Quando a Rainha percebe que não está mais sozinha.
Luana Marazano Gutemberg sempre soube ler ambientes antes mesmo que as pessoas percebessem que estavam sendo observadas. Era um dom que ela aperfeiçoara com dor, estratégia e sobrevivência.
Mas naquela noite, algo diferente chamou sua atenção antes de qualquer olhar da elite.
Mário.
Ela o viu no alto da escadaria da mansão, já pronto para sair, vestindo o terno escuro que havia sido entregue horas antes. O corte era impecável. Ajustado ao corpo dele como se tivesse sido desenhado com precisão milimétrica.
Ele não era aristocrático.
Ele era sólido.
O tecido delineava os ombros largos, o peito firme, a postura naturalmente ereta de alguém que não se curva fácil. O cabelo escuro levemente penteado para trás, a barba marcada. O perfume — amadeirado, discreto — misturava-se ao cheiro natural dele, criando algo que não era luxuoso demais, mas masculino de forma instintiva.
Ela percebeu antes mesmo de se permitir pensar.
Ele combinava com aquele mundo mais do que ela imaginava.
Quando ele sorriu de canto, ao encontrá-la pronta no topo da escada, o olhar ganhou uma profundidade inesperada. Havia algo ali que não era ingenuidade.
Era decisão.
No salão da festa, os olhares vieram como ela já previa. Murmúrios. Avaliações. Cálculos.
Mas não eram apenas sobre ela.
As mulheres olhavam para Mário.
Olhares longos demais. Sorrisos sutis demais. Avaliações silenciosas que ela conhecia bem.
Luana não sentia ciúme.
Ciúme era emoção desnecessária.
Mas algo apertou levemente no peito quando uma mulher loira tocou o braço de Mário ao cumprimentá-lo, demorando meio segundo além do protocolo.
Ela percebeu o corpo dele reagir.
Mandíbula tensa.
Mãos fechando e abrindo discretamente.
Respiração mais pesada quando comentários começaram a surgir.
— Casamento real ou estratégia?
— Quanto tempo dura?
— A Rainha resolveu romantizar?
Ela respondia com calma absoluta. Voz firme. Olhar neutro.
Mas ela via o efeito daquelas perguntas nele.
Via o músculo do maxilar contrair.
Via o peito subir e descer mais rápido.
Via o desconforto de um homem que não estava acostumado a ser medido como peça.
Quando ele se inclinou e disse, baixo, que queria brincar, ela percebeu antes mesmo de entender.
Ele não queria brincar.
Ele queria responder.
A dança foi escolha dele.
E ela permitiu.
Quando ele a puxou para o centro do salão, a mão na cintura dela não era invasiva. Era firme. Segura. A condução era surpreendentemente precisa.
Ele aprendia rápido.
O primeiro beijo.
Ela não esperava.
O impacto não foi público.
Foi interno.
O calor da boca dele contra a dela trouxe algo que ela não permitia sentir havia anos. Não era fraqueza. Era presença.
Ele a beijava como homem.
Não como peça política.
Quando ele disse que era de verdade, ela sentiu algo raro.
Respeito.
O segundo beijo foi diferente.
Mais profundo.
A mão dele na nuca, a outra na cintura, o corpo aproximando o dela sem pedir autorização, mas sem desrespeito.
A língua dele tocou a dela com firmeza controlada.
O gosto dele era vinho e calor.
E por um segundo muito breve, ela esqueceu que estavam sendo observados.
A voz rouca no ouvido dela provocou algo mais perigoso que desejo.
Deslocamento.
Ela, que sempre controlava o tabuleiro, estava sendo movida.
Quando voltaram a circular, a mudança foi evidente.
Os olhares não eram mais questionadores.
Eram respeitosos.
As mulheres que antes avaliavam agora mediam distância.
A Rainha estava casada.
E o marido parecia disposto a defender o território.
