuma magia dessas se sustenta sozinha.
Elisa quis perguntar mais, mas o mundo rodou sob seus pés. Cambaleou. Henrique gritou seu nome e bateu na barreira, impotente.
— Elisa... — ele gritou, desesperado — Maldita parede! — protesta.
— Henrique, eu estou bem — disse ela, erguendo-se com dificuldade. As pernas fraquejaram, e ele fez menção de ajudá-la, apesar de não poder atravessar a barreira — Eu preciso ir — disse Elisa, a dor apertando o estômago. O peso da despedida a esmagava, mas não tinha forças para ficar em pé, muito menos para atravessar a mata e voltar para casa.
— Você consegue ir sozinha? — perguntou Henrique, a preocupação evidente na voz.
— Consigo — respondeu ela, teimosa. Henrique temia que ela caísse, se machucasse ou desmaiasse no caminho. A escuridão era densa, e Elisa fraca demais para aquela travessia — Prometo que volto.
— Eu sempre estarei esperando — respondeu ele, seus olhares se encontrando.
Entre eles, a chama do amor pairava no ar, intensa e avassaladora, preenchendo o espaço invisível que os separava. Era um sentimento puro, tão forte que lhes roubava o fôlego.
Elisa se virou, lutando contra a vontade irresistível de romper a barreira e se lançar nos braços de Henrique, antes que suas forças finalmente a abandonassem.