APARECENCIA E PROVOCAÇÃO

1153 Words
Quando o trono observa e o marido reage. A mansão de Luana Gutemberg não parecia uma casa. Parecia um palácio desenhado para lembrar às pessoas onde estavam pisando. Tetos altos, mármore claro, lustres que refletiam ouro nas paredes. Silêncio controlado. Funcionários que se moviam como sombras treinadas. Mário entrou ali no fim da tarde e entendeu que a casa de Gabriel não passava de abrigo temporário. Aquilo sim era território. Era por volta das dezesseis horas quando duas funcionárias entraram carregando caixas grandes, embalagens luxuosas com etiquetas discretas de alta costura. Mário arqueou a sobrancelha. — O que é isso? Luana não levantou a voz, nem os olhos do tablet onde revisava mensagens. — Para esta noite. Ele franziu a testa. — Esta noite? Ela ergueu o olhar finalmente. — Há uma recepção. Um evento da elite europeia. Eu preciso comparecer. Ela fez uma pequena pausa. — E você, como meu marido, também precisa. A palavra marido soou diferente dentro daquela casa. Não tinha a impulsividade da igreja. Ali, era função. Os funcionários abriram as caixas. Um vestido longo, sofisticado, tecido que parecia líquido sob a luz. Um smoking impecável, corte sob medida. Mário aproximou-se, passando a mão pelo tecido do próprio terno novo. — Você já sabia? — Eu sempre sei onde preciso estar. A resposta veio neutra, mas ele já começava a reconhecer o padrão. Ela não improvisava. Ela previa. Algum tempo depois, estavam em quartos separados. Mário ajustava o paletó diante do espelho. O corte era perfeito. O homem simples, dono de oficina, parecia outro. Ainda era ele, mas com uma camada nova de responsabilidade sobre os ombros. Quando desceu as escadas, ela já estava pronta. O vestido abraçava o corpo dela como obra de arte. Cintura marcada, brilho sutil, elegância afiada. Cabelo preso em um coque sofisticado, revelando o pescoço longo. Nenhum exagero. Apenas presença. Ele parou no último degrau. Não foi só beleza. Foi impacto. Ela percebeu o olhar. — Está adequado? Ele demorou um segundo para responder. — Você não parece adequada. Você parece… inalcançável. Um quase sorriso surgiu no canto da boca dela. — É essa a intenção. O carro já aguardava. Preto, blindado, discreto demais para parecer ostentação, imponente demais para parecer comum. Dionísio abriu a porta para Luana. O olhar dele passou por Mário por um segundo mais longo que o necessário. Não havia palavras. Só território. Mário entrou do outro lado. Quando o carro arrancou, ele sentiu a primeira pontada real do que era estar ao lado dela no mundo dela. Não era passeio. Era exposição. O salão do evento parecia saído de um filme. Lustres gigantes, paredes douradas, música clássica ao fundo, champanhe circulando. Homens poderosos. Mulheres impecáveis. Conversas carregadas de interesse. Quando o casal entrou, o ambiente mudou sutilmente. Não foi silêncio. Foi foco. Olhares discretos. Cochichos contidos. A Rainha tinha chegado. E estava casada. Mário percebeu a mudança de temperatura social antes mesmo de ouvir as palavras. Uma mulher elegante, sorriso ensaiado, aproximou-se primeiro. — Luana… que surpresa agradável. Ouvi rumores. Ela lançou um olhar para Mário. — São verdadeiros? Luana manteve o controle perfeito da expressão. — Sim. São. O homem ao lado da mulher riu baixo. — A Rainha resolveu experimentar o matrimônio? Que ousadia. Mário sentiu o sangue subir. Outro grupo se aproximou. Mais perguntas. Mais sorrisos enviesados. — Casamento real ou movimento estratégico? — O conselho aprovou? — Foi impulsivo ou calculado? As frases eram educadas na forma. Ácidas na intenção. Mário percebeu que aquilo não era curiosidade. Era teste. Testavam a estabilidade dela. Testavam a legitimidade dele. Luana respondia com frases curtas. Elegantes. Firmes. Mas ele começou a perceber algo que o incomodou profundamente. Eles não estavam acreditando. Para aquela elite, aquilo podia ser fachada. Jogada política. Teatro. Um homem alto, gravata azul escura, aproximou-se com sorriso debochado. — Então é você o brasileiro que conquistou a Rainha? Conquistou. A palavra soou como piada. — Espero que saiba o peso que isso carrega. Mário respirou fundo. A mandíbula endureceu. Luana percebeu. O toque leve da mão dela no braço dele foi aviso. Controle. Mas a sucessão de comentários continuava. — Quanto tempo dura? — Foi mesmo na igreja? — Victor sabe disso? Algo dentro de Mário estalou. Ele não era mafioso. Não entendia jogos políticos. Mas entendia respeito. Ele inclinou-se para Luana, voz baixa. — O que você acha de brincarmos um pouco? Ela virou o rosto para ele. — Brincarmos? — Você confia em mim? Ela o analisou por um segundo que pareceu mais longo que qualquer reunião. — Depende do que pretende fazer. Ele não respondeu. Apenas segurou a mão dela. E a conduziu. No meio do salão. A música mudou para algo mais lento. Ele posicionou a mão na cintura dela com segurança. A outra segurou a mão dela com firmeza. Ela não resistiu. Ele começou a conduzi-la. Passos firmes. Ritmo seguro. Olhares se voltaram. Agora não eram cochichos. Era observação. Luana manteve o rosto sereno. Mas sentiu a energia dele mudar. Não era ciúme cego. Era posicionamento. No giro seguinte, ele puxou-a levemente mais perto. E a beijou. Não foi rápido. Não foi discreto. Foi firme. Um beijo que não pedia autorização social. O salão ficou em silêncio por um segundo que ecoou. Quando ele se afastou, ela o encarou surpresa. — Por quê? Ele manteve a mão na cintura dela. — Porque você é minha esposa. E isso é de verdade. Os olhos dela analisaram a resposta. Ele completou, baixo. — E acho que assim eles param de perguntar se você se casou ou não. O canto da boca dela se curvou. Um sorriso pequeno. Verdadeiro. Eles continuaram dançando. Mas agora o ambiente havia mudado. A dúvida virou fato. Ele conduziu outro giro. No movimento seguinte, posicionou-a de costas para a entrada do salão. Dionísio estava lá. Observando. Mário viu. Sem quebrar o ritmo, puxou Luana para mais perto e a beijou novamente. Dessa vez mais profundo. A mão dele deslizou até a nuca dela, firme. A outra segurou a cintura com domínio seguro. Não agressivo. Seguro. No meio do beijo, ele abriu os olhos. E encarou Dionísio. Não era desafio infantil. Era aviso. Quando se afastou, ainda próximo demais dela, ele sussurrou: — Estou sendo convincente, minha rainha? Luana demorou um segundo para responder. Algo dentro dela havia sido deslocado. Não pelo beijo. Mas pela coragem. Ela recompôs o rosto. — Precisamos circular e cumprimentar outras pessoas. Ele limpou suavemente um leve borrado do batom dela com o polegar. — Vamos, minha esposa. Dessa vez, quando atravessaram o salão, os olhares eram diferentes. Não havia mais deboche. Havia reconhecimento. A Rainha não estava sozinha. E o homem ao lado dela não parecia peça descartável. Parecia escolha. Dionísio permaneceu imóvel próximo à porta. Mas o maxilar dele estava mais rígido do que antes. E Mário percebeu. O jogo tinha começado. E ele tinha acabado de fazer seu primeiro movimento público.
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