Passaram-se mais alguns dias.
A cada manhã, a luz que entrava pelas janelas do quarto de hospital parecia diferente. Mais suave, mais esperançosa. Ellie seguia lutando — o corpo ainda frágil, a fala lenta, mas sua consciência cada vez mais presente.
Gustavo não saía do lado dela. Lia livros em voz alta, colocava músicas suaves, e até conversava com o bebê, encostando o rosto na barriga dela como se o pequeno já pudesse ouvir tudo.
Ellie sorria de leve. Às vezes, cansava rápido. Mas seus olhos brilhavam com mais vida. A médica observava tudo com um misto de cautela e admiração.
— Ela está vencendo — disse num final de tarde, enquanto examinava os sinais vitais. — Cada dia é uma vitória.
Naquela noite, Gustavo trouxe um pequeno quadro com a imagem da ultrassonografia. Colocou sobre o criado-mudo ao lado da cama.
— Ele tá aqui com a gente — disse, acariciando os cabelos dela. — E a cada batida do coração dele, parece que você volta um pouco mais.
Ellie, com esforço, respondeu:
— Me... ajuda... a falar... melhor?
Gustavo sorriu, com os olhos marejados.
— Claro que ajudo. Vamos lá... devagar, do jeitinho que você quiser, tá?
Eles passaram minutos preciosos juntos, repetindo palavras simples.
— "Luz."
— "Amor."
— "Força."
E então, numa tarde, a maior palavra que ela havia conseguido até ali escapou entre os lábios:
— "Família."
Ele parou tudo. Piscou algumas vezes como se não acreditasse no que ouvira.
— Você disse... família? — ele sussurrou, sorrindo, ajoelhando-se ao lado da cama.
Ellie acenou com a cabeça, chorando. Depois, com os olhos fixos nos dele, murmurou:
— Quero... ser... mãe... dele.
Gustavo encostou a testa na dela e sussurrou, com a voz embargada:
— E você vai ser. Vai ser a melhor mãe desse mundo. E eu vou estar do teu lado em cada passo.
A médica, que havia entrado discretamente no quarto, se emocionou com a cena. Aproximou-se com delicadeza, colocou a mão sobre o ombro de Gustavo e disse:
— Ela está voltando. O corpo ainda precisa de tempo, mas a alma dela... já está aqui.
Mais alguns dias se passaram.
O sol invadia o quarto com mais força. Era como se até ele percebesse que a escuridão estava sendo vencida. Ellie agora já conseguia sentar-se com ajuda. Os primeiros movimentos ainda eram lentos, mas cheios de significado. Cada passo, cada gesto, era uma conquista.
Gustavo, incansável ao seu lado, preparava o ambiente a cada dia com flores frescas, palavras de incentivo e muito amor.
— Vamos lá, meu amor... só mais um pouquinho, tá? — dizia enquanto a ajudava a erguer o corpo contra os travesseiros.
Ellie, mesmo suando de esforço, sorria. E quando não conseguia falar com clareza, apontava para o caderninho que ficava em sua mesinha.
Começou a escrever pequenas palavras, rabiscadas com uma caligrafia trêmula:
“Luz.”
“Gustavo.”
“Bebê.”
“Vida.”
Ele lia em voz alta, beijando-lhe a testa a cada nova conquista.
— Você é minha guerreira, Ellie... a mãe mais forte que esse bebê poderia ter.
Numa tarde mais tranquila, a médica trouxe o aparelho de ultrassom portátil para o quarto.
— Temos uma surpresa — disse ela, com um sorriso. — O bebê está bem. E pensei... talvez a mãe dele quisesse vê-lo hoje.
Os olhos de Ellie se encheram de lágrimas. Ela tentou dizer "sim", mas apenas balançou a cabeça com força, como se seu coração estivesse gritando por dentro.
Gustavo segurou sua mão, e juntos assistiram ao pequeno coração batendo forte na tela.
— Tá vendo, meu amor? Ele tá aí... firme, forte... lutando igualzinho a você.
Ellie levou a mão ao próprio ventre com cuidado. E com os olhos grudados na imagem do bebê, conseguiu dizer — ainda que rouco e trêmulo:
— Meu... filho...
Gustavo não conteve as lágrimas. Beijou-lhe as mãos e murmurou, com a voz embargada:
— Nosso filho. Ele vai nascer cercado de amor. E você vai estar inteira pra recebê-lo, eu prometo.
