Mais tarde, o quarto estava mergulhado em penumbra, apenas com a luz suave de um abajur aquecendo o ambiente. Ellie estava deitada sobre os lençóis macios, com as pernas esticadas e o corpo cansado do dia intenso. Marlon, com aquela paciência que só ele conseguia ter com ela, massageava devagar os pés dela, os dedos firmes deslizando sobre sua pele sensível, provocando nela um alívio silencioso e uma paz temporária.
Ela suspirou, olhando o teto por um instante, antes de baixar os olhos para ele.
— Amor... eu queria falar uma coisa.
Marlon levantou os olhos, atento, já preparado para qualquer confissão, qualquer dor que precisasse conter com a força do próprio corpo.
— O que foi, minha princesa? — perguntou com a voz baixa, rouca, daquele jeito que ela conhecia bem... intenso, perigoso, protetor.
Ellie demorou um segundo para responder, porque aquilo vinha do fundo do peito.
— Eu sei que você mudou. Sei que tenta se controlar mais, que segura aquele seu lado possessivo, protetor demais... talvez até sombrio. Mas... eu preciso que você proteja ainda mais essa casa, amor. — A voz dela falhou um pouco. — Esses pesadelos do Henrique me deixaram aflita. Me consumiram por dentro.
Ela se ajeitou um pouco, os olhos fixos nos dele, tão escuros e intensos que pareciam ler sua alma.
— Eu sei que aqui é seguro. Que nada passa despercebido pelos seus olhos, pelos seus homens. Mas... não descansa, amor. Promete pra mim que você não vai descansar. Porque se o Gustavo viesse e me levasse... eu acho que suportaria. Mas... prender o Henrique? Isso acabaria comigo. E eu sei... eu sinto... que ele seria capaz.
Marlon parou de massagear. Ficou imóvel por alguns segundos. A mudança no ar foi quase palpável. O olhar dele escureceu, os maxilares se contraíram. Quando ele se moveu, foi para subir pelo corpo dela, com lentidão calculada, como se cada movimento dele carregasse uma promessa não dita.
— Você quer o lado mais sombrio de volta, é isso? — murmurou ele, o tom grave, possessivo. — Quer o homem que faz o chão tremer quando alguém ameaça o que é dele?
Ellie apenas assentiu com a cabeça, o coração disparado.
— Então escuta bem, minha mulher... — Ele se aproximou até os lábios dele tocarem a orelha dela com a respiração quente. — Se esse desgraçado tiver a ousadia de encostar um dedo no Henrique, ou em você, eu não vou apenas acabar com ele... eu vou fazer ele implorar pra morrer. Porque eu vou ser implacável, sim. Sádico, se for necessário. E ele... ele não vai saber nem de onde veio o golpe. Eu vou destruir tudo que ele tentar construir pra chegar perto de vocês.
Ellie fechou os olhos, sentindo o peso da promessa dele — e a segurança que isso trazia.
Ela engoliu em seco e falou, com a voz baixa:
— Minha mãe me contou... que desde quando você me trouxe de volta, ele mudou muito. Ele nunca encostou um dedo na minha mãe nem no meu filho. Mas ele era controlador. Rígido. Quebrava coisas dentro de casa. Gritava. E não se importava que o Henrique estava ali, vendo tudo. Lembra que o nosso menino só tinha três anos? Já tava assustado por não ter mais a mãe dele ali... só falava comigo por chamada de vídeo. E ainda via o pai assim...
Ela respirou fundo, os olhos úmidos.
— Então... eu acho que ele teria coragem. Ainda mais agora, que tá possesso de raiva. Porque ele sabe que eu voltei com você pra proteger o Henrique e minha mãe. No começo... era só isso. Mas... eu me apaixonei por você de novo. A gente ficou junto de verdade. Ele sabe. E isso deve estar queimando ele por dentro. Ele vai fazer de tudo, de tudo...
Marlon segurou o queixo dela com força, mas sem machucar. O olhar dele parecia feito de fogo.
— Escuta o que eu vou te dizer. Esse homem pode ter sido pai um dia... mas agora ele é só uma ameaça. E ameaça a gente elimina. Eu não vou apenas proteger essa casa. Eu vou reforçar cada centímetro dela. E se ele ousar respirar o mesmo ar que vocês... eu vou caçá-lo como um animal. E não vou parar até não sobrar nada dele pra reconhecer.
— Me promete... — ela sussurrou, com os olhos nos dele. — Promete que vai ser implacável de novo.
— Eu prometo. Por você. Pelo nosso filho que tá vindo. Pela sua mãe. Pelo Henrique. Eu vou ser o d***o que o Gustavo vai temer todas as noites antes de dormir. E se ele ousar tocar no que é meu... ele vai implorar pra nunca ter nascido.
Ellie se aninhou nos braços dele, arrepiada, mas protegida. Naquela noite, ela adormeceu sabendo que, com Marlon ao lado, ela estava nas mãos de um homem que seria céu e inferno por ela — e que, por amor, seria capaz de qualquer coisa.
Passaram-se alguns dias.
