Uma ponta de esperança

576 Words
Gustavo ficou ali por alguns segundos depois que Ellie desapareceu pela porta lateral. Não se moveu de imediato. Ficou olhando para o nada, com o peito pesado, como se o silêncio tivesse som. Passou a mão no rosto devagar, respirou fundo e só então pegou o celular outra vez. Trabalho. Frio. Foco. Era assim que ele sobrevivia naquele jogo. Reativou os sistemas com precisão, religou as câmeras na sequência correta, apagou qualquer rastro mínimo da interrupção. A ronda noturna seguiu como sempre: passos firmes, postura relaxada, olhar atento. Para qualquer câmera, para qualquer registro… tudo absolutamente normal. Mas por dentro, não estava. Ellie já não era só a mulher que ele protegia. Era a mulher que ele escolheu proteger — mesmo sabendo o preço. No quarto, Ellie virou de lado, abraçando o travesseiro com força. O cheiro dele ainda estava ali, misturado ao lençol, à pele, à memória recente. Aquilo dava conforto… e medo. Porque conforto demais, naquele lugar, sempre vinha acompanhado de perigo. Ela fechou os olhos e tentou respirar devagar, como ele havia ensinado. Inspirar. Segurar. Soltar. A imagem da mãe veio forte demais. Ela se lembrava do sorriso cansado, das mãos sempre quentes, do jeito como a mãe dizia “vai dar tudo certo” mesmo quando nada dava. E agora… agora ela não sabia nem se aquela mulher ainda sorria. Se dormia. Se comia. Se estava sendo dopada. Se estava sendo quebrada aos poucos, como Marlon fazia com tudo o que tocava. Uma lágrima escorreu silenciosa pelo canto do olho. — Aguenta só mais um pouco… — murmurou para o teto, como se a mãe pudesse ouvir. — Eu tô chegando. O celular vibrou. Ellie congelou por um segundo antes de pegar. Marlon. Ela respirou fundo, ajustou o rosto, moldou a expressão. Doce. Suave. Controlada. — Oi, amor… — Onde você estava? — a voz dele veio calma demais. Sempre vinha. — No quarto… cochilei um pouco. — Ela bocejou de leve, calculado. — Acho que fiquei cansada hoje. — Hum… — silêncio do outro lado. — Eu tentei te ver pelas câmeras da lateral mais cedo. Não consegui. O coração dela deu um salto seco no peito. Mas o rosto não denunciou nada. — Ah… eu fiquei mais na sala hoje. Depois fui pro banho. Talvez por isso. Outro silêncio. Longo. Pesado. — Entendi. — Ele respondeu por fim. — Faltam poucos dias, Ellie. — Eu sei… — ela disse baixo. — Tô contando. — Eu também. A ligação caiu. Ellie largou o celular devagar sobre a mesa de cabeceira. As mãos tremiam agora. Não muito. O suficiente para lembrar que o tempo estava acabando. Ela se encolheu sob o cobertor, os olhos abertos no escuro. Pensou em Gustavo. No jeito como ele segurava o rosto dela quando tudo parecia ruir. Na firmeza da voz quando dizia “eu vou te tirar daqui”. No cuidado em cada gesto, como se o mundo inteiro pudesse quebrá-la se ele soltasse. Não era obsessão. Não era posse. Não era medo. Era escolha. E isso fazia toda a diferença. Do lado de fora, terminando a ronda, Gustavo parou por um segundo sob a luz fraca do jardim. Olhou discretamente para a janela do quarto dela. A cortina estava fechada. A luz apagada. — Aguenta só mais um pouco… — murmurou ele, quase como uma promessa. — Eu não vou falhar. A contagem regressiva continuava. Mas agora, eles não estavam mais sozinhos dentro dela.
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