A chamada de vídeo

837 Words
Assim que chegaram à mansão, Marlon se virou para os seguranças: — Podem ir. Qualquer coisa, me chamam. Mas não ousem interferir no que é meu. Os homens assentiram, recuando com disciplina silenciosa. Ellie sentiu um calafrio percorrer a espinha. O silêncio pesado, o ar fechado da casa, o cheiro de madeira polida… tudo parecia exalar poder, dinheiro e perigo. Estava entrando em território que não pertencia a ela, um território onde ele ditava as regras. — Essa casa é diferente — comentou Marlon, com o sorriso frio. — Menos câmeras, menos escutas… você vai se sentir… mais livre. — Livre? — repetiu Ellie, rindo sem humor, uma risada que m*l tocava os lábios. — Livre? Só se você chama isso de liberdade. Ele ignorou. Guiou-a pelos corredores, mostrando cada detalhe com orgulho quase doentio, como quem marca território. Cada cômodo, cada objeto, cada detalhe decorativo gritava poder e controle. Subiram até o quarto principal. O closet estava abastecido como sempre, impecável, pronto como se ela nunca tivesse saído. — Cada detalhe… — murmurou Marlon, aproximando-se dela, o olhar fixo, possessivo. — Cada detalhe é meu, meu bem. Assim como você é. Mais tarde, aproximou-se dela com a calma de um predador. — Vamos tomar um banho? — sugeriu, a voz baixa, calculada. Ela assentiu, consciente de que qualquer recusa podia irritá-lo. No banheiro, ele preparou a banheira com precisão, como um ritual mafioso: sais, velas, água na temperatura exata. Quando ela entrou, o corpo paralisado, ele correu até ela. — Meu Deus… você não tem ideia do quanto esperei por você assim de novo. Perfeita… impecável… minha. — Ele passou a mão pelo ombro dela, a intensidade do toque quase sufocando. Ellie forçou um sorriso. Por dentro, estava quebrada. A sensação de impotência corria por suas veias. Cada gesto era fingido, cada suspiro calculado, para manter o controle e não provocar a fúria dele. Sentaram-se na banheira. A água quente envolvia ambos. Ela puxou assunto, tentando manter a voz firme: — E a Jéssica? Como ela está? — Ótima. Mas ninguém importa agora, só você importa. Eu trouxe você de volta… e vou manter você aqui, meu amor. — Ele sorriu com malícia, satisfeito por mostrar seu poder. — Ah, e a Perez morreu. Problema resolvido. Ellie apenas engoliu em silêncio, absorvendo a ameaça velada. Ele estendeu a mão: — Vem… — disse, a voz baixa, hipnotizante. Ela sentou-se sobre o colo dele, a respiração curta. — Me beija… com saudade… com paixão — ordenou, possessivo. Ela o beijou. Fingiu desejo, mascarou repulsa. Cada toque, cada gesto era calculado, cada suspiro uma mentira para mantê-lo sob controle. Quando saíram da água e foram para a cama, ele continuou com intensidade, palavras doces e tons de comando. Ela obedecia, interpretando seu papel com perfeição. No fim, ele a abraçou, ainda sufocando a obsessão: — Meu amor… só o começo. Eu vou te ter sempre. — Sussurrou, como quem promete possessão eterna. Ela virou o rosto, uma lágrima solitária escorrendo, os dedos apertando a aliança de Gustavo contra o peito, lembrando que seu coração ainda pertencia a outro. Algumas semanas depois, Marlon sentou-se ao lado dela, a mão segurando a dela com firmeza: — Meu amor… como prometido, você vai poder falar com ele hoje. — A voz baixa, mas com firmeza de quem decide sobre vidas. Ellie engoliu em seco, as lágrimas surgindo instantaneamente: — De verdade? — perguntou, a voz quase sumindo. — Sim — respondeu ele. — Mas lembra: se houver qualquer deslize, qualquer tentativa de você ou dele, eu corto na hora. Ela respirou fundo, ajeitou o cabelo, passou brilho nos lábios, vestiu-se com cuidado e iniciou a chamada. Do outro lado, Gustavo quase teve um ataque ao ver o nome dela na tela. Mas a mãe de Ellie segurou-o firme: — Não interfira… deixe ela falar com Henrique. Ellie sorriu através das lágrimas: — Oi, meu amorzinho… Mamãe tá bem. Tá brincando muito? — Sim, mamãe! — Henrique respondeu, emocionado. — Mamãe, que saudade! A chamada era curta, controlada, cheia de medo e saudade. Ela terminou cantando a musiquinha que sempre os uniu, tentando passar força a Henrique, enquanto Marlon observava por perto, o poder absoluto sobre cada movimento dela. — Já acabou o tempo, princesa — disse ele suavemente, o tom frio lembrando que nada estava sob controle de Ellie. Ela assentiu, desligou, e desabou no chão assim que ele saiu: abraçada à aliança de Gustavo, a lembrança do amor verdadeiro que estava sendo mantida refém pelo homem que tudo controlava. Do outro lado, Gustavo segurava Henrique com força, o coração em pedaços. O grito silencioso de impotência ecoava pela casa: — Eu falhei… eu falhei com você, Ellie… Eu deveria ter te protegido… Eu vou te trazer de volta… — murmurava, enquanto a ausência dela preenchia o silêncio com medo, raiva e determinação. E naquele instante, uma guerra silenciosa começava. Uma guerra entre amor e possessão, entre liberdade e controle. Uma guerra mafiosa, sangrenta e fria, que ainda estava apenas começando.
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