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1513 Words
Eu to sentada na calçada, embaixo de um toldo. A chuva fina tras o mesmo cheiro de esgoto e metal que a viela que eu nasci tinha. Dizem que traumas deixam a gente mais forte, mais resistente, que nos tornava sobrevivente, porém os meus, me deixam com medo, assustada. Eu lembro de tudo, só com 8 anos, eu lembro. Lembro de sentir fome, frio e medo, lembro do som do meu pai subindo as escadas da nossa casa.. se aquilo pudesse ser chamado de casa. Eu era uma sombra, um pedaço de carne que tentava ser invisível para não virar o saco de pancadas de um homem que já tinha perdido a alma para o álcool e para a miséria. Minha infância era definida pelo esgoto a céu aberto que passava na porta de casa; aquele rastro de água suja era o meu oceano, o meu mundo. Eu não tinha bonecas, não tinha sonhos. Tinha apenas o instinto de me encolher num canto toda vez que a voz dele engrossava. Mas aí, o destino resolveu me dar um gosto da felicidade, um gosto de sonhar. Eu estava sentada num caixote, perto da entrada da viela, observando o movimento lá em cima, na quadra. O morro sempre foi barulhento, vivo, perigoso, mas para mim, o perigo morava dentro de casa - eu nunca pude sair dali, ia para a escola e voltava. De repente, ouvi um barulho, um grito e senti o impacto. Uma bola de futebol, veio e bateu me mim. O impacto me jogou no chão. A dor foi aguda, mas eu não gritei. Eu nunca gritava. O grito só atraia mais pancada. Fiquei ali, encolhida, esperando o dono da bola vir me xingar por ter "atrapalhado" o jogo. Mas o que aconteceu foi o contrário. Passos pesados e rápidos desceram a ladeira. Quando levantei os olhos, vi um menino. Ele tinha uns catorze anos, mas parecia maior que o mundo. Era lindo. A pele morena brilhava de suor, o cabelo estava bagunçado e os olhos dele... os olhos dele não tinham o desprezo que eu estava acostumada a ver nos adultos. Ele parou na minha frente, ofegante, e o rosto dele se transformou numa expressão de preocupação que eu nunca tinha recebido de ninguém. — Cara.lho, pequena! Foi m*l, eu não te vi aí. Machucou? — A voz dele era grossa para a idade, mas tinha uma doçura escondida. Eu balancei a cabeça, negando, mesmo sentindo o braço latejar. Ele se abaixou, ficando da minha altura. Naquele momento, o cheiro do esgoto sumiu. Eu só sentia o cheiro dele — sabonete barato e adrenalina. Eu peguei a bola e entreguei para ele, senti o toque da mão dele na minha e tudo sumiu. — Eu sou o Ravi — ele disse, com um sorriso que parecia iluminar a viela inteira. — E você? — Manuela — respondi num sussurro. — Vem aqui, Manu. Vamos dar um jeito nesse braço. Daquele dia em diante, o Ravi virou o meu mundo. Ele era o filho do dono do morro, o "príncipe" que todo mundo respeitava, mas para mim ele era apenas o menino que me trazia o que eu nunca tive. Eu me lembro perfeitamente da primeira vez que tomei sorvete. Foi ele quem trouxe. Era um picolé de morango, embrulhado num papel que ele abriu com cuidado para não sujar minha mão. O frio na língua, o doce... eu chorei. Não de dor, mas porque era a primeira coisa boa que a vida me dava. — Por que você tá chorando, Manuzinha? — ele perguntou, limpando uma lágrima do meu rosto com o polegar. — Porque é muito doce, Ravi. É o gosto do céu? Ele riu e me abraçou. Naquele abraço, pela primeira vez na vida, eu me senti segura. O Ravi cuidava de mim como se eu fosse um tesouro. Ele levava comida escondida, me dava cadernos para eu desenhar e, quando meu pai começava a gritar, o Ravi aparecia na porta, com aquela postura que já impunha respeito mesmo sendo tão jovem, e apenas olhava. Meu pai se calava na hora. O Ravi era meu escudo. Mas ai o destino achou legal tinha esse pequeno gosto de felicidade, de um mundo melhor. Num dia tudo desmoronou. Meu pai foi morto numa confusão que eu nem entendi. O governo subiu, o morro virou um campo de guerra e, antes que o Ravi pudesse chegar até mim, o Conselho Tutelar me arrancou daquela casa. Eles me levaram como se eu fosse um bicho. Eu