Mais tarde, Marlon finalmente conseguiu se recompor.
Não completamente — homens como ele nunca se recompunham por inteiro —, mas o suficiente para voltar a vestir a máscara.
Enxugou o rosto, respirou fundo e decidiu que não fugiria mais do olhar dela. Fugir era coisa de covarde, e covardes não sobreviviam no mundo que ele comandava.
Vestiu uma sunga escura, simples, passou as mãos pelos cabelos ainda úmidos do banho e seguiu com passos controlados para a área externa da casa.
O sol estava forte, refletindo nas paredes claras da mansão, mas uma brisa suave atravessava o jardim impecavelmente vigiado. Tudo ali era segurança. Tudo ali era controle.
Ellie ainda estava na piscina, apoiada na borda, os olhos fechados, o rosto voltado para o céu. Por alguns segundos, ela parecia livre — e aquilo apertou o peito dele de um jeito quase insuportável.
Ela abriu os olhos ao ouvir os passos e sorriu quando o viu.
— Finalmente resolveu sair da caverna, senhor sádico? — provocou, com aquele tom doce que sempre o desmontava.
Marlon sorriu de canto, um sorriso calculado, treinado para esconder tempestades.
— Resolvi me render ao paraíso… — disse, entrando devagar na água. — Pelo visto, ele já estava ocupado.
A piscina estava morna. Ele se aproximou, e Ellie se virou de frente para ele, abrindo os braços sem medo algum. No meio da água, eles se abraçaram, os corpos se encontrando como se o mundo externo não existisse — embora ele soubesse que cada centímetro daquele lugar era monitorado.
Ellie apoiou a cabeça no ombro dele, suspirando, como se aquele abraço fosse capaz de consertar tudo. Marlon passou a mão lentamente pelas costas dela, com um cuidado quase reverente, sentindo o perfume leve da pele dela misturado ao cloro.
Então ela levantou o rosto.
Os olhos encontraram os dele com um carinho tão limpo que doeu.
Ela o beijou devagar. Sem pressa. Sem urgência. Um beijo de entrega, de confiança, de alguém que não imagina estar beijando um homem capaz de destruir tudo o que toca.
Marlon retribuiu, mas cada segundo daquele beijo era uma punição silenciosa. Cada gesto dela era um lembrete c***l do erro que ele carregava.
Ela se apertou mais contra ele e sussurrou, como se fosse a coisa mais natural do mundo:
— Eu te amo, sabia?
O coração dele quase cedeu.
— Eu também te amo… — respondeu, segurando-a firme, como se pudesse se manter de pé apenas por causa dela. — Mais do que você imagina.
Eles ficaram ali por alguns minutos, abraçados na água. O corpo dela tranquilo. O dele em guerra.
Quando o sol começou a descer atrás das árvores, deixaram a piscina. Ellie subiu primeiro, enrolando-se numa toalha branca, sorrindo para ele com aquela serenidade perigosa — perigosa porque o fazia esquecer quem ele realmente era.
Marlon a seguiu em silêncio, observando cada movimento, cada curva, cada gesto leve. Não era desejo apenas. Era posse. Era medo de perder algo que ele não tinha o direito de ter.
No quarto, Ellie foi direto para o banheiro. A toalha caiu no chão sem cerimônia, e ela começou a passar creme pelo corpo, falando distraída sobre o calor, sobre talvez fazerem um churrasco no fim de semana, como se fossem um casal normal.
Marlon sentou-se na cama, observando o reflexo dela no espelho. Ela era linda demais para aquele mundo. Linda demais para ele.
Quando Ellie vestiu a camisola fina e se aproximou, subiu no colo dele com naturalidade, envolvendo a cintura dele com as pernas.
— Você tá estranho hoje… — murmurou, acariciando o rosto dele. — Aconteceu alguma coisa?
Ele desviou o olhar.
— Só cansaço, amor.
Ela não pressionou. Apenas o abraçou e começou a beijá-lo devagar, com carinho, com entrega. O corpo dele reagiu automaticamente, mas a mente gritava. Ainda assim, ele a deitou na cama com cuidado, como se estivesse lidando com algo frágil demais para quebrar outra vez.
Amou-a com lentidão.
Com culpa.
Com uma devoção quase desesperada.
Ellie sentia algo diferente — não sabia o quê —, mas se entregou, acreditando que aquele cuidado era amor.
E ele… apenas tentava se punir em silêncio.
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As semanas seguintes pareceram tranquilas para quem observava de fora.
Marlon estava mais presente. Mais atencioso. Mais cuidadoso. Acordava com Ellie, tomava café com ela, participava da rotina da casa. O homem frio e distante dava lugar a alguém que parecia tentar se redimir.
Mas Ellie começou a perceber.
O olhar dele estava sempre distante.
A atenção, quebrada.
O toque, igual… mas vazio.
Às vezes, durante o sexo, ele parecia em outro lugar. Como se estivesse pagando uma dívida invisível.
Ela tentou ignorar. Tentou acreditar que era trabalho, pressão, negócios obscuros que ele nunca explicava. Mas o incômodo crescia.
Até o dia em que tudo desabou.
Na lavanderia, enquanto separava algumas roupas, Ellie pegou uma calça jeans de Marlon esquecida num canto. Como fazia sempre, levou a mão aos bolsos.
E então… sentiu.
Seis embalagens.
Todas abertas.
Todas vazias.
O chão pareceu desaparecer sob seus pés.
Os pacotes escorregaram de suas mãos e caíram no azulejo com um som seco, c***l. Ellie ficou imóvel por alguns segundos, tentando respirar.
As lágrimas vieram devagar.
— Eu não acredito… — sussurrou, a voz quebrada. — Eu perdi tudo… fui sequestrada… fiquei viúva… perdi minha casa, minha liberdade… e ainda assim me apaixonei por ele.
A dor se transformou em algo mais escuro.
— E agora isso… — murmurou. — Traída. Porque eu não dei conta do lado doentio dele. Porque eu não aceitei tudo.
Ela caiu de joelhos, abraçando o próprio corpo, chorando em silêncio. Não era só traição. Era humilhação. Era sobrevivência sendo arrancada de novo.
Quando se levantou, já não era a mesma.
Enxugou o rosto. O olhar endureceu.
— Isso não vai ficar assim.
Pensou rápido. Fugir era impossível. A casa era uma fortaleza. Mas ela conhecia o jogo de poder melhor do que ele imaginava.
Então lembrou-se.
O chefe da segurança.
Sempre atento. Sempre próximo. Sempre respeitoso… mas com um olhar que dizia mais do que deveria.
Ellie sabia que tudo era vigiado. Sabia das câmeras, dos horários, dos pontos cegos. Sabia que, naquele mundo, nada acontecia sem permissão.
Mas também sabia usar o que tinha: inteligência, silêncio e estratégia.
Pegou os pacotes do chão, guardou-os numa gaveta escondida e voltou para o quarto com o rosto sereno.
O coração estava em ruínas.
Mas a mente… estava em guerra.
E no mundo de Marlon, guerras nunca eram silenciosas.