A médica, observando tudo em silêncio, apenas sorriu.
— Isso aqui é quase um milagre — murmurou. — Mas com o amor que vocês têm... acho que milagres gostam de acontecer.
Passado um mês e meio desde que Ellie estava no hospital, a rotina ainda era de muitos desafios. Ela conseguia falar um pouco, mesmo que a fala ainda estivesse arrastada e com algumas palavras caquejadas. Algumas palavras saíam com clareza, outras precisavam de mais esforço. A escrita, por outro lado, tinha melhorado bastante — ela usava um caderno para se comunicar e expressar seus pensamentos.
Ela também estava sentando aos poucos, com muito cuidado, sempre apoiada por Gustavo e pela equipe médica. Não podia ficar muito tempo nessa posição para não forçar demais a barriga, onde ainda se recuperava da ferida grave.
Numa tarde tranquila, a doutora entrou no quarto com um sorriso suave, trazendo uma notícia esperançosa.
— Bom, Ellie já está com cinco meses,de gestação — disse ela, olhando para Gustavo. — Vamos fazer uma ultrassonografia para verificar se está tudo bem com o neném, certo? Vocês querem saber o sexo do bebê?
Ellie olhou para Gustavo, e os dois responderam juntos, com um brilho de esperança nos olhos:
— Sim.
A mãe de Ellie, que estava ao lado, sorriu emocionada e disse:
— Claro que sim, doutora!
A doutora ajustou o aparelho, aplicou o gel na barriga dela e começou a mover o transdutor cuidadosamente. Na tela, a imagem do bebê surgiu clara e cheia de vida, mexendo os bracinhos.
Depois de alguns minutos, ela sorriu ainda mais e falou:
— É um menino! Está tudo muito bem com ele. Ele está lutando, crescendo forte.
Gustavo apertou a mão de Ellie com ternura, e ela sorriu com os olhos brilhando, uma pequena lágrima escorrendo.
— Nosso menino — sussurrou ela, emocionada.
Ellie m*l conseguia acreditar no que via na tela do ultrassom. A pequena imagem do bebê se movendo ali dentro da barriga parecia um sinal de vida e esperança que ela tanto precisava. Mesmo com as limitações, com a fala lenta e os gestos tímidos, ela conseguia sentir algo renascer dentro dela.
Gustavo não desgrudava os olhos do monitor. A cada mexida do bebê, seu peito parecia se encher de um misto de alívio e amor. Ele olhou para Ellie, que apertava sua mão com força, tentando transmitir toda a força que lhe restava.
— Você está ouvindo, meu amor? — ele sussurrou baixinho, os olhos marejados. — Nosso menino está aí... ele é forte, assim como você.
Ellie tentou falar, sua voz ainda rouca e quase falha:
— M-mai…or… f-force…
Gustavo sorriu, incentivando-a:
— Isso, amor. Vai no seu tempo, tá? A gente vai conseguir. Eu tô aqui com você.
Ela assentiu devagar, a cabeça balançando com esforço, e uma lágrima escorreu pelo seu rosto pálido.
A mãe dela, sentada ao lado, também enxugava os olhos, tentando segurar a emoção.
A doutora terminou o exame, sorrindo com carinho:
— O bebê está ótimo. Vocês estão fazendo um excelente trabalho cuidando dela. Continua assim, com muito cuidado e amor, e então a doutora saiu .
Ele sentou ao lado dela, segurando suas mãos delicadamente.
— Você foi incrível hoje, sabia? — ele disse baixinho, com a voz carregada de emoção. — Nosso menino é forte, assim como você. Eu prometo que vamos superar tudo isso juntos.
Ellie tentou responder, sua voz ainda fraca e falhando:
— Eu… a-amor… te-amo…
Ela engasgou, mas Gustavo sorriu, enxugando a lágrima que desceu pelo rosto dela.
— Eu sei, meu amor. Eu também te amo demais. E vou cuidar de você e do nosso filho com toda minha força.
Ela assentiu devagar, apertando as mãos dele com ternura.
Gustavo passou a mão suavemente pelos cabelos dela.
— Pode descansar agora. Eu estou aqui, não vou deixar você sozinha.
Ela fechou os olhos, ainda lutando, mas sentindo o calor do amor que os unia.