Entre a vida e a morte

1050 Words
O hospital estava mergulhado em um silêncio antinatural. Não era o silêncio da paz — era o silêncio da guerra. Um silêncio pesado, tenso, quebrado apenas pelo som apressado de passos no corredor, pelo murmúrio urgente de médicos e pelo apito insistente das máquinas. O cheiro de antisséptico misturado ao de sangue fresco impregnava o ar, grudando na garganta, sufocando. Ellie estava entubada. Deitada naquela cama fria de UTI, parecia pequena demais. Frágil demais. A pele pálida contrastava com os fios, tubos e aparelhos que a mantinham presa à vida. Um curativo grosso cobria o abdômen, escondendo o lugar exato onde o projétil havia atravessado sua carne — um lembrete c***l de como a violência nunca vinha sozinha no mundo de Marlon. O monitor cardíaco pulsava. Fraco. Lento. Instável. Cada batida parecia uma negociação com a morte. Do lado de fora da sala, Gustavo andava de um lado para o outro como um animal enjaulado. As roupas ainda estavam manchadas de sangue — o sangue dela. As mãos tremiam. O maxilar travado. Os olhos vermelhos ardiam, secos de tanto chorar. A ficha ainda não tinha caído. Talvez nunca caísse completamente. Até que a porta da UTI se abriu. O médico fez um gesto contido, sério. — Pode entrar… por alguns minutos. O coração de Gustavo disparou de uma vez só, como se fosse saltar do peito. Ele engoliu em seco, respirou fundo — e entrou. E então… o mundo desabou. — Meu amor… — a voz saiu num sussurro quebrado, frágil, enquanto ele se aproximava da cama. Ver Ellie daquele jeito era mais do que ele conseguia suportar. Tubos, fios, o som mecânico das máquinas substituindo aquilo que deveria ser natural. Vida não deveria depender de eletricidade. As pernas falharam. Ele caiu de joelhos ao lado da maca. — Meu amor… por que você fez isso…? — a voz se partiu como vidro sob pressão. As lágrimas vieram sem controle, quentes, violentas. Ele segurou a mão dela — gelada, inerte. — Você podia ter deixado ele acabar comigo… — soluçou. — Eu suportaria. Eu enfrentaria qualquer coisa, Ellie… qualquer coisa… mas não isso… não você… NÃO ISSO… O peito doía como se estivesse sendo esmagado. — Você tá esperando o nosso filho… — a voz falhava. — O nosso filho… e agora vocês dois estão correndo risco… — ele apertou os dedos dela com cuidado, quase implorando por uma resposta. — Como eu vou viver se eu perder vocês? Gustavo encostou a testa no peito dela, ignorando os fios, os apitos, o caos. — Você me prometeu… — murmurou entre soluços. — Prometeu que a gente ia viver juntos pra sempre… por favor… volta pra mim, meu amor… luta… luta por nós… por ele… por mim… O monitor seguia apitando, desenhando uma linha instável entre a vida e o abismo. Depois de alguns minutos — que pareceram séculos — Gustavo beijou a testa dela com delicadeza, como se pudesse quebrá-la com o próprio toque. E saiu. Destruído. No corredor, a mãe de Ellie estava encostada na parede, o corpo sacudindo em silêncio. Quando viu Gustavo, entendeu tudo sem que ele precisasse dizer uma palavra. As enfermeiras a chamaram. Ela entrou. E assim que viu a filha… o coração dela se partiu em mil pedaços. — Minha menina… — sussurrou, a voz embargada. — Minha doce menina… Acariciou os cabelos de Ellie com a mesma ternura de quando ela era criança, como se aquele gesto pudesse trazê-la de volta. Os monitores continuavam. Tic. Tic. Tic. — Minha filha… — murmurou, chorando. — Você tá grávida… carrega uma vida dentro de você… luta, meu amor… luta por você… luta por ele… por nós… Gustavo se ajoelhou do outro lado da cama. — Ellie… — a voz dele estava rouca, exausta. — Você salvou minha vida… eu devia ter tomado aquele tiro… não você… por favor… luta agora… pelo nosso filho… pelo nosso futuro… não me deixa… As horas passaram como lâminas. O medo se acumulava. Até que… Os dedos de Ellie se moveram. Lentamente. Quase imperceptível. Mas se moveram. A pálpebra tremeu, como se ela estivesse tentando emergir de um lugar escuro demais. — Amor…? — Gustavo levantou num pulo. — Ellie? Você me ouviu?! — Filha… — a mãe segurou o rosto dela com cuidado desesperado. — Me ouve… mexe de novo… abre os olhos, por favor… — Volta… — Gustavo implorava. — Volta pra mim… eu sei que você tá lutando… Então… O som mudou. Um apito agudo e contínuo explodiu na sala. PIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII— — NÃO! — Gustavo gritou, desesperado. — ELA TAVA VOLTANDO! — MINHA FILHA! NÃO! — a mãe gritou, tentando segurar a mão de Ellie. A equipe médica entrou em disparada. — CÓDIGO AZUL! AFASTEM-SE! — POR FAVOR! — Gustavo se debateu. — EU VI! ELA TAVA VOLTANDO! — FORA DA SALA! A mãe foi retirada à força, gritando, chorando, enquanto o caos tomava conta. — PREPARA O DESFIBRILADOR! — ELA ESTÁ GRÁVIDA! — CARREGANDO! CHOQUE. O corpo de Ellie se arqueou. Nada. — DE NOVO! CHOQUE. Nada. — MAIS UM! NÃO DESISTAM DELA! CHOQUE. Então… Um bipe. Outro. Batimentos fracos. Instáveis. Mas vivos. Do lado de fora, Gustavo caiu de joelhos, soluçando sem controle. A mãe de Ellie se agarrou a uma enfermeira, murmurando: — Ela lutou… minha menina tá lutando… Quando o médico finalmente saiu, o rosto exausto, a expressão grave, Gustavo se levantou com dificuldade. — Ela…? — Reanimamos… por muito pouco. — o médico respirou fundo. — Ela e o bebê estão vivos… mas o estado é extremamente crítico. — E o bebê?! — a mãe perguntou, desesperada. — O coraçãozinho ainda bate… fraco… mas bate. Gustavo levou as mãos à cabeça. — Ela reagiu… eu vi… — Sim… — o médico assentiu. — Mas o corpo não suportou. O cérebro pode ter sido afetado. Não sabemos se ela vai acordar… nem como. Silêncio. Cruel. Injusto. — Agora… — concluiu o médico — só resta esperar. Gustavo escorregou pela parede até o chão. — Aguenta firme, meu amor… — sussurrou. — Eu vou ficar… até o fim. E lá dentro, cercada por máquinas, dor e perigo… Ellie ainda lutava. Contra a morte. Contra o passado. Contra o mundo de um mafioso que nunca perdoava. E essa luta… ainda estava longe de acabar.
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