No banheiro eu chorava. Por sorte aquela p***a estava vazia. Quanto mais eu esfregava, mais o óleo se espalhava. Minha raiva não me deixava desistir. Eu esfreguei tanto, mas tanto, que parecia descontar minha raiva na minha cara e sentia a pele arder com o esforço.
— Nossa... Calma. — Uma voz chamou minha atenção. Era uma fofa, meio destrambelhada e feminina.
— Vai se f***r! — Disse entre murmúrios e choramingões.
— Tá, eu vou me f***r, mas antes use isso. — Ela entregou um lenço úmido com uma espécie de gel no mesmo.
Sem saber quem era, mas, apelando para nada piorar, peguei com certo receio e até um pouco de brutalidade de sua mão e fui limpando o rosto aos poucos. Aquilo realmente fazia efeito.
Ao menos uma alma caridosa nessa história.
Passou poucos minutos e eu estava menos estressada. Eu disse menos estressada e não mais calma! Suspirei, amarrei os cabelos num coque atrás na cabeça e pude ver melhor quem havia me ajudado. Ela era um tanto... Fortinha. Ok, ela era gorda. Nem tanto, mas era. Cabelos ruivos, encaracolados presos numa tiara, algumas espinhas entre as sardas do rosto, uniforme bacana que a escola disponibilizava e sapatos pretos com meias brancas até os joelhos. Eu só então aceitei o fato dos s***s dela serem maiores que o meu. Quase saiam do decote, como o resto da barriga que pressionava bem os botões.
— Prazer, sou Rebecca! — Ela estendeu as mãos.
— Ao invés de falar seu nome, se apresente com uma informação mais importante. — Me virei fungando ainda o nariz. — Qual teu signo? — Mandei um olhar aterrorizante. Se ela fosse de escorpião eu enfiaria essa garota na privada.
— T-touro...? — Com receio, juntou os ombros, fez uma careta nada sedutora e continuou com a mão estendida me esperando a cumprimentar.
— É... Está na média... — E segurei sua mão e a cumprimentei.
Taurina? Não me admirava que parecia comer tanto.
— Sou Ariana, meu nome já diz tudo. — Contei.
— Aquele Jason é um babaca. Ele se acha porque namora uma líder de torcida e que todas as garotas aqui ficam babando-o e seu bonde popularzinho. — Deu de ombros, apertou os livros sobre o tórax e se fez de ofendida.
— Eu sei. — Revirei os olhos voltando a encarar o espelho. — Aquele filho da... — Suspirei e pausei. — Ele é meu primo. — Anunciava.
— PRIMO?! — Ela não queria acreditar.
— É uma longa história, depois te conto e... Obrigada, Rebecca. — Disse meio desanimada.
— Parece triste por eu ter lhe ajudado... — Ela quase percebeu que, eu, como me senti agradecida, deveria considerar ela uma amiga e provavelmente a classe social dela na escola seria a menos popular, o que me levaria ao mesmo destino, algo que tentava evitar.
— Não, pelo contrário. — Menti, mas quer saber? Do que adianta ser popular no meio de um ninho de cobras? — Aqui as coisas só são diferentes... Onde morava, todas as pessoas de todos os níveis eram legais. — Dei de ombros.
— Entendo... Bem, espero que possamos ser amigas! — Disse eufórica.
— Você não tem nenhuma além de mim, tem? — Perguntei o que já sabia.
— Não exatamente... — Disfarçou ela, sem graça.
— Tudo bem, me mostre a escola, já que está no intervalo. — Novamente, dei de ombros.
Rebecca deu um grande salto. Havia feito uma nova amiga, mesmo que tivesse de se aproveitar de uma situação desagradável como essa para conseguir uma. Mas, o que podia fazer? Por um lado, ela me lembrava as pessoas que me acolheram em todo meu tempo escolar infantil. A California era um lugar completamente diferente, então, eu teria de encarar tudo com novos olhos. Mudar alguns costumes? Talvez. Deixar de ser quem sou? Jamais!
Era uma escola grande para que um intervalo fosse o suficiente, mas, como ela estava entusiasmada com o fato de ter uma companheira, deixou de lado as outras aulas e me mostrou o que precisava saber. Rebecca era muito estudiosa e tinha boas notas. Matar uma ou duas aulas não faria tanta diferença.
Ela me contou sobre as líderes de torcida, como em todo seriado juvenil e filme americano, as garotas de fato eram as mais populares e ao mesmo tempo, mesquinhas e insuportáveis. Elas andavam sempre juntas e Jéssica, namorada do Jason era uma das. Porém, lerda para c*****o, vou te contar...
Em segundo lugar, havia os garotos do time de Hockey. Jason fazia parte deles juntamente com Brad. Eram conhecidos como Yétis da California. Algo assim. Eram os famosos rapazotes, que se achavam e davam as melhores festas e pegavam as melhores garotas. Eles costumavam se juntar no pátio para jogar ou escutar hip-hop e outros tipos de músicas. Embora eles cantassem bem, entrar no clube de música era a última coisa que fariam na vida.
Havia outros grupos menos populares como o clube da biblioteca, de música e artes. Nerds e computação. Os dos cientistas estudiosos... Que tinha a ver com física e química. Fora, as garotinhas poetisas que viviam suspirando de amor em oficinas de língua inglesa e toda essa baboseira. Rebecca era do grupo de teatro e eventos. O mais baixo dos mais baixos, como quase todo livro, série, novela e filme clichê.
— Engraçado. — Murmurei. — Onde eu morava, o Teatro era mais reconhecido e divertido... — E de fato era.
— Não precisa entrar no grupo de teatro por minha causa...
— Não é por sua causa. — Interrompi escrevendo meu nome na lista. — Eu sou uma artista meu amor! A globo perdeu de me contratar. Vocês só precisavam de uma luz, agora vocês têm um farol. — Terminei e a encarei.
— Você é demais... — Rebecca me encarou feliz como nunca.
— Bem, agora eu preciso ir. — Disse. — Talvez amanhã seja melhor do que hoje. — Comentei.
— Te espero aqui amanhã! Sou do primeiro ano também, acho que somos da mesma sala, que incrível! —Pulou de alegria.
— É, que incrível... — Dei as cosas e fui toda "animada".