ENTRE O SILÊNCIO E O ABISMO

1173 Words
Quando o toque quase acontece. A escuridão do quarto não era completa. A cidade entrava pelas frestas da cortina em tons azulados, recortando as silhuetas sobre a cama ampla demais para dois desconhecidos que haviam se tornado marido e mulher a dois dias. Mário estava de olhos abertos. O teto parecia distante, mas o corpo dela estava perto demais. Ele conseguia ouvir a respiração de Luana. Lenta. Regular. Controlada. Aquilo não era sono profundo. Ele sabia reconhecer quando alguém estava apenas fingindo descansar. E aquela mulher não parecia ser do tipo que desligava a mente com facilidade. Ele virou levemente o rosto. Os cabelos dela estavam soltos sobre o travesseiro, espalhados como um contraste macio contra a frieza da noite. A luz fraca desenhava o contorno do rosto dela, firme até mesmo em repouso. Ele engoliu em seco. Não era desejo apenas. Era consciência. Consciência de que aquela mulher que ele provocara na festa, que beijara com intenção clara, estava ali. Na mesma cama. Compartilhando o mesmo ar. Ele mexeu o braço, sem querer encostar. O espaço entre eles parecia eletrificado. Luana abriu os olhos. Não virou o rosto de imediato. Apenas respirou fundo, como quem aceita que não adianta fingir. — Você também não está dormindo, ela disse, a voz baixa, rouca pelo silêncio. Mário soltou um pequeno riso pelo nariz. — Achei que só eu estivesse contando as rachaduras do teto. Ela virou o rosto devagar. O olhar dela era diferente do da manhã. Não havia comando ali. Havia observação. — Está arrependido? ela perguntou. Ele demorou alguns segundos para responder. — De qual parte? Ela sustentou o olhar. — De tudo. Ele passou a mão pelo rosto. — Não. A resposta saiu simples. Sem defesa. Luana o analisou como quem testa a firmeza de uma estrutura. — Nem do beijo? ela perguntou. Ele sentiu o estômago contrair. — Principalmente do beijo. Silêncio. Ela não desviou o olhar. Ele também não. A tensão não era agressiva. Era carregada. Ele quebrou primeiro. — Você ficou surpresa. — Fiquei. — Não gostou? Ela respirou fundo. Pensou antes de responder. — Não estou acostumada a ser surpreendida. Ele quase sorriu. — Então talvez você precise se acostumar. Ela estreitou os olhos. — Cuidado, Mário. Ele se apoiou em um cotovelo, virando o corpo levemente para ela. — Cuidado com o quê? — Com a linha que você está cruzando. Ele se aproximou um pouco mais. Não o suficiente para tocar. Apenas para sentir o calor dela. — E qual é essa linha? Ela segurou o olhar dele por alguns segundos longos demais. — A que separa estratégia de sentimento. Ele absorveu aquilo. — Você acha que o que eu fiz foi estratégia? — Foi territorial. Ele não negou. — E você não gostou? Ela respirou mais fundo. — Eu não disse isso. A cidade lá fora parecia distante. O quarto, pequeno demais. Ele baixou a voz. — Ele te ama? Ela não precisou perguntar de quem ele falava. — Ama. — E você? Ela demorou. — Eu respeito. — Isso não é resposta. Ela virou o corpo, ficando de lado, de frente para ele agora. — É a única que eu tenho. Ele ficou em silêncio por alguns segundos. — Você já amou alguém? O olhar dela mudou. Não endureceu. Não suavizou. Apenas ficou distante. — Já precisei sobreviver. Ele entendeu que aquilo era o mais próximo de confissão que ela daria. A mão dele se moveu quase sem que ele percebesse. Parou a centímetros do braço dela. Ela sentiu. O corpo dela respondeu antes da razão. Um leve arrepio percorreu a pele exposta. Ele percebeu. E isso fez o pulso dele acelerar. — Eu não vou tocar se você não quiser, ele disse baixo. Ela sustentou o olhar dele. — E se eu quiser? O ar ficou mais pesado. Ele respirou fundo. — Então eu toco. Ela não recuou. Ele deixou os dedos encostarem de leve na pele do braço dela. Não foi carícia. Foi reconhecimento. A pele dela era quente. Ela fechou os olhos por um segundo. Ele sentiu o impacto daquele gesto mínimo atravessar o próprio peito. Ela abriu os olhos de novo. — Isso é perigoso, Mário. — Você vive de perigo. — Não desse tipo. Ele deslizou os dedos um pouco mais acima, devagar, como se testasse até onde podia ir. Ela não o interrompeu. Mas também não se entregou. Ele aproximou o rosto. A respiração dos dois se misturou. O beijo não aconteceu. Ficou suspenso. Ela levantou a mão e encostou no peito dele, firme, impedindo que ele diminuísse o espaço. — Não assim, ela disse. Ele parou. — Como então? Ela respirou fundo. — Não por provocação. Não por disputa. Não por ele. Ele entendeu. Ele havia beijado para marcar território. Aquilo era diferente. Ele se afastou alguns centímetros. — Eu não sei fazer diferente ainda. Ela observou aquilo como quem avalia honestidade. — Então aprenda. Ele ficou em silêncio. Ela também. A tensão continuava ali, mas não era mais explosiva. Era consciente. Ele recuou a mão devagar. — Eu vou tentar. Ela assentiu uma vez. Ficaram alguns segundos se olhando. Sem armas. Sem conselheiros. Sem seguranças. Só dois estranhos ligados por um erro que agora respirava entre eles. Ela virou o corpo novamente, de costas para ele. — Dorme, Mário. Ele ficou parado por alguns segundos, depois se aproximou o suficiente para sentir o calor dela nas costas. Não tocou. Mas também não se afastou. A respiração dela mudou levemente. Não era sono ainda. Era aceitação. Dois corpos dividindo espaço. Sem guerra. Sem sexo. Sem rendição. Apenas tensão viva. Algum tempo depois, ele fechou os olhos. E pela primeira vez desde que entrou naquele salão, o silêncio não parecia ameaça. Parecia começo. O dia amanheceu sem que nenhum dos dois percebesse exatamente quando o silêncio da madrugada virou luz pálida entrando pelas cortinas. Mário foi o primeiro a acordar. Não abriu os olhos de imediato. Sentiu antes. Peso. Calor. Pele. Quando respirou mais fundo, percebeu que não estava sozinho no próprio espaço. Havia um corpo encaixado ao dele, firme, decidido até mesmo dormindo. Ele abriu os olhos devagar. Luana estava com a cabeça apoiada no peito dele. Um braço atravessado sobre o abdômen dele. Uma das pernas jogada por cima da perna dele, como se tivesse tomado posse inconsciente durante a noite. Mário ficou imóvel. A respiração falhou por um segundo. O coração começou a bater mais rápido, mas ele tentou controlar para não acordá-la. Os cabelos dela estavam espalhados sobre o tórax dele, macios. O rosto relaxado, distante da postura de comando que ela carregava acordada. Sem maquiagem. Sem frieza. Sem o peso da coroa invisível. Só uma mulher. Ele ficou observando. Os traços delicados do rosto. A linha do nariz. A curva dos lábios. A sombra dos cílios projetada pela luz suave da manhã. Ela era bonita de um jeito diferente. Não era a beleza jovem que ele tinha conhecido antes. Não era leve. Era madura. Era segura. Era intensa. O peito dele apertou.
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