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921 Words
Quatro da manhã. O horário em que o morro fica calmo, mas não dorme. Eu to aqui, largado na rede da varanda do meu quarto, sentindo o vento gelado que só quem tá no topo do Rio consegue sentir. O asfalto lá embaixo parece um formigueiro de luzes, todo mundo vivendo suas vidas pequenas, enquanto eu sustento o céu pra essa p***a não desabar. Traguei o beck, sentindo a fumaça rasgar a garganta, mas o aperto no peito não passava. Olhei pro meu braço. Com 1,94m de altura e 24 anos, eu sou um alvo grande demais pra esse mundo, uma muralha de músculo e tatuagem que ninguém tem coragem de tentar derrubar, ninugém aperta o gatilho. Mas na parte interna do braço esquerdo, bem em cima do batimento cardíaco, tem a única marca que me desarma, que me deixa vuneravel. — Onde é que tu tá, pequena? — murmurei pro nada. Fechei os olhos e a fumaça me levou de volta pra onde tudo começou. Eu tinha 14 anos, o príncipe do morro, o filho do dono, o herdeiro - porém isso nunca me impediu que viver no meio do morro. Tava na quadrinha jogando bola com os moleques e acabei chutando a bola mais forte, que foi parar na viela mais afastada, onde o cheiro do esgoto era presente a cada segundo. Sai correndo para buscar a bola, então eu a vi. A bola tinha acertado ela, porém ela não chorava, não reclamava, só me olhava com os olhos mel, castanhos claros. A roupa era muito mais simples do que a qualidade do morro, rosinha, suja, mas.. ela era linda. Ela abaixou para pegar a bola e me entregou, com receio, com medo talvez.. Quando encostei na mão dela para pegar a bola, eu soube. Minha missão seria cuidar dela. Todo dia eu descia lá na beira do esgoto pra levar um doce, para perguntar com ela se ela comeu, se ela tava com fome, pra conversar com ela. Eu levava sorvete e ela amava - ainda lembro da primeira vez que ela provou e amou - o rosto dela, o olhar brilhando. Mas o destino é um desgraçado. O pai dela foi morto e o Estado subiu a ladeira. O barulho das sirenes, as pessoas do Conselho Tutelar ainda ecoa na minha mente. O carro branco levando ela embora como se ela fosse um nada. Eu corri atrás daquele carro até minhas pernas falharem. No último segundo, arranquei a corrente de ouro do meu pescoço e joguei pela janela. "Eu vou te buscar, Manu! Eu juro! Eu juro pela minha vida!" — eu gritei. Mas a promessa tá mofando há dez anos. Lembro dos vapores me segurando, o carro indo embora e eu ouvindo os gritos da Manu. A minha manuzinha. Em casa, eu fiquei dias sem sair pra jogar bola, não queria comer, não queria aceitar... A unica coisa que eu tinha, era uma foto de um celular velho que eu usava e tirei uma foto dela, a foto que eu tenho na parte de dentro do meu braço. Dez anos. Dez fo.didos anos. E nada. Eu virei o Titã, dono de tudo depois que meu pai foi com a minha mae para longe do RJ. Olhei pro vazio da madrugada e senti o gosto amargo da derrota, da impotência. Eu tenho polícia comprada, informante em cada esquina e investigador na minha folha de pagamento. Já revirei cada abrigo, cada cartório, cada orfanato desse país. Gastei muito. E nada. — Onde é que enfiaram você, Manu? Em que porão desse mundo eles te esconderam de mim? — pergunto pra mim mesmo ou para que algo possa me responder, soltando a fumaça do meu beck. Ela sumiu. Como se nunca tivesse existido. Como se aquele sorriso no meu braço fosse invenção da minha cabeça. Ninguém sabe, ninguém viu. O nome dela foi deletado de tudo. Como se a minha pequena, nunca tivesse existido. Apaguei o baseado no cinzeiro, a raiva misturada com saudades, com medo de algo ter acontecido, gritando no lugar do relaxamento. Meu celular tocou, o da boca, não o meu pessoal... Jaque, uma das piranhas que eu pegava, mas eu sabia que única mulher que eu amaria e que eu amo, é a Manu. Com essas pu.tas, eu só meto e tchau, não beijo, não chupo, nada e mesmo assim.. A pessoa que eu sempre quis ao meu lado, na frente do império, é a Manu. Olho para a tatuagem, vi o sorriso dela, já que a foto eu tive que apagar.. A vida que eu levo, é um risco e a foto dela no aparelho... Mas ela tava ali, sempre comigo. Levantei da rede, sentindo meus ossos estalarem. Olhei pro Cristo Redentor lá longe, de braços abertos, mas meus olhos tavam injetados. — Podem ter te apagado do papel, pequena, mas não te apagaram da minha memória. Se eu tiver que quebrar o Rio de Janeiro ao meio pra achar você, eu vou quebrar, pode levar mais dez, vinte anos... Peguei o rádio na mesa e apertei o botão. Minha voz saiu grave, cortante, carregada de um ódio acumulado há uma década: — Trava? Acorda todo mundo. Não quero ninguém dormindo. Vamos apertar os contatos na civil e na federal de novo. Alguém viu essa menina, alguém sabe pra onde ela foi. E quem tiver escondendo a informação... vai conhecer o Titã que os livros de história não contam. A paz da madrugada tinha acabado. O Titã não ia mais procurar. Ele ia caçar.
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