E lá estava Buck, em seu inseparável notebook. Buck era o nosso assistente, ele é um mestre quando se trata de informática. Ele não é agente de campo, não é ágil e muito menos forte, mas era um dos caras mais inteligentes que conheço. É nosso bichinho de estimação.
Não sou famosa pela minha paciência, então apenas rodeei as cadeiras próximas, e sentei na outra ponta da mesa. O ar condicionado estava na medida certa, meu corpo estava quente, a adrenalina havia disparado naquela noite, e eu só queria acalmar os batimentos do meu intenso coração.
Foi quando ele pigarreou algumas vezes. E eu sabia que ele só queria saber sobre a bronca que levei.
— Está de m*l humor? – me perguntou, e eu me mantive quieta, tirando as luvas pretas de couro. — Acho que esse silêncio já é uma resposta... – suspirou.
— Onde está o David? – retirei minha glock de nove milímetros do coldre em minha coxa, esvaziando-a.
— Foi ajudar o Dylan, ele acabou de chegar – encarei o moreno, tentando conter meu sorriso. — A cara dele pelas câmeras não estava nada boa, melhor você não encher o saco dele hoje!
— Eu não encho o saco de ninguém, Buck, eu só tento ser legal com ele! – dei uma breve olhada em minhas unhas pintadas de vermelho. Algo me dizia que Dylan gosta dessa cor.
— Acredito em você! – ele também sorriu, ironicamente. Apenas revirei os olhos.
Levantei-me levando minhas coisas para um dos meus armários de armas e equipamentos que ficavam ali. Digitei a senha rapidamente, estava faminta, queria demorar menos possível. Quando a porta da sala se abre, passando por ela o loiro, com uma sacola na mão esquerda, e um moreno de cara fechada logo atrás dele.
— Demoraram! – Buck foi o primeiro a falar.
— Tive que passar na lanchonete pra pegar uns lanches! – David responde.
David era um bom amigo, além de um bom agente, ele tenta equilibrar a harmonia do grupo com o seu bom humor.
E o meu moreno, Dylan, que vinha junto, largou sua mochila no chão, caminhou até a cadeira em que eu estava sentada e se acomodou ali mesmo, em silêncio e sem olhar na cara de ninguém.
— Como foi a bronca do Tobias? – David quis saber.
— Estressante, mas uma ameaça à mais ou à menos não faz diferença.
— Com certeza – David cai na gargalhada.
Com um banco que estava ali do lado, pus meu pé, erguendo minha coxa sensualmente, enquanto desejava que Dylan estivesse com o olhar em mim. Comecei a desprender meu coldre de coxa, o guardando logo em seguida. Fechei a porta do grande armário, e me virei rapidamente, dando para capturar o rosto do moreno se virar na mesma velocidade.
Não se preocupe, Dylan, você não me engana mais. Eu sempre soube que ele me observava.
— Mas relaxa, lembrei à ele o quanto sentiriam a sua falta.
— Eu não iria reclamar se não ouvisse mais o David gritando pelo os cantos! – Buck provocou.
— E daí, vai ficar de “mimimi” agora?! – David reclamou, obviamente gritando.
— Flertem em outro momento, por favor, não quero perder meu apetite – comentei, desfilando na direção deles, voltando para a mesa, pegando a sacola de lanches da mão de David. — Obrigada!
— Vai com calma, eu trouxe pra todo mundo! – reclamou, me ajudando a distribuir os lanches pela mesa.
Todos pegaram um hambúrguer, menos o meu moreno carrancudo. Sentei-me ao seu lado, e David fez o mesmo com a cadeira em frente a minha do outro lado da mesa. Cruzei as pernas, relaxando o corpo na cadeira, e virei a cadeira giratória para o lado de Dylan.
— Devia ao menos experimentar, está bem gostoso... – desci os olhos pelo o seu corpo, o uniforme preto lhe caía muito bem.
Seu corpo malhado me deixava hipnotizada, pois seus músculos ficavam marcados na roupa. Confesso que seu jeito bruto de agir, e sua expressão arrogante me deixavam ainda mais excitada. Ele era a minha perdição.
Subi os olhos rapidamente, pois estava o revistando por tempo demais. Assim que mirei em seu rosto, seus olhos negros estavam opacos concentrados em mim. Ele realmente estava num péssimo humor. Desviei daquele olhar pesado, me dedicando apenas em terminar a minha refeição.
— Concordo, você está com fome – David concluiu, falando para Dylan.
— Estou? – ouvi o moreno responder. Só o grave de sua voz rouca me deixa arrepiada.
— É, sabe o que dizem sobre cara feia... – David retrucou.
Buck não segurou o riso, e eu quis ter uma arma no momento para enfiar o cano dela no reto desse idi0ta. Como ele ousa chamar o Dylan de feio? O cara mais lindo e gostoso que já vi!
Minha paquera apenas bufou se levantando, deu passos longos buscando sua mochila jogada no chão e depois foi até a saída, indo embora.
