MINISTROS DO SUBMUNDO

1556 Words
Quando ele entende que o poder dela também é afetivo. Mário ficou encostado próximo à porta, tentando parecer apenas um homem na casa de um amigo, e não o intruso recém-casado com uma mulher que fazia adultos armados se comportarem como peças de um tabuleiro. A palavra tabuleiro atravessou a mente dele e veio junto com outra sensação, mais incômoda: ele não sabia as regras. Luana ouviu os relatórios com a mesma calma que tinha usado para dizer “aceito”. Não havia emoção no rosto dela, mas também não havia frieza teatral. Era outra coisa. Era foco. Um foco tão limpo que parecia quase c***l. Dionísio falou por último. Não foi o que ele disse. Foi como disse. A voz dele não buscava aprovação. Entregava informação como quem protege território. E quando mencionou Victor e Nádia, o olhar dele passou por Mário só um segundo, mas foi o suficiente para encostar na pele como um aviso. Luana não demonstrou nada. Apenas concluiu, com a mesma neutralidade que esmagava qualquer tentativa de i********e naquele ambiente. Ela tocou o centro da mesa com a ponta dos dedos, um gesto mínimo. — Retomamos em trinta minutos. Os homens se levantaram sem questionar. Não houve “sim, senhora” teatral. Houve obediência real, natural, treinada. Cadeiras deslizaram em silêncio controlado. Um a um, eles saíram. Dionísio foi o último. No batente da porta, ele parou. Não olhou para Mário de frente. Olhou para Luana, como se confirmasse algo invisível entre os dois. — Minha rainha, eu fico aguardando. Ela ergueu os olhos. — Fica. E espera. A palavra “espera” não veio como pedido. Veio como ordem definitiva, o tipo de ordem que não permite o ciúme crescer em voz alta. Dionísio assentiu, rígido, e saiu. Quando a porta fechou, o silêncio mudou de densidade. Ficou menos militar, mas não ficou leve. Mário percebeu que, a sós, Luana continuava sendo a mesma. Não era máscara. Era estrutura interna. Ele respirou fundo. Precisava falar agora, porque se esperasse mais, a coragem dele iria virar medo, e medo naquele mundo parecia coisa que se sente uma vez só. — Eu preciso saber quem são eles. Luana não se surpreendeu. Ela apenas inclinou levemente a cabeça, como se aceitasse a pergunta como parte inevitável do contrato que tinha acabado de assinar. — Você quer nomes ou funções? — Os dois. Ela se levantou devagar e caminhou até o aparador, onde havia água, gelo e uma bandeja de cristal. Serviu-se sem pressa, como se o tempo não tivesse dentes. Mário notou que o gesto dela era extremamente humano, mas o jeito era de alguém que nunca tinha sido permitido ser frágil. Ela tomou um gole, colocou o copo de volta e falou com precisão. — Dionísio Volkovisk. Trinta e oito anos. Italiano com ascendência russa. Chefe da minha segurança pessoal e comandante tático da minha guarda direta. Ele cuida de rota, contenção, fuga, contra-ataque. E decide rápido. Mário engoliu seco. O nome já era grande, mas a função era maior. Luana continuou. — James Antonov Volkov. Quarenta e cinco. Russo. Operador financeiro e conselheiro estratégico. Lavagem, fundos, negociações, números. Ele não acredita em emoção. Só em risco. Mário sentiu um arrepio ao entender que, para aquele homem, ele era provavelmente um número r**m. — Stefano Bianchi Moretti. Quarenta e um. Italiano. Relações políticas, diplomacia, conselho. Ele fala com gente que usa terno, mas também com gente que usa toga. E ele controla narrativas quando o mundo tenta mastigar o meu nome. Ela disse “meu nome” como se fosse arma e patrimônio ao mesmo tempo. — Clóvis Mikhailov Sokolov. Trinta e seis. Russo. Inteligência e contraespionagem. Se você acha que está sozinho num quarto, ele prova o contrário. Mário sentiu a nuca gelar. O tipo de gelo que não vem do clima, vem do entendimento. — Damião Laurent Delacroix. Quarenta e três. Francês. Logística e rotas internacionais. Portos, cargas, aeronaves. Ele não tem paciência para amadores. Luana terminou a lista como quem fecha um relatório. Mário ficou alguns segundos sem falar. A mente dele tentava encaixar aquelas pessoas dentro da palavra “segurança”, mas não cabia. Aquilo não era segurança. Era um Estado paralelo, inteiro, operando dentro de uma mulher que ele tinha carregado nos ombros como se fosse troféu de amor. Ele riu sem humor nenhum, um som curto, involuntário. — Eu não me casei com uma mulher… eu me casei com uma estrutura. Luana não negou. Também não confirmou. Ela apenas observou como quem acompanha um homem descobrindo que o