SOB A PELE DO SILÊNCIO

998 Words
A mulher por trás da Rainha. LUANA MARAZANO GUTEMBERG O toque da mão dele nas minhas costas foi firme, mas não invasivo. Não houve posse. Não houve exigência. Houve cuidado. O tecido do vestido ainda estava ajustado ao meu corpo quando senti os dedos dele procurarem o zíper. O gesto foi hesitante. Ele respirava diferente. Mais pesado. Como se cada centímetro que se aproximava fosse território proibido. Eu conheço homens. Conheço os que se aproximam por ambição. Os que tocam por domínio. Os que olham calculando. Mário não tocava assim. Ele tocava como quem pede licença. O zíper desceu lentamente. O som do metal deslizando pareceu ecoar no quarto silencioso. Quando o vestido caiu, senti o ar mais frio na pele, mas não foi o frio que me fez prender a respiração. Foi a reação dele. Ele tentou disfarçar. Não conseguiu. O corpo dele respondeu antes que a mente organizasse qualquer defesa. Eu vi o impacto nos olhos. Não era luxúria crua. Era surpresa. Era descoberta. Curioso. Eu não me senti objetificada. Senti-me vista. E isso me desarmou mais do que qualquer arma já apontada para mim. Quando pedi a toalha, foi para interromper o momento. Não por vergonha. Por estratégia. Ele precisava de espaço. Eu precisava de tempo. Tempo para pensar no que havia feito. Tempo para entender por que aceitei aquele casamento. Fechei a porta do banheiro e encostei as costas na madeira por alguns segundos. Eu, Luana Marazano Gutemberg, Rainha de uma organização híbrida que movimenta armas e diamantes entre continentes, estava vestindo a camisa de um mecânico brasileiro dentro da casa de um amigo dele. A ironia não me escapava. Entrei no banho. A água quente caiu sobre meus ombros e eu fechei os olhos. Não aceitei aquele casamento por impulso. Aceitei porque o tabuleiro precisava de uma ruptura. Victor fugiu. Nádia se expôs. O conselho ficou sem narrativa. E eu inseri uma nova. Mas havia algo além disso. Eu vi Mário de joelhos. Vi um homem disposto a se humilhar em público por amor. Isso não é fraqueza. É força emocional m*l direcionada. Homens assim podem ser destruídos. Ou podem ser transformados. Eu não o escolhi como marido por paixão. Escolhi por possibilidade. Mas agora, sob a água quente, reconheço outra camada. Curiosidade. Ele não me olhou como rainha. Olhou como mulher. E isso é perigoso. Perigoso porque poder assusta. Principalmente quando é feminino. Se eu descer como soberana absoluta, ele se fecha. Se eu descer como vítima, eu me diminuo. Eu preciso descer como mulher. Sem armadura. Sem maquiagem. Sem trono. Saí do banho. Enrolei a toalha no corpo e sequei os cabelos com movimentos lentos. Não usei perfume. Não precisava. Vesti a camisa preta dele. O cheiro era de amaciante simples. Limpo. Sem perfume masculino forte. Sem ostentação. Eu percebi algo ali. Ele não tem nada além de uma mochila. Algumas roupas. Documentos. Uma vida inteira cabendo em poucos objetos. Eu possuo impérios. Ele carrega o que precisa. Interessante. Desci as escadas com os cabelos soltos. Sem maquiagem. Apenas eu. Ele estava na cozinha, concentrado. Cozinhando como se aquilo fosse a coisa mais importante do mundo naquele momento. Eu observei. A postura dele não era de quem tenta impressionar. Era de quem faz porque sabe fazer. Sentei-me no balcão. A conversa fluiu com naturalidade inesperada. Ele falou dos pais. Da perda. Do trabalho. Dos estudos feitos nas madrugadas. Não havia vitimização. Havia constatação. Homens que crescem na escassez aprendem valor. Eu analisei cada gesto. A forma como ele segura a faca. Como organiza a bancada. Como prova o molho antes de ajustar o sal. Ele tem método. Ele tem disciplina. Ele não percebe, mas isso é liderança em estado bruto. Quando ele levantou a taça para brindar, eu observei o olhar dele. Não havia medo. Havia decisão. Brindamos ao casamento. Ele ficou surpreso quando usei a palavra. Ele ainda não entende que palavras constroem realidade. Enquanto jantávamos, eu medi as reações dele. Ele me olha, mas não me invade. Ele observa, mas se controla. Quando ele disse que eu fico linda quando sorrio, senti algo estranho no peito. Não vaidade. Reconhecimento. Faz anos que ninguém me olha sem cálculo. Terminei a taça de vinho e peguei o celular. — Dionísio. Ele apareceu em segundos. — Minha rainha. — Deixe apenas dois homens na área externa. O resto pode se retirar. Preparem o retorno amanhã. Ele hesitou um segundo. — A senhora quer permanecer aqui? — Sim. Os olhos dele passaram rapidamente por Mário. Ciúme contido. Lealdade ferida. Eu sustentei o olhar. — Ele é meu marido. Dionísio assentiu. — Como desejar. Quando ele saiu, Mário me perguntou se eu queria descansar. Eu aceitei. Ele me mostrou o quarto de hóspedes. Não houve tensão. Não houve expectativa silenciosa. Ele abriu a porta e se afastou, respeitando distância. — Boa noite, Luana. — Boa noite, Mário. Ele entrou no quarto que estava usando. A casa ficou silenciosa. ═════════════════════════ Mário se deitou na cama encarando o teto. O dia tinha sido grande demais para caber na lógica de um homem comum. Ele se casou. Descobriu que a mulher que amava estava com outro. Descobriu que a esposa é rainha de uma máfia internacional. Mesmo assim, o que mais ocupava sua mente não era o poder. Era o sorriso dela. Ele fechou os olhos pensando no dia seguinte. Na decisão de ir para a casa dela. Na vida que estava começando sem manual. No quarto ao lado, Luana deitou de costas, os cabelos espalhados no travesseiro. Ela não pensava no conselho. Não pensava em Victor. Pensava no mecânico que cozinhou para ela. No modo como desviou o olhar ao vê-la. No cuidado nas mãos. O casamento não foi amor. Foi estratégia. Mas estratégia, às vezes, cria caminhos inesperados. Ela fechou os olhos. Amanhã, ele pisaria no mundo dela. E ela pisaria, de verdade, no mundo dele. Nenhum dos dois ainda sabia. Mas o erro já havia deixado de ser acidente. Estava se transformando em destino.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD