AO SONHO DE RICARDO

1308 Words
Capítulo 18 Narrativa do Autor Ricardo saiu daquela reunião decidido sobre o que iria fazer. Entrou no seu carro importado e foi para o seu apartamento de cobertura na Barra da Tijuca. Chegando lá, entrou e foi direto para o quarto dos seus pais. A parede principal do quarto tinha uma foto dos dois em tamanho gigante. Ricardo olhou para aquela foto, ajoelhou no chão e chorou muito. Ficou deitado naquela cama chorando, pedindo perdão à mãe, pedindo perdão ao pai e dizendo: — Eu vinguei… eu vinguei a morte do senhor, meu pai. Não ficou ninguém de pé. Me perdoa por eu não ter sido mais forte. Não sei o que fazer neste momento. A empresa é onde o senhor lavava dinheiro e fazia coisas ilícitas, pai… eu não sou assim. Como vou liderar um morro se eu nunca fiz isso? Me ajuda, pai… Como minha mãe sabia de tudo e nunca me contou nada? Eu vivi uma mentira esse tempo todo. Por que vocês não me disseram nada? Precisei ouvir da boca de outras pessoas. Minha mãe, a senhora sabia desse acordo maldito e não me avisou… eu teria me precavido mais. A Helena não teria feito o que fez. Foi ela que mandou matar vocês e iria me matar também. Não sei mais quem está envolvido nessa história, mas os principais eu já matei. — Infelizmente eu herdei o seu sangue, pai… por isso o seu nome. Eles disseram que eu era adotivo da minha mãe Isabela. Conheci a minha mãe verdadeira hoje. Ela é bonita, mas está sofrendo também, porque pelo que eu pude ver o senhor a abandonou sem saber que ela estava grávida. Mas agora são águas passadas. O melhor de tudo, pai, é que o Pedro é meu irmão e eu amo de coração. Eu dizia que ele era meu irmão de alma e agora sei que ele é meu irmão de sangue. Estou feliz, mesmo não sabendo demonstrar naquele momento… mas eu estou feliz. Me orienta, meu pai, como fazer. Não sei liderar. Não posso chamar pessoas desconhecidas. O Pedro vai estar comigo como subchefe do morro, mas o resto eu tenho que aprender. Ricardo, chorando muito, se enrolou na manta em que a mãe dele dormia e pegou no sono. Alta madrugada, levantou, foi à cozinha, bebeu água, sentiu fome, fez um sanduíche e comeu. Voltou para o quarto dos seus pais, deitou na cama, se enrolou na manta e pegou no sono outra vez. Dormiu profundamente, sonhando com seus pais em um lugar que ele não conhecia. Ela dizia: — Meu filho, perdoa o seu pai e a mim por não ter te contado nada, mas foi melhor assim. Não deixe que aquele morro vá para as mãos de pessoas que não gostam da comunidade. Você é um filho maravilhoso e sei que vai saber lidar com o povo daquele lugar. Tudo que foi revelado naquela mesa hoje foi bom para você saber que existem pessoas que estão lado a lado com você, mas querem te ver morto. — Entenda bem o que eu estou te dizendo, meu filho: não abandone o teu irmão Pedro. O Pedro é uma parte de você. Grude com ele, ele vai te ajudar e vai te ensinar a sobreviver em meio ao caos. Maísa é a sua mãe. Ela vai te tratar com carinho porque o sonho dela era te encontrar — e encontrou, não numa situação tão boa, mas encontrou. Se não fosse a nossa morte, você jamais saberia da existência da sua verdadeira mãe. Diz um velho ditado: há males que vêm para o bem. Desculpa o seu velho pai. Perdoa de coração. Seja o dono do Morro do Juramento. Escolha isso para a vida. Defenda aquela comunidade de pessoas más. Seu pai deixou um aviso: — Resolva tudo na empresa. Todos aqueles papéis que você achou, leia e releia. Tem mais coisas dentro daquele esconderijo. Guarde, que é tudo ensinamento. Se você não quiser ficar