RD VAI MORAR NO JURAMENTO

1710 Words
Capítulo 20 RD Narrando Quando saí da minha casa, eu e meu irmão Pedro — agora PH — não sabia que ele ia ser tão legal ser chefe de um morro. Quando chegamos na contenção, os moleques, tudo armado, ficaram olhando para aquele monte de carro subindo, que eu estava dirigindo um, Pedro dirigindo o outro e o Luiz dirigindo outro carro. Fiz questão de parar na boca principal para falar com o tal Mizinho. Entrei sem bater, a sala é minha, o morro é meu. Ele estava com uma p**a no colo, naturalmente, como se não estivesse em local de trabalho. O susto foi tão grande que ele jogou a mulher no chão. Olhei para ele bem sério e disse: — A farra tá boa aí, né, Mizinho? Quer dizer, quando o gato não está, o rato faz a festa! Só que essa mamata acabou. A partir de agora você está destituído do cargo de sub do morro... você está aposentado. Pode ir para sua casa arrumar suas malas e sair do morro ou viajar para onde você quiser. O meu sub, a partir de hoje, é o PH, meu irmão Pedro Henrique. E você não é mais nada aqui no morro, não deve nada e nem eu te devo nada. Se alguém teria que te dar alguma coisa, já está no colo do capeta, era o Heleno. Sei que vocês dois estavam roubando o caixa dois do morro, mas eu vou te dar uma chance. Vou deixar que você saia do morro com seus filhos ou filhas, não sei, e sua esposa, sem olhar para trás. O que você puder levar, pode levar. Não vou impedir nada, só não quero ver você mais aqui no Juramento, certo? Então, por favor, pode se retirar. Quando olhei para o rosto do tal Mizinho, ele estava pálido e assustado. Perguntou, ainda gaguejando: — Quem matou o Heleno? Respondi: — Fui eu que matei o Heleno e a filha dele também, e mais o mecânico que sabotou o jato em que meu pai estava com a minha mãe. E eu também estaria morto se não tivesse desistido em cima da hora. Então mereceu morrer, os três. Ele continuou me olhando incrédulo e disse, sem medo de morrer também: — Mas me disseram que você era um banana... Como assim você matou os três de uma vez? Aguentou ver o sangue deles jorrando? Olhei para aquele homem de estatura pequena e disse para ele: — Você não tem medo de morrer, não, cara? Você não está acreditando que fui eu? PH, vem até aqui, meu irmão, mostre o vídeo para ele. Sei que foi gravado e está em todas as redes da facção. PH pegou o celular, abriu na filmagem e deu na mão dele. Quando ele olhou e viu o que aconteceu, tornou a olhar para mim assustado, juntou suas coisas tremendo muito, pediu desculpas dizendo: — Vou-me embora do Juramento e nunca mais volto aqui, isso eu prometo. Não vou mais roubar nada de ninguém. Me perdoa, patrão. E sumiu porta afora quase em alta velocidade. Olhei para o PH e demos uma gargalhada, porque foi muito engraçada a carreira que o tal Mizinho deu. Luiz ficou me olhando com um certo receio, porque ele sabia do que eu era capaz, mas eu ainda estou assustado com o meu novo eu. Eu não sabia que eu tinha instinto de crueldade. Eu acho que estava adormecido dentro de mim, um gatilho, e ele acordou. E tenho certeza que não vai dormir mais. Meu irmão me tirou dos meus pensamentos, dizendo: — Vamos subir a colina, que eu já estou varado de fome. E olha que eu não uso droga. Tô com essa fome, imagina esses candangos aí que fumam. Devem estar tudo desmaiado pelos becos, porque já são uma hora da tarde. Mesmo assim, pedi para ele esperar e abrir o cofre da boca. E lá estava muito dinheiro. O Mizinho não deu tempo de roubar, porque ele não ficou sabendo que nós tínhamos descoberto o roubo do caixa dois. Mas agora, com o meu irmão junto comigo na contabilidade, me ajudando, nós vamos crescer e dobrar esse dinheiro. Primeira coisa que eu quero fazer é que eles me levem naquelas encostas que só moram pobrezinhos. Quero ver como está aquele povo e a casa deles, se tem estrutura. Se não tiver estrutura, vou dividir a quadra em blocos, vou trazer essas pessoas para a quadra e vou construir vinte casas para vinte famílias, tudo com saneamento básico e encosta segura, com muita segurança. Não quero deslizamento de terra para que pessoas morram quando vierem as chuvas de janeiro, fevereiro e março. São três meses que chovem bastante, e nós temos que ficar de olho em nossos pontos, porque os governantes mesmo nem estão aí para eles. Vou usar esse dinheiro para isso. Fechei o cofre e subi com meu irmão e o Luiz. Entramos naquela mansão enorme. Falei para o Pedro que, se ele quisesse, podia morar comigo e a minha mãe