Chegaram ao restaurante sofisticado, instalado no alto de um prédio envidraçado, onde a cidade parecia pequena sob seus pés. Foram conduzidos a uma mesa isolada, protegida por biombos discretos e com vista privilegiada para as luzes noturnas.
Marlon pediu o vinho sem sequer olhar o cardápio. O maître assentiu — conhecia aquele tipo de homem.
As entradas chegaram: petiscos refinados, pratos pequenos e elegantes. Ellie relaxava aos poucos. Riam, brindavam, trocavam olhares longos demais para serem apenas paixão recente. Havia i********e. Pertencimento.
Até que o ar mudou.
Uma mulher parou ao lado da mesa. O homem que a acompanhava ficou um passo atrás, atento. O rosto dela empalideceu ao encarar Ellie.
— Ellie? — a voz saiu trêmula. — É você mesma? Meu Deus… você está viva?
O sorriso de Ellie morreu na hora.
A mulher segurou sua mão com força, lágrimas brotando.
— Eu… eu me chamo Eli — Ellie respondeu, confusa. — Não sei quem a senhora é. Nem o senhor.
A mulher levou a mão à boca, chocada.
— Como não sabe? Eu sou a Roberta… e esse é o Anderson. Nós somos os pais do Inácio. Seu marido. A casa de vocês explodiu. Encontraram apenas o corpo dele. Acreditaram que você também tivesse morrido. Onde você esteve? O que aconteceu?
Ellie engoliu seco. Seus dedos buscaram os de Marlon, apertando com força.
— Me desculpem… — disse, com a voz controlada. — Eu não lembro de nada disso. Sofri um acidente grave. Quando acordei, ele estava ao meu lado, cuidando de mim. Esse homem aqui… — olhou para Marlon — é o meu marido. É tudo o que eu sei.
Marlon ergueu o olhar devagar. Sua voz saiu baixa, firme, sem espaço para discussão.
— Por favor, respeitem minha esposa. Ela deixou claro que não se lembra de vocês.
Roberta insistiu, desesperada:
— Ellie… e sua mãe? Ela sabe que você está viva?
Ellie piscou, confusa.
— Mãe? — perguntou, o coração acelerado. — Eu… eu tenho uma mãe?
Ela olhou para Marlon, claramente abalada. Ele segurou sua mão por cima da mesa, firme, dominante.
— Eu não sei, meu amor. Você nunca falou sobre isso. Mas nós vamos descobrir. Eu prometo.
O prato principal chegou naquele instante, quebrando a tensão como uma lâmina. Roberta e Anderson se afastaram, atônitos, sem perceber que aquele encontro havia selado o próprio destino.
Ellie tentou sorrir. Conversaram, brindaram outra vez, mas agora havia algo quebrado no ar. Mesmo assim, aos olhos de quem observasse de fora, parecia apenas um jantar elegante.
Ao final, Marlon pagou a conta sem esperar o valor, levantou-se e a conduziu para fora. Os carros já os aguardavam. Segurança impecável.
No banco traseiro, Ellie apoiou a cabeça no ombro dele, exausta.
— Eu tô tremendo… — murmurou.
— Já passou — respondeu ele, beijando seus cabelos. — Você foi perfeita.
Em casa, subiram direto para o quarto. Marlon sentou-se na cama e a puxou para perto.
— Aquilo foi uma atuação digna de prêmio — disse com um meio sorriso. — Se eu não te conhecesse, teria acreditado.
Ela tirou os brincos lentamente.
— Você acha mesmo que eles acreditaram?
— Sem a menor dúvida.
— Então… — ela respirou fundo — você precisa descobrir se minha mãe está bem. Se eles me reconheceram, podem ir atrás dela.
— Eu cuido disso. — A resposta veio rápida demais.
Ela se levantou e deixou o vestido escorregar pelo corpo. Usava apenas uma lingerie vermelha, rendada, provocante. Marlon ficou imóvel por um segundo.
— Você ainda vai me matar desse jeito — murmurou.
— Dramático — ela riu, envolvendo o pescoço dele.
O beijo veio intenso. Ele a levou para a cama. O resto foi urgência, desejo, entrega acumulada. Corpos se buscando como se o mundo pudesse acabar do lado de fora.
Depois, exaustos, ele a puxou para junto de si.
— Eu esperei muito por isso… — sussurrou.
— Eu sei — ela respondeu, já sonolenta.
— Eu vou descobrir tudo. Vou proteger você. — A voz era uma promessa… e uma sentença.
— Eu confio em você.
Ellie adormeceu tranquila, aninhada ao peito dele.
Marlon esperou a respiração dela se tornar profunda. Levantou-se em silêncio, cobriu-a com cuidado e saiu do quarto.
No escritório, as telas de segurança exibiam cada canto da mansão. Uma delas mostrava Ellie dormindo.
Ele ligou.
— Fala, patrão — disse Gabriel.
— Vá agora até a casa da Roberta e do Anderson. Pais do Inácio.
— Entendido.
— Elimine os dois. Faça parecer um assalto. Quero zero vestígios. Leve todos os celulares, computadores, qualquer coisa que tenha contato. Ninguém pode saber que Ellie está viva.
— Sem erro.
— Me avise quando terminar.
Desligou.
Voltou os olhos para a tela.
Ellie dormia serena, alheia ao que acabara de ser decidido.
— Você é minha — murmurou. — E ninguém vai arrancar você de mim.
Tocou a tela com a ponta dos dedos.
— Sua mãe está segura… por enquanto. Mas ninguém vai se aproximar de você. Ninguém.
Apagou as luzes do escritório.
As câmeras continuaram ligadas.
Sempre ligadas.