chão não é chão. Mário passou a mão pelos cabelos, nervoso, e tentou voltar ao ponto que realmente o incomodava. — Você falou de todos eles com a mesma… clareza. Mas eu vi uma coisa. Luana ergueu a sobrancelha, mínima. — O quê? — Eu vi que o Dionísio não é só… trabalho. O nome saiu da boca dele com cuidado, como se pronunciar aquilo fosse puxar uma corda dentro da casa. Luana não desviou. — Não é. Mário sentiu o peito apertar. Ele se odiou por ser tão humano naquele segundo, por ter ciúme num lugar onde ciúme podia virar morte, por sentir como se estivesse competindo com alguém que não competia, apenas ocupava. — Ele… olha pra você de um jeito diferente. Luana aproximou-se um pouco, mas ainda mantendo distância suficiente para não virar i********e. — Sim. A resposta simples deixou Mário mais tenso do que uma explicação longa. Ele respirou fundo. — Diferente como? Luana sustentou o olhar dele com uma firmeza que não pedia permissão para existir. — Dionísio me ama. A frase caiu limpa. Sem drama. Sem culpa. Sem vaidade. Um fato. Mário piscou, como se precisasse de tempo para entender que aquilo estava mesmo sendo dito. — Ama? — É apaixonado por mim. Mário sentiu uma raiva estranha, sem alvo claro, porque não era raiva de Dionísio e não era raiva dela. Era raiva do próprio destino, do próprio impulso, da própria idiotice romântica de atravessar um oceano e acabar no meio de uma história que tinha lealdades mais antigas que ele. — E você deixa. Luana não se ofendeu. Não reagiu como mulher ferida. Reagiu como Rainha analisando uma ameaça pequena, porém real. — Eu não “deixo”. Eu reconheço. Dionísio me ajudou a sobreviver ao meu passado. Ele ficou quando todo mundo queria que eu sangrasse em silêncio. A palavra passado ficou pesada. Mário lembrou do que Sintra disse ao telefone, “rainha da máfia”, e aquele título de repente ganhou cicatriz. Ele soltou o ar devagar, tentando não soar infantil, mas a pergunta saiu mesmo assim, amarga, quase automática. — Então eu estou entrando num triângulo amoroso? Luana inclinou o rosto, como se a pergunta fosse interessante e, ao mesmo tempo, previsível. — Se eu quisesse Dionísio, eu teria me casado com ele. Mário franziu a testa. — E por que não casou, se você sabe o que ele sente? Luana demorou meio segundo a mais do que antes. Um atraso mínimo, mas Mário percebeu. Algo mudou no olhar dela. Não foi tristeza. Foi ausência. — Porque eu não amo. Não sinto. As palavras foram secas. Não cruéis. Secas. — Ele merece alguém que possa devolver. Eu não posso. Ela virou as costas como se aquilo encerrasse o assunto. Como se a vida fosse só isso: uma verdade e um movimento. Mário não aceitou. Ele deu dois passos e segurou o braço dela. Não com violência. Com desespero contido, quase vergonha, quase fúria contra si mesmo por estar pedindo algo que ele nem sabia nomear. Luana parou. Não puxou o braço. Apenas olhou para a mão dele como quem mede uma fronteira sendo cruzada. Mário levantou o rosto. Os olhos dele estavam próximos demais dos dela. — E eu? A voz dele saiu baixa, mas carregada de algo que não era só pergunta. Era medo. Era desafio. Era identidade. — Você sabe quem eu sou. Você sabe que eu sou impulsivo. Sabe que eu atravessei um oceano por amor. Que eu sinto. Eu sinto pra c*****o. Ele respirou forte. — Eu mereço me entregar a uma mulher que não vai me amar? Que não vai corresponder? O silêncio foi tão denso que pareceu preencher o quarto inteiro. Luana encarou ele sem fugir. Sem suavizar. Sem fingir. A expressão dela não era desprezo. Era análise. Como se ela estivesse observando o que aquele tipo de intensidade poderia virar dentro do corpo dela, dentro do império dela, dentro da guerra dela. Ela falou baixo. Firme. — Me fale sobre isso quando estiver me amando. Mário travou. Ela continuou, e a voz dela veio ainda mais limpa, ainda mais definitiva. — E quando me fizer sentir. A mão dele afrouxou no braço dela por instinto, como se aquelas palavras tivessem peso físico. Luana se soltou devagar, sem pressa, sem pressa nenhuma. — Minha parte foi dizer sim. Ela deu um passo para longe. O ar ficou frio. — Me fazer sentir… será papel seu. Ela virou e saiu do cômodo, deixando Mário sozinho com a primeira verdade real do casamento dele. Ele não tinha casado com uma mulher difícil. Ele tinha casado com uma mulher que não sentia. E agora, de algum jeito, ele ia precisar sobreviver o bastante para descobrir se era possível mudar isso.
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