A Luz da Verdade

951 Words
"Todo monstro já foi uma promessa de salvação — antes que a escuridão o reconhecesse como seu." — Fragmento atribuído a Étina, a Bruxa de Sangue ⸻ Elisa ainda estava desacordada quando Henrique a colocou no chão de uma cabana rochosa que havia invadido tempos atrás. O lugar se assemelhava a uma caverna — sem janelas, sem qualquer a******a para que a luz do sol penetrasse. Provavelmente, algum vampiro fizera dela sua morada antes dele. Henrique não sabia como acordá-la, mas ouvia seu coração bater, ainda que fraco, e sua respiração lenta, ofegante. Lamentava, do fundo da alma, não possuir o dom da cura. Mas tinha fé: ela acordaria, quando o corpo se recuperasse. Só que, assim que a adrenalina do confronto passou, sua garganta ardeu. O cheiro de Elisa dominava o lugar — doce, quente, indescritivelmente atrativo. Sua mente o traiu, imaginando o gosto de seu sangue, e o monstro que tanto temia despertou. Os olhos tingiram-se de vermelho, os caninos despontaram, e as veias em seu pescoço pulsaram com veneno. Foi tomado por um impulso primal. Em segundos, estava sobre o corpo de Elisa — imóvel, vulnerável, adormecida. Mas então viu seu rosto... aquele rosto que admirara em sonhos, que o havia feito desertar do palácio, que o chamava sem palavras. Fechou os olhos com força, reprimiu os sentidos, afastou-se. Não. Ele não podia ser o monstro que sempre temeu. Saiu da cabana, apesar do receio de deixá-la sozinha. Precisava caçar. Só assim manteria o controle. ⸻ Elisa acordou entre dores. O corpo parecia pesado, dormente, como se pertencesse a outra pessoa. Tentou se mover, mas tudo doía. Forçou os olhos a abrirem, mas foi recebida por uma dor de cabeça latejante e uma tontura nauseante. Tentou se sentar, mas um movimento no ar a alarmou — e um toque firme em seu braço a fez arregalar os olhos. Henrique estava tão próximo que ela m*l o reconheceu. — Não faça esforço — disse ele, em voz baixa. Aquele som era familiar. Acalmava seu coração, apesar da confusão. Mas então as lembranças voltaram como lâminas. Elisa se desvencilhou de seu toque. — Fique longe de mim. Henrique não insistiu. Ergueu as mãos num gesto de rendição e se afastou. — Você está segura. Eu não vou machucar você. — Você é um deles — disse Elisa, recuando. — Elisa... por favor. — Por que eu confiaria em você? — Porque você me conhece. Sabe dos meus sentimentos. — Eu conhecia o humano chamado Henrique. Ele não era um monstro. Henrique sentiu a dor daquelas palavras mais do que qualquer golpe físico. Havia escolhido ser diferente. Não caçava humanos havia anos. Alimentava-se de animais, controlava seus instintos, tudo por uma humanidade que julgava ter perdido — até encontrar Elisa. — Você me enganou — acusou ela. — Eu omiti a verdade. Não era necessário no começo... — Então por que você parece... tão humano? Henrique hesitou. — Me pareço com você? É isso que quer dizer? Elisa não respondeu. Estava confusa. Ele era diferente. Aquela força sobre-humana, os olhos vermelhos... mas algo nele ainda era o mesmo. O homem do riacho. O que sorria com os olhos, que a fazia sentir que pertencia a algum lugar. — Elisa — ele disse, suave. — Eu sou o mesmo que te esperou no riacho todos os dias desde que te vi pela primeira vez. Aquelas palavras a atingiram como uma onda. Elisa sentiu o calor subir pelo peito. Viu os olhos dele mudarem de novo, e deu um passo involuntário em sua direção. — O que foi isso? — Não... fique aí — pediu Henrique, recuando. Os olhos fechados com força e cabeça baixa — Só preciso de um minuto. Ele respirou fundo, lutando contra os instintos. Concentrando-se no que sentia por ela. — Henrique... — Já passou.— disse ele abrindo os olhos novamente, conseguindo controlar seus instintos — Mas você ainda está fraca. — O que aconteceu comigo? — Você é uma Filha da Terra, Elisa. Todo aquele poder... ele veio de você. Ela negou com a cabeça. — Isso não faz sentido. Minha mãe disse que uma bruxa amaldiçoou sua gravidez. Deve ter sido isso. Meu corpo está colapsando com toda essa magia n***a! — Pode ser. Mas se for uma maldição, só uma bruxa poderá desfazê-la. — Eu não conheço nenhuma bruxa. Todas foram mortas por vocês — acusou. — Eu não sou o monstro que você pensa — disse Henrique, com firmeza. — Como não? A sua natureza é destruir tudo ao redor. — Então me deixe provar o contrário. Eu vou levá-la até uma bruxa. Uma que pode curá-la. Elisa hesitou. Queria apenas voltar para casa. Sabia que os pais estariam desesperados. — Preciso ir embora. Tentou se levantar, mas ainda cambaleava. — Espere o pôr do sol. Eu posso te proteger e mostrar o caminho. — Pôr do sol? Há quanto tempo estou aqui? — Você dormiu o restante da noite... e quase o dia todo. O desespero tomou seu rosto. — Ah, não... estou perdida. Meus pais... vão pensar que fugi. Jamais vão confiar em mim de novo. — Você voltará segura — disse Henrique, com um tom que tentava confortá-la. — Eu prometo. Elisa o olhou nos olhos pela primeira vez desde que acordara. Olhos cor de noz. Profundos, fiéis, ainda os mesmos. Mas o medo ainda pesava em seu peito. No fim, porém, sabia que não tinha escolha. Estava longe de casa, fraca, perdida. Henrique era tudo o que tinha naquele momento. — Está bem — ela disse, enfim. Henrique relaxou os ombros. Pela primeira vez, havia uma trégua. E talvez, no silêncio, entre monstros e lembranças, algo novo estivesse apenas começando.
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