Passaram-se mais alguns dias.
O calor daquela tarde parecia anunciar que algo estava prestes a mudar. Marlon havia partido logo cedo para mais uma de suas viagens obscuras — atrás de pistas, respostas… ou talvez apenas fugindo da própria obsessão que já começava a sair do controle. A mansão, ainda vigiada, parecia respirar um pouco mais leve sem a presença constante dele.
Naquela noite, Ellie se levantou com um propósito claro.
Vestiu um vestido soltinho, cor creme, delicado e leve, que balançava suavemente com cada passo. Caminhou em silêncio pelo jardim, conhecendo cada rota, cada sombra, cada ponto cego daquele cativeiro luxuoso. Seguiu até o único trecho do quintal onde não havia câmeras — o lugar onde podia existir sem ser observada.
Horas depois, ele surgiu da escuridão.
Gustavo.
O olhar era o mesmo de sempre: intenso, atento, carregado de sentimento contido. Ao vê-la ali, inteira, livre por algumas horas, seus olhos se encheram de emoção. Eles não disseram nada de imediato. Apenas se aproximaram, como se o corpo soubesse o caminho antes da mente.
O abraço veio forte, urgente. Um reencontro carregado de meses de espera. O beijo foi profundo, cheio de saudade, como se precisassem confirmar que aquilo era real.
— Meu amor… — ele murmurou, com a voz embargada. — Um ano…
— Um ano em que eu nunca fiquei sozinha — ela respondeu, ofegante. — Eu quase não acredito que você está aqui…
O tempo pareceu suspenso. Os gestos foram guiados mais pelo sentimento do que pelas palavras. Tudo entre eles era cuidado, desejo contido, entrega segura. Não havia pressa, apenas a necessidade de se sentirem vivos um no outro, longe do medo, longe das câmeras, longe do controle de Marlon.
Quando finalmente se aquietaram, deitados lado a lado, a noite os envolvia com silêncio e brisa morna. Gustavo a puxou para perto, como se quisesse protegê-la até do mundo invisível.
— Esse ano todo… — ele disse baixo — vendo aquele homem insistir, ultrapassar limites… eu precisei me controlar todos os dias pra não acabar com ele.
— Eu sei — Ellie respondeu, ainda com a respiração irregular. — Mas eu resisti. Sempre resisti.
Houve um silêncio breve, pesado, até que Gustavo falou, com cuidado:
— Agora eu posso te contar uma coisa.
Ela se virou para ele, alerta.
— O quê?
— Sua mãe está segura.
Ellie sentou-se de imediato, o coração disparado.
— Como assim?
— Ela está comigo. Em um lugar protegido. Já sabe de tudo. Está bem. Lúcida. Livre.
As lágrimas vieram sem aviso. Ellie se agarrou a ele, como se o chão tivesse sumido sob seus pés.
— Obrigada… — sussurrou entre soluços. — Obrigada por não desistir de mim.
— Ele está procurando por ela — Gustavo continuou. — Essa viagem foi por isso. Mas não vai encontrar nada. Eu cuidei de cada detalhe.
Naquela noite, Ellie foi ainda mais cuidadosa.
Preparou o quarto como sempre fazia quando precisava enganar o sistema. Travesseiros sob o lençol, simulando o peso de um corpo. Luzes apagadas. Silêncio absoluto. Para as câmeras, tudo parecia normal.
Mas ela não estava ali.
No jardim escondido, sob o céu aberto, ela e Gustavo se deitaram juntos, protegidos apenas pelo cobertor e pela cumplicidade. Dormiram abraçados, como duas pessoas que, mesmo cercadas pelo perigo, encontravam refúgio um no outro.
Quando o sol começou a surgir, Ellie acordou sentindo o calor do corpo dele, o abraço firme, tranquilo.
— Foi tão bom dormir assim com você… — ele murmurou, ainda sonolento.
— Em breve, — ela sorriu — vai ser sempre assim. Sem medo. Sem fingimento.
— Aguenta só mais um pouco — ele pediu. — Eu vou encontrar a brecha certa. Eu prometo.
Ela assentiu.
— Eu confio em você… com tudo o que eu sou.
Pouco depois, Gustavo desligou as câmeras do jardim. Ellie retornou à mansão com passos silenciosos, refez a rotina como se nada tivesse acontecido. Banho, roupas limpas, um filme qualquer na TV.
Horas depois, o telefone tocou.
Marlon.
— Oi… — ela atendeu, a voz neutra.
— Você ainda está chateada comigo? — ele perguntou, num tom quase inseguro.
— Não, Marlon. Já passou.
— Pelo menos pensa em mim nessa viagem…
Ela fechou os olhos por um instante.
— Tá… eu penso.
Desligou.
Ficou olhando para o teto, o coração dividido entre a farsa que precisava sustentar e a esperança que crescia cada vez mais forte.
Porque agora ela sabia.
O amor verdadeiro não prendia.
Protegia.
E a liberdade… estava cada vez mais perto.