gritava por ele. Gritava tanto que minha garganta sangrava. Eu chorava, eu berrava, eu lutava com toda a força que uma menina de 8 anos tinha, eu sabia que eu só precisava chegar até ele, que ninguém iria encontar no principe do morro, no filho do dono. — RAVI! RAVI, NÃO DEIXA ELES ME LEVAREM! Eu estava no banco de trás daquele carro branco, as mãos batendo no vidro fumê. Vi o Ravi correndo atrás do carro. Ele estava desesperado, o rosto transfigurado pela dor. Os seguranças dele tentavam segurá-lo, mas ele lutava como um leão. O carro começou a acelerar na descida do morro. Foi quando vi o Ravi arrancar a corrente de ouro grossa do pescoço, aquela que ele nunca tirava. Pela fresta da janela, ele jogou a corrente no meu colo. O brilho do ouro contrastava com a sujeira do meu vestido. — SEGURA ISSO, MANU! É PRA VOCÊ NÃO ESQUECER! EU VOU TE ACHAR! EU JURO QUE VOU TE BUSCAR! — O grito dele foi a última coisa que ouvi antes da curva da ladeira me esconder da minha única verdade. A promessa dele foi o que me manteve viva nos dez anos seguintes. Porque o que veio depois foi o verdadeiro inferno. Achei que iria ter uma familia nova, algo que meu pai nunca me deu, Renata e Eduardo Vasconcelos. Eles tinham nomes lindos, uma casa grande porém a alma, o carater era lixo, pior que o esgoto que eu morava. Aquela casa era um show de horrores. Por fora, éramos a família perfeita; por dentro, eu era uma prisioneira. Eu apanhava por respirar, por olhar para o lado, por não sorrir para os "amigos" de terno que visitavam a mansão. A única coisa que me restou foi a corrente. Eu a escondia dentro do forro do meu colchão, ou amarrada na coxa, por debaixo das roupas largas. Era o meu elo com o Ravi. Nas noites em que o Eduardo me batia até eu perder os sentidos, eu segurava aquele ouro frio contra o peito e imaginava o cheiro de sabonete e o sorriso dele. "Ele está vindo, Manu. Ele prometeu." Mas o Ravi nunca vinha. E eu comecei a entender que algo tinha acontecido. Eu não sabia o que era amor, o que era ligação. Porém, eu sabia que se o Ravi não tivesse chegado, algo estava errado. Eu não estava onde deveria. Aos dezessete anos, a realidade me deu o golpe final. Eu tinha uma amiga, a Olívia. Ela era doce, loira, com olhos que pareciam o céu. Éramos o consolo uma da outra naquele lugar maldito. Até que, numa noite, a Olívia sumiu. Eu ouvi a Renata no telefone, falando sobre um "leilão", sobre "mercadoria de primeira" e sobre como o "Seu Raul" estava satisfeito com a entrega. Eu percebi que meu tempo tinha acabado. Eu precisava achar o Ravi, precisava sair dali. E o pior: eu ouvi meu nome na conversa seguinte. — A morena é a próxima — a Renata disse, com aquela voz de seda que escondia uma navalha. — Ela faz dezoito em breve. O valor vai ser dobrado. Eu não podia esperar mais. Se eu ficasse, eu seria vendida como um objeto para homens que tinham os olhos tão mortos quanto o do Eduardo. A fuga foi um borrão de dor e desespero. Eu pulei a janela do segundo andar na calada da noite. Senti meu tornozelo estalar ao tocar o chão, mas a adrenalina era mais forte que a dor. Corri pelos jardins, escalei o muro de pedra, os arames farpados rasgando minha pele e minhas roupas. Eu não tinha nada. Não tinha sapatos, não tinha dinheiro. Tinha apenas a corrente de ouro do Ravi, enrolada firmemente no meu punho, como uma arma, um amuleto e um sonho. Agora, eu estou aqui, sete dias depois. Meus pés estão em carne viva, o sangue seco grudou no que restou do meu vestido rasgado. Eu lembro que eu morava no Vidigal, mas eu estava longe ainda, indo a pé do RJ, fugindo, se escondendo. Deitada no chão, sentindo a vida esvair, eu só consigo pensar se ele ainda se lembra da menina que tomou sorvete de morango e achou que tinha conhecido o céu. Se ele ainda é o meu Ravi, ou se o Titã que todos temem matou o menino que um dia prometeu me buscar. A escuridão vem me buscar, e a última coisa que sinto é o metal do ouro contra minha pele, o único rastro de luz que me sobrou.
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