junto. Arriamos as minhas malas. Olhei na cozinha, era linda. Não tínhamos os móveis ainda, porque meu pai disse que estavam no galpão da loja. Vou mandar buscar. O Pedro vai buscar para mim. Mas, antes disso, vamos na casa da nossa mãe. Descemos o morro, aquele monte de mulher olhando para mim e o Pedro. Nós começamos a rir, porque sabíamos o que elas estavam querendo: dinheiro. E sabiam também que ia ter o baile de posse, e elas queriam estar ao lado dos patentes. Tudo isso Pedro me ensinou. Ele não é bandido, não, mas ele via o proceder na comunidade. Chegamos na casa da minha mãe. O Pedro saiu entrando. Claro, ele já está mais acostumado com ela. Quando ela falou: — Que é isso, menino? Foi essa educação que eu te dei? Aprenda a bater na porta! E se eu tô nua? Ele começou a rir, e eu entrei mais atrás. Quando ela me viu, perdeu o sangue, ficou pálida. Pedro correu e segurou, porque parecia que ela iria desmaiar. Eu tentei segurar ela, mas ela botou a mão no meu peito e disse que estava bem, tudo bem. Pedro buscou uma cadeira, sentamos ela e fizemos água com açúcar e demos a ela. A casinha era humilde, bem humilde mesmo. Eu não ia deixar minha mãe morar naquele lugar. Olhei para ela e sentei ao seu lado. Ela baixou os olhos com vergonha. Falei para ela: — Mamãe... Quando eu disse essa palavra, “mamãe”, ela me olhou e começou a chorar, dizendo: — Não sou digna de você me chamar de mãe. Eu te abandonei no pior momento da sua vida, mas foi para você não morrer de fome. Eu aguentava a fome, mas você não. Mesmo assim, eu abracei e disse: — Minha mãe, eu entendi o que a senhora fez. Tudo que a senhora fez foi por amor, não foi porque nunca gostou de mim. E vamos parar com esse chororô. Eu vim te fazer uma proposta e não aceito não como resposta. Ela enxugou as lágrimas com um avental e disse: — O que foi, meu filho? E aquela palavra amaciou o meu coração mais ainda. Eu disse para ela: — O meu pai deixou um apartamento para você na Barra, mas eu sei que você não vai querer. Então nós vamos fazer o seguinte: vou vender para a senhora, e pegar esse dinheiro e guardar para você fazer o que quiser com ele. E agora vem o que eu quero de você! Quero que você venha morar comigo na mansão no alto do morro. Ela olhou para mim sorrindo e disse: — Não, meu filho, eu não quero atrapalhar a sua vida. Como eu disse, não quero não como resposta. Eu quero que a senhora fique comigo. E o PH também. Ela falou: — Eu te pergunto, quem é PH? Fiquei sem graça, e o PH também. Ele coçou a cabeça e disse: — Mãe, eu agora sou sub do morro junto com meu irmão. Então nossos vulgos são RD e PH. Ela olhou para o Pedro com os olhos arregalados e disse: — Moleque sem-vergonha, com profissão agora vai virar bandido? Eu não vou deixar isso acontecer! Pedro olhou para nossa mãe e disse: — Eu já assinei os documentos, mamãe. Não quero que a senhora fique aborrecida comigo, mas de agora em diante eu sou o PH do Juramento. E deu uma gargalhada. Ela deu um monte de tapa nos braços dele, como se ele sentisse alguma dor. Continuei a falar com a minha mãe: — Vamos, mamãe, para minha casa, para a senhora cuidar de mim e do PH, porque ele também vai morar lá. Vamos deixar isso aí, na casa. Aluga ela, faz o que a senhora quiser, dá para alguém. Mas vamos para nossa casa. Lá é da senhora, é minha também. Vem, mamãe. Ela botou a mão na cabeça, olhou para o PH, sorriu e disse: — Tá bom, eu vou. Mas com uma condição: quem vai fazer a comida de vocês sou eu. E quem vai arrumar a cama de vocês e os quartos sou eu. Quem quiser botar faxineira que bote, mas os quartos de vocês e a comida de vocês eu é que faço e cuido das roupas, tá certo? Se não for assim, eu não vou. Claro que aceitamos. A nossa mãe é a nossa rainha. Ela começou a juntar suas roupas. Muitas roupas, não precisava levar aquelas velhas, mas eu fiquei quieto. Meu irmão é que vai falar disso depois. Botamos as coisas dela no carro. Deixamos a porta e falei para ela: — Depois a senhora vem tirar seus documentos tudo direitinho e dá para uma pessoa que não tem casa direito. E eu vou tirar algumas pessoas lá do outro lado do valão para fazer algumas casas lá. E pode botar uma família aí nessa casa para ser dela também, se a senhora quiser. Minha mãe aceitou. Fiquei muito feliz. Agora mora eu, minha mãe e meu irmão naquela mansão. PH agradeceu e foi buscar os móveis da casa. Essa semana vai ser muita correria entre a boca e ajeitar a mudança da casa.
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