— Você tá pedindo pra morrer! – Buck avisou, parando de rir.
— As pessoas andam muito tensas por aqui, isso sim! – dei a última mordida e agarrei uma das garrafas de água. — Você não quer a Coca-Cola? – perguntou para mim.
— Não, mas valeu por ter pego pra mim. – Segui para a saída da sala. — Se precisarem de mim, estarei na academia.
Me tornei uma pessoa antissocial depois dos vinte, só não tanto quanto o Dylan. Eu ainda consigo me comunicar amigavelmente com as pessoas ao meu redor, diferente dele, que sempre é tão carrancudo e arrogante. É complicado.
Quando tudo a sua volta é tão perigoso quanto o fato de literaturalmente entregarmos nossa vida por uma causa maior do que a importância de nossa existência, você não pode ter uma vida normal. Tudo na nossa rotina precisa de uma estratégia, um plano de fulga, um plano B, aquela vida corrida de quem faz inimigos por aí.
A minha vida, ou melhor, a vida que tenho era melhor ser vivida estando sozinha.
A questão é que não dá para se ter uma vida normal, quando as coisas ao seu redor ficam violentas. De repente, alguém que você ama pode morrer ao seu lado, e você só perceberia quando o barulho da bala atravessando o crânio ensudercesse seus tímpanos. Então, nós somos treinados para principalmente não amar.
Em algum momento da vida você descobre que não existe a ideia de ter uma vida normal, é uma ilusão vantajosa que vendem nos comerciais que passam na TV.
A vida é mais que ir para uma boa escola, viver numa casa grande e confortável, ir para uma boa faculdade, ter bons amigos, um emprego que pague bem, um marido bonito e filhos estudiosos.
Do outro lado do mundo, ou na rua ao lado da sua, uma criança desaparece enquanto brincava no quintal de casa; uma mulher é levada por um carro estranho após sair do seu trabalho e nunca mais foi vista desde então; um policial é morto num acidente de carro; o jatinho particular do juíz caiu no meio do oceano, após dar uma sentença justa à um criminoso de elite; um jornalista é preso depois de publicar uma manchete esclarecedora sobre o governo de seu país.
Ou as pessoas usam a verdade para trazer justiça, ou elas escondem em baixo do tapete, em cima de uma caralhada de dinheiro.
É horrivel, quando criança nós construímos uma perspectiva inocente e sonhadora, e em um instante, a bolha estoura, e você percebe que fizeram você acreditar numa mentira, numa fantasia boba de "a vida é bela".
Eu não sou a melhor pessoa do mundo, eu já matei e fiz coisas que eu não me arrependo mais, porque era necessário. As vezes as coisas só se resolvem assim, do jeito mais difícil.
Meu senso de justiça sempre foi afiado, eu nunca enxerguei a dor como uma forma de seguir enfrente, e acreditar que um dia ficaria mais fácil, diferente de como a minha família fez, quando o meu único irmão foi morto por uma gangue de rua. Eu sou diferente. Sempre tive uma força de vontade maior do que eu poderia controlar, e essa foi a razão por eu me tornar quem sou hoje, porque eu nem sempre fui assim.
As pessoas nos chamam de assassinos, mas quando se existe o anonimato, descobrimos o agradecimento delas. O mundo é dividido entre o certo e o errado, e o próprio homem é quem decidiu o que se encaixa em quê, sob suas vontades e benefícios. E eu, Katherine Barnes, nunca irei me render para um homem.
Nós vivemos nas sombras, nós não existimos.
— Dez e vinte e sete... – o relógio digital na parede marcava.
Abri o guarda roupa, achando rapidamente um short para ginástica. Precisava evaporar essa raiva de mim.
A resolução de toda essa discussão i****a é que Tobias era um homem muito amargurado. O dinheiro que ele tem não é o suficiente para suprir o vazio que ele sente. Ele se culpa por tudo, coisas que as vezes ele nem estava envolvido. Ele sempre sente muito por tudo e por todos. É fissurado em querer proteger todo mundo, mesmo não podendo. Ele gosta de ser aquele quem fará o que tem que ser feito, e por isso ele pegou toda a fortuna dele e fundou essa firma não governamental com o intuito de fazer a justiça. Mas, a idade tem deixado ele mais dramático do que já é.
Contudo, como disse à ele mais cedo, eu sou adulta e responsável pelas minhas escolhas. Foi por isso que entrei naquele carro, fortemente armada. Sempre jurei à mim mesma fazer o que eu achava certo, e sempre dar valor às minhas intuições. Dormirei tranquila sabendo que aqueles merdas viraram pó, não que a quietude da morte fosse o suficiente, mas eu não permitiria que eles vivessem nesse mundo.
Finalmente entrei na sala com os equipamentos de treino, mais ao fundo avistei o saco de pancadas, e fui até ele. Era a minha escolha favorita, quando não tem ninguém para derrubar no ringue. Na verdade, esse saco de pancadas tem o meu melhor amigo nesse lugar.