à frente da empresa, o Luiz é a pessoa certa para você entregar. Como subdiretor, ele vai continuar fazendo o que eu fazia e vai te ajudar a fazer capital de giro com a lavagem de dinheiro. As outras empresas que eu tinha não participavam disso, só a da aviação. — Estou te passando tudo para tuas mãos para que eu e sua mãe possamos descansar em paz. Viva a sua vida da melhor forma possível. Abraça teu irmão, junte-se a ele e à sua verdadeira mãe. Não deixe que ninguém pise em vocês. Cuidado com a Margarida, ela é má. Cuide do morro. Quando o seu irmão aparecer, receba ele com carinho. Abrace o Pedro — ele sempre foi e sempre será o seu único amigo. Promete, meu filho? Na mesma hora, no sonho, Ricardo caiu de joelhos naquela grama linda e verde e prometeu ao pai que iria tomar conta do morro, respeitar sua verdadeira mãe, abraçar o seu verdadeiro irmão e ser fiel aos moradores daquela comunidade, defendendo-a como a própria vida. O sonho virou fumaça. Ricardo acordou molhado de suor e chorando muito, porque sentia muita falta dos seus pais. Agora percebeu que verdadeiramente estava sozinho. A campainha tocava havia bastante tempo — no sonho ele escutava o mesmo barulho. Levantou correndo, vestiu a bermuda, desceu as escadas, chegou à sala principal, abriu a porta e lá estava Pedro, sério e ao mesmo tempo parecendo feliz ao ver o irmão bem. Ricardo, sem pensar duas vezes, o puxou para um abraço e pediu perdão: — Meu irmão, me perdoa por eu ter feito aquilo com você… por ter saído e te deixado para trás sem ao menos me despedir. Eu já te amava como amigo, agora posso dizer que te amo porque você é meu irmão. Depois quero falar com a minha mãe também. Não quero que ela more mais lá no morro, quero ela neste apartamento aqui. Pedro arregalou os olhos, assustado: — Minha mãe não vai querer. Ricardo respondeu: — Lembre-se que ela também é minha mãe. Eu vou convencê-la a vir para cá. Não quero minha mãe passando luta. Ela não vai mais trabalhar para ninguém, vai ter vida de rainha — é o que ela merece. O que ela fez no passado está morto e enterrado. Agora vamos viver uma nova vida. Dito isso, Ricardo puxou Pedro para dentro e falou sorrindo: — Você sabe fazer café? Pedro sorriu: — Claro que sei. Esqueceu que eu sou pobre? Rico aqui é você. Os dois começaram a rir, e as coisas começaram a melhorar para os irmãos. Do outro lado da cidade, Melissa estava na piscina, sentada numa espreguiçadeira, escrevendo em seu notebook a documentação que iria dar posse ao Ricardo como verdadeiro herdeiro de toda a fortuna dos Garcias — principalmente a do pai dele. Dentro do testamento assinado por Antônio havia uma carta isolada que ninguém conhecia. Estava endereçada à mãe da Melissa. Ela abriu e dizia: "Marisa, vou deixar esta carta. Sei que estão tentando me matar — já tentaram duas vezes — e na última vez eu estava viajando com a minha esposa e meu filho. Eles não viram, mas eu vi. Quero deixar para a verdadeira mãe do Ricardo uma casa que tenho na Barra. O apartamento onde meu filho mora será dela, se ela quiser, mas os documentos estão em uma estante no meu escritório. A escritura já está no nome da Maísa e uma quantia em dinheiro que é da minha própria conta, não é do caixa dois. Se acontecer alguma coisa comigo, você entrega esta carta para ela, porque Maísa faz parte do meu testamento. Tem um escapulário dentro de uma caixa de veludo no escritório do hangar — é o meu. Quero que você diga para o seu pai entregar ao meu filho no dia da sua posse."
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