Meses depois…
A madrugada estava silenciosa demais.
Silenciosa a ponto de o som da chuva fina batendo na janela parecer mais alto do que o normal, criando um ritmo constante, quase hipnótico. O quarto estava mergulhado numa penumbra aconchegante, iluminado apenas pela luz amarelada do abajur, que desenhava sombras suaves nas paredes.
Gustavo dormia profundamente ao lado de Ellie, o rosto relaxado, a respiração lenta. Uma mão repousava instintivamente sobre a barriga dela, como se, mesmo inconsciente, ainda estivesse protegendo os dois.
Ellie, no entanto, começou a se mexer.
Um suspiro forte escapou de seus lábios. Depois outro. O corpo ficou tenso de repente, como se um alerta silencioso tivesse sido acionado dentro dela. Um gemido baixo rompeu o silêncio do quarto.
— Gustavo… — ela chamou, com a voz fraca, tentando se virar. — Gustavo…
Ela levou a mão até a barriga e, no mesmo instante, sentiu o líquido quente escorrer entre as pernas. O coração disparou tão forte que parecia querer sair do peito. Os olhos se arregalaram, cheios de medo e surpresa.
— Gustavo! — agora a voz saiu mais alta, trêmula. — Amor! A minha bolsa estourou! Gustavo, acorda! A bolsa estourou!
Ele despertou num pulo, como se tivesse levado um choque. Por alguns segundos, ficou completamente desnorteado, tentando entender onde estava. Então seus olhos pousaram em Ellie, sentada na cama, pálida, assustada, com as pernas molhadas.
— O quê? Como assim?! — levantou num salto, indo direto até ela. — Ei, ei… calma, amor. Calma. Respira comigo.
— Tá doendo, Gustavo… — ela disse com a voz embargada, lágrimas já escorrendo. — Ai, meu Deus… eu não tô pronta… não agora… não assim…
Ele segurou o rosto dela com as duas mãos, firme, protetor, obrigando-a a encará-lo.
— Você tá pronta, sim — disse com convicção. — A gente se preparou pra esse momento. Você é forte. Nosso bebê tá pronto pra vir. E eu tô aqui. Eu não vou sair do seu lado nem por um segundo.
O coração dele batia acelerado, mas a postura era firme, controlada. Em segundos, ele pegou o celular e ligou para o médico, explicando a situação com clareza. Com a outra mão, puxou a mala da maternidade, já deixada estrategicamente pronta.
— Vai dar tudo certo — repetia, mais para ela do que para si mesmo. — Nosso filho vai nascer cercado de amor… e de proteção.
Gustavo ajudou Ellie a se levantar com cuidado, passando o braço firme em volta dela, sustentando seu peso quando uma contração forte a fez se curvar de dor.
— Vem… devagar… — murmurou. — Vamos tomar um banho rápido.
No banheiro, ele a manteve encostada em seu corpo, como um apoio sólido. Ajudou-a a tirar a roupa com cuidado extremo, como se qualquer movimento brusco pudesse machucá-la. Ligou o chuveiro, deixando a água morna cair sobre ela, tentando aliviar a tensão.
— Respira comigo… isso… — sussurrava no ouvido dela, enquanto lavava seu corpo com delicadeza. — Nosso bebê tá chegando… você não tá sozinha.
Mesmo com dor, Ellie se manteve de pé apenas por causa dele. Quando terminaram, Gustavo a envolveu numa toalha grande, secando-a com gestos lentos, quase reverentes. Vestiu nela o vestido soltinho já separado, as mãos trêmulas, mas precisas.
Levou-a até a cadeira no quarto, ajoelhou-se à frente dela e segurou suas mãos com força.
— Amor… vou chamar sua mãe rapidinho. Já volto, tá?
Beijou a testa dela e saiu apressado, batendo na porta da sogra com urgência.
— Minha sogra! A senhora tá acordada?
— Filho? — a voz veio sonolenta.
— A bolsa da Ellie estourou.
— Ai, meu Deus… — respondeu na hora. — Tô indo!
Em poucos minutos, os três estavam no carro. A cidade ainda dormia, as ruas vazias, enquanto Gustavo dirigia firme, atento, ignorando a chuva e o cansaço.
— Respira, amor… — dizia, olhando pelo retrovisor. — Olha pra mim. Respira fundo.
No banco de trás, Ellie gemia de dor, apertando a mão da mãe com força.
— Mãe… tá doendo muito… — chorava. — Tá vindo forte demais…
— Eu tô aqui, filha — a mãe dizia, firme, apesar do coração apertado. — Respira comigo. Você consegue. Força.
As lágrimas de Ellie escorriam sem controle. O corpo tremia, tomado pela dor e pela emoção. Gustavo já havia avisado a médica durante o trajeto. Tudo estava sendo preparado.
Ao chegarem ao hospital, a equipe já os aguardava.
— Ellie, fica tranquila — disse a obstetra, calma e segura. — Respira… confia.
Gustavo ajudou Ellie a descer do carro, sustentando-a com o corpo inteiro. Mesmo fraca, ela tentava se manter firme, agarrada a ele como se fosse seu chão.
— Eu tô aqui — ele repetia, o tempo todo. — Sempre.
Ela foi colocada numa maca e levada pelos corredores da maternidade. As contrações vinham fortes. O som dos passos, dos equipamentos, das vozes baixas preenchia o ambiente.
A médica examinou com atenção, olhando o monitor.
— Ela está na hora, mas não tem passagem. Vamos pra cesárea. É o mais seguro.
Gustavo assentiu imediatamente, sem hesitar.
— Façam tudo o que for preciso — disse, firme.
Já vestido com a roupa cirúrgica, as mãos tremiam levemente, mas o olhar era de aço. Quando entrou na sala, seus olhos foram direto para Ellie.
Ela estava deitada, pálida, assustada, tentando controlar a respiração.
— Gustavo… — murmurou, com medo. — Eu não consigo respirar…
Ele segurou a mão dela com força, aproximou o rosto.
— Olha pra mim — disse baixo. — Respira comigo. Você sempre lutou. E agora não vai ser diferente. Nosso filho tá chegando.
Ela chorou, apertando a mão dele.
— Eu tô com medo…
— Eu sei — ele respondeu, beijando sua testa. — Mas você não tá sozinha. Nunca esteve.
As mãos entrelaçadas, os olhares presos um no outro. O som dos instrumentos. A médica avisando que iria começar.
E ali, naquele instante, entre dor, medo, amor e entrega absoluta, um novo capítulo estava sendo escrito.
O momento mais intenso de suas vidas tinha começado.