Após a chamada

831 Words
A tarde chegou devagar, quase como se o tempo reconhecesse que Ellie precisava de alguns instantes de fôlego. Depois do choro, ela permaneceu sentada na beira da cama, os dedos apertando a aliança de Gustavo, o toque frio do metal lembrando-lhe do mundo que havia deixado para trás — o único em que ainda podia se sentir viva. Respirou fundo, se levantou devagar e foi até o espelho. Lavou o rosto, tentando enxugar a dor da alma, mas sabia que ela ainda estava lá, escondida sob a superfície. Vestiu um vestido leve, branco, amarrando os cabelos num coque frouxo. Cada gesto parecia calculado, como se a própria casa estivesse observando. Quando desceu, o cheiro de comida a atingiu. Na sala, Marlon a aguardava, o olhar fixo, pesado, medindo cada centímetro dela. Não havia sorriso completo, só a curva lenta e fria de alguém que estava no comando. — Você tá melhor? — perguntou, sem se aproximar demais, mas com o peso do silêncio atrás da voz. — Um pouco — respondeu Ellie, a voz fraca. — Obrigada por cumprir o que prometeu. Ele assentiu, o olhar afiado dominando o espaço. Cada palavra não dita parecia uma ordem, uma promessa de que ele poderia decidir o que seria permitido ou proibido. — Preparei algo pra gente — disse, apontando para a mesa posta com perfeição cirúrgica. — Pode não estar com fome… mas precisa se alimentar. Os pratos cheiravam bem, simples, mas feitos com cuidado. Ellie assentiu, sentando-se, consciente de que cada ato ali era um jogo de poder. Durante a refeição, ele a observava, olhos escaneando cada reação. Ellie cortava o filé devagar, tentando manter a calma, tentando mostrar que ainda podia agir por vontade própria. — Marlon… — começou, hesitando — eu sei que você acha que tá fazendo isso por amor… ou justiça… mas isso que a gente vive… não é liberdade. Eu agradeço pelo momento com Henrique, mas você sabe que isso não pode durar. Ele ficou em silêncio. Afastou-se levemente, apoiou os cotovelos na mesa, os dedos entrelaçados, calculando cada movimento, cada silêncio. — Eu sei que você pensa assim — disse finalmente, com voz baixa e firme. — Mas hoje, só hoje, almoça comigo. Em paz. Sem guerra, sem resistência. Pode? Ela olhou para ele, sentindo o peso do poder que emanava dele. Ainda se sentia presa, mas estava cansada. Haviam dado tudo naquela ligação com Henrique, e só hoje queria essa trégua, mesmo que fosse só aparência. — Tá bom — concordou. — Só hoje. O silêncio reinou, pesado, carregado de tensão. A tarde passava, lenta, cada minuto um lembrete do quanto ele controlava aquele espaço. Ellie comia devagar, absorvendo o sabor da comida como quem recupera fragmentos de humanidade, enquanto Marlon observava, sempre atento, sempre no comando. Quando o sol começou a se esconder, Ellie subiu de volta para o quarto. A casa estava silenciosa, apenas o vento quebrando a quietude. Ela tomou um banho longo, tentando lavar a tensão da pele, colocou uma camisola clara e se sentou na janela, olhando para o céu escurecendo. Alguns minutos depois, alguém bateu na porta. Era Marlon. — Posso entrar? — Pode — respondeu ela, sem se mover do lugar. Ele entrou com duas xícaras de chá de camomila, mas havia mais ali do que gentileza. Cada gesto dele carregava um domínio silencioso, um lembrete de que estava no território dele. — Chá de camomila. Vai te ajudar a relaxar — disse, entregando a xícara com precisão. Ela aceitou, segurando a xícara quente como se fosse um amuleto. Só então olhou para ele. — Hoje você foi muito forte — disse ele, com um tom que misturava admiração e cálculo. — Vi como aquilo mexeu com você… mas ainda assim, foi inteira pelo Henrique. — Uma mãe faz qualquer coisa pra ver o filho sorrir — disse ela, a voz trêmula. — Mesmo que seja só por uma tela. — E você fez — respondeu Marlon, suspirando. — Sei que me odeia, Ellie. Talvez com razão. Mas eu só queria que, por um instante… você me visse além daquilo. Só um pouco. Ela desviou o olhar, encarando o céu. — Eu não sei se consigo ver nada além da dor agora — respondeu, honesta. — Mas sei reconhecer quando alguém cumpre o que prometeu. Hoje… você cumpriu. Ele engoliu seco, com aquele silêncio mafioso que dizia mais do que qualquer palavra: ele podia destruir tudo, e não tinha pressa. — Talvez eu possa cumprir outras coisas também… se você permitir, nem que seja um pouco — disse, voz baixa, carregando a promessa de poder e ameaça implícita. — Confiar não é algo que se exige — respondeu Ellie. — É algo que se constrói. E você quebrou tudo antes mesmo de tentar. O silêncio voltou, pesado e absoluto. Só o som da respiração preenchia o espaço. E naquele instante, mesmo sem gestos bruscos, Ellie sabia: ele ainda mandava, ainda controlava, e cada respiração dela era observada.
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