Gustavo ficou ali por alguns segundos depois que Ellie desapareceu pela porta lateral. Não se moveu de imediato. Ficou olhando para o nada, com o peito pesado, como se o silêncio tivesse som. Passou a mão no rosto devagar, respirou fundo e só então pegou o celular outra vez.
Trabalho. Frio. Foco.
Era assim que ele sobrevivia naquele jogo.
Reativou os sistemas com precisão, religou as câmeras na sequência correta, apagou qualquer rastro mínimo da interrupção. A ronda noturna seguiu como sempre: passos firmes, postura relaxada, olhar atento. Para qualquer câmera, para qualquer registro… tudo absolutamente normal.
Mas por dentro, não estava.
Ellie já não era só a mulher que ele protegia. Era a mulher que ele escolheu proteger — mesmo sabendo o preço.
No quarto, Ellie virou de lado, abraçando o travesseiro com força. O cheiro dele ainda estava ali, misturado ao lençol, à pele, à memória recente. Aquilo dava conforto… e medo. Porque conforto demais, naquele lugar, sempre vinha acompanhado de perigo.
Ela fechou os olhos e tentou respirar devagar, como ele havia ensinado. Inspirar. Segurar. Soltar.
A imagem da mãe veio forte demais.
Ela se lembrava do sorriso cansado, das mãos sempre quentes, do jeito como a mãe dizia “vai dar tudo certo” mesmo quando nada dava. E agora… agora ela não sabia nem se aquela mulher ainda sorria. Se dormia. Se comia. Se estava sendo dopada. Se estava sendo quebrada aos poucos, como Marlon fazia com tudo o que tocava.
Uma lágrima escorreu silenciosa pelo canto do olho.
— Aguenta só mais um pouco… — murmurou para o teto, como se a mãe pudesse ouvir. — Eu tô chegando.
O celular vibrou.
Ellie congelou por um segundo antes de pegar.
Marlon.
Ela respirou fundo, ajustou o rosto, moldou a expressão. Doce. Suave. Controlada.
— Oi, amor…
— Onde você estava? — a voz dele veio calma demais. Sempre vinha.
— No quarto… cochilei um pouco. — Ela bocejou de leve, calculado. — Acho que fiquei cansada hoje.
— Hum… — silêncio do outro lado. — Eu tentei te ver pelas câmeras da lateral mais cedo. Não consegui.
O coração dela deu um salto seco no peito. Mas o rosto não denunciou nada.
— Ah… eu fiquei mais na sala hoje. Depois fui pro banho. Talvez por isso.
Outro silêncio. Longo. Pesado.
— Entendi. — Ele respondeu por fim. — Faltam poucos dias, Ellie.
— Eu sei… — ela disse baixo. — Tô contando.
— Eu também.
A ligação caiu.
Ellie largou o celular devagar sobre a mesa de cabeceira. As mãos tremiam agora. Não muito. O suficiente para lembrar que o tempo estava acabando.
Ela se encolheu sob o cobertor, os olhos abertos no escuro.
Pensou em Gustavo.
No jeito como ele segurava o rosto dela quando tudo parecia ruir. Na firmeza da voz quando dizia “eu vou te tirar daqui”. No cuidado em cada gesto, como se o mundo inteiro pudesse quebrá-la se ele soltasse.
Não era obsessão.
Não era posse.
Não era medo.
Era escolha.
E isso fazia toda a diferença.
Do lado de fora, terminando a ronda, Gustavo parou por um segundo sob a luz fraca do jardim. Olhou discretamente para a janela do quarto dela. A cortina estava fechada. A luz apagada.
— Aguenta só mais um pouco… — murmurou ele, quase como uma promessa. — Eu não vou falhar.
A contagem regressiva continuava.
Mas agora, eles não estavam mais sozinhos dentro dela.