O clima dentro da casa parecia mais leve, mais calmo. Henrique, enfim, tinha dormido algumas noites inteiras sem chorar, sem acordar assustado no meio da madrugada, sem aqueles gritos de pavor que cortavam o coração de Ellie. Ele estava melhorando... aos poucos. Mas não era o suficiente para Marlon baixar a guarda. Não dessa vez.
Porque enquanto o menino se recuperava dos pesadelos, Marlon se tornava o próprio pesadelo para qualquer um que ousasse ameaçar sua família.
Ellie percebeu. O jeito como ele observava tudo. Os olhos que não descansavam. O modo como ele parecia ouvir até o silêncio.
Marlon não comentou com ela — porque não queria que ela se preocupasse ainda mais —, mas tinha dobrado a guarda. Discretamente, duas seguranças mulheres foram destacadas para permanecerem dentro da casa, em pontos estratégicos, treinadas para agir sem serem notadas. Toda a vigilância externa foi ampliada, com sensores de movimento, câmeras térmicas, novas rotas de patrulha.
Nenhuma ligação, nenhuma mensagem, nenhum pacote chegava à casa sem passar antes por ele — e pela sua equipe de confiança. Tudo era filtrado, rastreado, checado. Ele sabia que o inimigo era ardiloso, paciente... e perigoso.
Marlon não dormia direito, mas isso não importava. Dormir seria um luxo. E ele estava em guerra.
A qualquer hora do dia, era possível vê-lo andando pela casa em silêncio, verificando trancas, observando as câmeras, em contato constante com os homens dele. Nenhuma brecha. Nenhum descuido. Ele faria o que fosse necessário.
Porque aquela era a mulher dele.
Porque ali dentro havia um bebê crescendo... um pedaço de ambos.
E porque Henrique, mesmo ainda pequeno, era agora filho dele também. Um menino que confiava em Marlon com o coração inteiro.
Ele lembrava das palavras de Ellie como se estivessem tatuadas em sua mente:
“Promete que vai ser implacável de novo?”
Sim. Ele prometeu. E estava cumprindo.
Ellie o observava às vezes, com o olhar marejado. Ela sabia. Sabia que Marlon não estava apenas protegendo — ele estava travando uma batalha invisível todos os dias. Contra qualquer sombra. Contra qualquer aproximação. Contra qualquer passado que tentasse tocar o presente deles.
E no fundo, ela sentia: nenhum monstro conseguiria passar por Marlon.
Não agora.
Nos dias seguintes, Marlon colocou seu plano em ação. A mensagem havia sido rastreada. Ele e sua equipe montaram uma estratégia para atrair Gustavo até um local seguro, longe da casa, onde poderiam capturá-lo discretamente — ou eliminá-lo, se fosse necessário.
Era uma armadilha pensada nos mínimos detalhes. O endereço falso de Ellie vazado de propósito. Um boato plantado de que ela faria um exame importante em uma clínica afastada. Agentes disfarçados nos arredores. Equipe pronta para agir.
Tudo estava no lugar.
Mas Gustavo... era mais astuto do que parecia.
A hora chegou. O carro que supostamente levaria Ellie estacionou na clínica armada. Marlon, de longe, observava tudo pelas câmeras. Os segundos se arrastaram como horas. E então, nada.
Nenhuma movimentação. Nenhuma aproximação. Nenhum sinal de Gustavo.
Até que, minutos depois, um carro preto apareceu no radar da equipe de Marlon. Eles rapidamente cruzaram os dados da placa. Era um carro alugado, identidade falsa. Mas dentro dele... apenas um envelope.
Os agentes interceptaram o veículo vazio e encontraram o envelope endereçado a "Marlon Olivares"
Com mãos frias, Marlon abriu o papel.
"Você acha mesmo que eu sou e******o? Você se esqueceu com quem está lidando. Enquanto você brinca de caça, eu estudo seus passos. Estou mais perto do que você imagina... E quando eu for te mostrar o que é dor, não vai ser com palavras. Vai ser com perda."
A ira em Marlon subiu como fogo n***o nas veias.
Ele jogou o papel no chão, esmagando com a bota como se aquilo fosse a própria garganta do Gustavo.
— Filho da p**a tá me observando. — rosnou para si mesmo. — Ele não só não caiu... como ainda jogou a ameaça de volta na minha cara.
Ligou imediatamente para Ellie.
— Oi, amor... — ela atendeu, preocupada. — Está tudo bem?
— Tá. Está tudo sob controle. Mas me escuta com atenção: a partir de hoje, você não sai de casa sem mim ou sem dois dos meus homens grudados em você. Entendeu?
— Gustavo escapou?
— Ele não apareceu, mas mandou recado. Ele sabe o que a gente tentou. Ele tá perto. Tá se achando mais esperto. Mas eu vou virar esse jogo, Ellie. Ele tá mexendo com o homem errado.
— E se ele tentar de novo?
— Ele não vai tentar. Ele vai agir. E quando agir... eu vou estar esperando com a bala marcada com o nome dele.
Ellie respirou fundo, fechou os olhos. O medo crescia, mas a presença de Marlon ainda era o escudo mais forte que ela tinha.
— Só volta pra casa. Só me abraça.
— Tô voltando agora. Mas dessa vez... com sangue nos olhos.