Pouco depois, um homem de meia-idade, elegante demais para ser neutro, aproximou-se.
— Senhora Gutemberg, precisamos discutir o contrato.
Ela assentiu.
Mário acompanhou naturalmente, mas dois seguranças bloquearam o caminho.
— Apenas a senhora.
Ela parou.
O silêncio dela não era hesitação. Era cálculo.
Olhou para o homem.
— Se meu esposo não entra, eu também não.
O homem tentou suavizar.
— É apenas protocolo.
— Então o contrato está encerrado. Negócio desfeito. Estou me retirando.
Não houve elevação de voz.
Não houve discussão.
Apenas decisão.
Ela virou as costas.
Mário a acompanhou.
Dionísio entrou no carro antes deles. O maxilar rígido denunciava tensão.
— Minha rainha, isso pode gerar repercussão.
Ela o olhou pelo retrovisor.
— Está se envolvendo nos meus negócios, Dionísio?
— Não, minha rainha. Eu só…
— Só o quê, Dionísio? Você acha que porque nos conhecemos há vinte anos não é substituível?
Silêncio.
— Desculpe, minha rainha.
— Nos falamos amanhã.
Chegaram à mansão.
Dionísio abriu a porta. Ela desceu sem olhar para ele.
Entrou.
Mas ele não deixou Mário passar.
O corpo grande bloqueando a passagem.
— Que p***a foi aquela?
Mário o encarou sem desviar.
— O que quer saber, Dionísio? Seja claro.
— Você beijou a Lua me olhando. Por que p***a fez isso?
O nome ficou suspenso no ar.
Mário inclinou levemente a cabeça.
— Lua? Você chama minha esposa de Lua?
O olhar de Dionísio escureceu.
— Você acha que só porque se casou com ela tem o direito de tocá-la? Acha que eu não te mato?
Mário deu um passo à frente.
Olhos nos olhos.
Sem recuar.
— E só porque eu sou brasileiro você acha que não sei pegar numa arma? Que tenho medo de um protegido da máfia?
— Como é que é? Está me desafiando?
Mário aproximou-se mais, voz baixa.
— Sua vez passou, Dionísio.
Chegou perto do ouvido dele.
— Ela agora é… minha.
Deu as costas.
Entrou.
Subiu as escadas.
Luana estava no quarto, já de roupão, retirando a maquiagem com movimentos lentos diante do espelho.
Ele tirou o paletó, a gravata. Vestiu roupas leves.
Observou o reflexo dela.
— Vou fazer algo para comermos. Já que não jantamos.
— Não precisa. Estou sem fome.
Ele aproximou-se, segurou os ombros dela suavemente.
— Você não fechou o negócio por minha causa. Vou fazer algo.
Ela sustentou o olhar dele pelo espelho.
Um pequeno sorriso surgiu.
— Sabe fazer lanche? Prefiro algo leve.
Ele assentiu.
Na cozinha, minutos depois, ela apareceu de baby doll e roupão levemente aberto. Cabelos soltos. Sem maquiagem.
Simples.
Ele colocou um sanduíche de peito de frango com salada diante dela. Um copo de suco de laranja ao lado.
Ela olhou.
E sorriu.
— Gostei.
Ele apoiou as mãos no balcão.
— Gosto quando você sorri. Fica linda.
Ela desceu do banco, aproximou-se.
— Vou tentar. Mas só entre nós dois. Eu preciso ser quem sou.
Ele assentiu.
— Combinado.
Comeram em silêncio confortável.
Subiram.
Deitaram na cama.
O quarto ficou mergulhado em silêncio.
Mas não era distância.
Era reflexão.
Ela olhava para o teto, pensando na quebra de protocolo, no impacto político, no homem que a beijara diante de todos.
Ele olhava para o escuro, pensando no risco que assumira, no beijo que dera, na linha que cruzara com Dionísio.
A noite estava quieta.
Mas o jogo havia mudado.
E ambos sabiam.