O hospital estava mergulhado em um silêncio antinatural.
Não era o silêncio da paz — era o silêncio da guerra.
Um silêncio pesado, tenso, quebrado apenas pelo som apressado de passos no corredor, pelo murmúrio urgente de médicos e pelo apito insistente das máquinas. O cheiro de antisséptico misturado ao de sangue fresco impregnava o ar, grudando na garganta, sufocando.
Ellie estava entubada.
Deitada naquela cama fria de UTI, parecia pequena demais. Frágil demais. A pele pálida contrastava com os fios, tubos e aparelhos que a mantinham presa à vida. Um curativo grosso cobria o abdômen, escondendo o lugar exato onde o projétil havia atravessado sua carne — um lembrete c***l de como a violência nunca vinha sozinha no mundo de Marlon.
O monitor cardíaco pulsava.
Fraco.
Lento.
Instável.
Cada batida parecia uma negociação com a morte.
Do lado de fora da sala, Gustavo andava de um lado para o outro como um animal enjaulado. As roupas ainda estavam manchadas de sangue — o sangue dela. As mãos tremiam. O maxilar travado. Os olhos vermelhos ardiam, secos de tanto chorar.
A ficha ainda não tinha caído. Talvez nunca caísse completamente.
Até que a porta da UTI se abriu.
O médico fez um gesto contido, sério.
— Pode entrar… por alguns minutos.
O coração de Gustavo disparou de uma vez só, como se fosse saltar do peito. Ele engoliu em seco, respirou fundo — e entrou.
E então… o mundo desabou.
— Meu amor… — a voz saiu num sussurro quebrado, frágil, enquanto ele se aproximava da cama.
Ver Ellie daquele jeito era mais do que ele conseguia suportar. Tubos, fios, o som mecânico das máquinas substituindo aquilo que deveria ser natural. Vida não deveria depender de eletricidade.
As pernas falharam.
Ele caiu de joelhos ao lado da maca.
— Meu amor… por que você fez isso…? — a voz se partiu como vidro sob pressão.
As lágrimas vieram sem controle, quentes, violentas.
Ele segurou a mão dela — gelada, inerte.
— Você podia ter deixado ele acabar comigo… — soluçou. — Eu suportaria. Eu enfrentaria qualquer coisa, Ellie… qualquer coisa… mas não isso… não você… NÃO ISSO…
O peito doía como se estivesse sendo esmagado.
— Você tá esperando o nosso filho… — a voz falhava. — O nosso filho… e agora vocês dois estão correndo risco… — ele apertou os dedos dela com cuidado, quase implorando por uma resposta. — Como eu vou viver se eu perder vocês?
Gustavo encostou a testa no peito dela, ignorando os fios, os apitos, o caos.
— Você me prometeu… — murmurou entre soluços. — Prometeu que a gente ia viver juntos pra sempre… por favor… volta pra mim, meu amor… luta… luta por nós… por ele… por mim…
O monitor seguia apitando, desenhando uma linha instável entre a vida e o abismo.
Depois de alguns minutos — que pareceram séculos — Gustavo beijou a testa dela com delicadeza, como se pudesse quebrá-la com o próprio toque.
E saiu.
Destruído.
No corredor, a mãe de Ellie estava encostada na parede, o corpo sacudindo em silêncio. Quando viu Gustavo, entendeu tudo sem que ele precisasse dizer uma palavra.
As enfermeiras a chamaram.
Ela entrou.
E assim que viu a filha… o coração dela se partiu em mil pedaços.
— Minha menina… — sussurrou, a voz embargada. — Minha doce menina…
Acariciou os cabelos de Ellie com a mesma ternura de quando ela era criança, como se aquele gesto pudesse trazê-la de volta.
Os monitores continuavam.
Tic.
Tic.
Tic.
— Minha filha… — murmurou, chorando. — Você tá grávida… carrega uma vida dentro de você… luta, meu amor… luta por você… luta por ele… por nós…
Gustavo se ajoelhou do outro lado da cama.
— Ellie… — a voz dele estava rouca, exausta. — Você salvou minha vida… eu devia ter tomado aquele tiro… não você… por favor… luta agora… pelo nosso filho… pelo nosso futuro… não me deixa…
As horas passaram como lâminas.
O medo se acumulava.
Até que…
Os dedos de Ellie se moveram.
Lentamente.
Quase imperceptível.
Mas se moveram.
A pálpebra tremeu, como se ela estivesse tentando emergir de um lugar escuro demais.
— Amor…? — Gustavo levantou num pulo. — Ellie? Você me ouviu?!
— Filha… — a mãe segurou o rosto dela com cuidado desesperado. — Me ouve… mexe de novo… abre os olhos, por favor…
— Volta… — Gustavo implorava. — Volta pra mim… eu sei que você tá lutando…
Então…
O som mudou.
Um apito agudo e contínuo explodiu na sala.
PIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII—
— NÃO! — Gustavo gritou, desesperado. — ELA TAVA VOLTANDO!
— MINHA FILHA! NÃO! — a mãe gritou, tentando segurar a mão de Ellie.
A equipe médica entrou em disparada.
— CÓDIGO AZUL! AFASTEM-SE!
— POR FAVOR! — Gustavo se debateu. — EU VI! ELA TAVA VOLTANDO!
— FORA DA SALA!
A mãe foi retirada à força, gritando, chorando, enquanto o caos tomava conta.
— PREPARA O DESFIBRILADOR! — ELA ESTÁ GRÁVIDA! — CARREGANDO!
CHOQUE.
O corpo de Ellie se arqueou.
Nada.
— DE NOVO!
CHOQUE.
Nada.
— MAIS UM! NÃO DESISTAM DELA!
CHOQUE.
Então…
Um bipe.
Outro.
Batimentos fracos. Instáveis. Mas vivos.
Do lado de fora, Gustavo caiu de joelhos, soluçando sem controle.
A mãe de Ellie se agarrou a uma enfermeira, murmurando:
— Ela lutou… minha menina tá lutando…
Quando o médico finalmente saiu, o rosto exausto, a expressão grave, Gustavo se levantou com dificuldade.
— Ela…?
— Reanimamos… por muito pouco. — o médico respirou fundo. — Ela e o bebê estão vivos… mas o estado é extremamente crítico.
— E o bebê?! — a mãe perguntou, desesperada.
— O coraçãozinho ainda bate… fraco… mas bate.
Gustavo levou as mãos à cabeça.
— Ela reagiu… eu vi…
— Sim… — o médico assentiu. — Mas o corpo não suportou. O cérebro pode ter sido afetado. Não sabemos se ela vai acordar… nem como.
Silêncio.
Cruel.
Injusto.
— Agora… — concluiu o médico — só resta esperar.
Gustavo escorregou pela parede até o chão.
— Aguenta firme, meu amor… — sussurrou. — Eu vou ficar… até o fim.
E lá dentro, cercada por máquinas, dor e perigo…
Ellie ainda lutava.
Contra a morte.
Contra o passado.
Contra o mundo de um mafioso que nunca perdoava.
E essa luta… ainda estava longe de acabar.