A PRIMEIRA NOITE

1237 Words
Sob o mesmo teto, sem armaduras. MÁRIO MACHADO ASSIS. Eu nunca pensei que a primeira noite de casado fosse acontecer daquele jeito. Não tinha música. Não tinha festa. Não tinha família. Não tinha nem certeza. Só eu. Ela. E um vestido de noiva que parecia caro demais para estar dentro da casa do Gabriel. Ela ainda estava vestida quando eu parei no meio da sala e olhei direito. O tecido branco contrastava com o mármore frio. Era surreal. A Rainha da Máfia Híbrida, dentro da casa do meu amigo, como se fosse uma cena improvisada de uma vida que não era minha. Eu pigarreei. — Você quer que eu saia para comprar uma roupa para você? Ela me olhou como se a pergunta fosse curiosa. — Não. Me empresta uma camisa. Eu fiquei surpreso. Esperava outra coisa. Uma ordem. Um pedido mais elaborado. Uma camisa. Eu sorri pequeno. — Claro. Subimos as escadas. O silêncio entre nós não era pesado. Era novo. Como se estivéssemos tateando um território desconhecido. Eu abri a mochila que tinha jogado no quarto e puxei uma camisa de malha preta, simples, dessas que eu uso para dormir. Quando me virei, ela estava parada perto da cama. — Pode abrir o zíper? Minha mão congelou por um segundo. — Posso. Eu me aproximei devagar. Não era medo. Era consciência. Cada passo diminuía a distância entre nós. O cheiro do perfume dela ainda estava ali, misturado com o ar da casa. Eu segurei o zíper. Meu coração estava acelerado demais para uma coisa tão simples. Eu puxei devagar. O som do zíper descendo pareceu alto demais no quarto. O vestido escorregou pelo corpo dela e caiu no chão com um som leve de tecido caro encontrando piso frio. Eu engoli em seco. Curvas maduras. Seguras. Diferentes das que eu tinha visto antes na vida. Nada de fragilidade juvenil. Era um corpo de mulher que sabia quem era. Lingerie branca. Delicada. Provocante sem esforço. Eu senti o corpo reagir antes da minha cabeça organizar qualquer pensamento. Calor. Pressão. Um aperto no peito. Eu virei o rosto e me afastei. — Eu… vou descer. Eu dei dois passos até a porta quando a voz dela me fez parar. — Mário. Eu congelei. Não olhei para trás. — Me traz uma toalha? — Claro. Eu voltei até o guarda-roupa do Gabriel, peguei uma toalha branca e estendi para ela sem levantar demais os olhos. Ela pegou. Nossos dedos quase se tocaram. Eu saí do quarto. Desci as escadas com o coração batendo no pescoço. Na cozinha, eu apoiei as mãos na bancada de granito e respirei fundo. Eu estava suando. Suando como se tivesse corrido quilômetros. Eu passei a mão pelo rosto. Que p0rra foi isso. Eu tinha atravessado um oceano por Estela. Tinha invadido um casamento. Tinha me casado com outra mulher. E agora estava na cozinha da casa do Gabriel tentando entender por que meu corpo reagia daquele jeito ao simples fato de ver minha esposa de lingerie. Minha esposa. Eu respirei fundo outra vez. Foco. Eu abri a geladeira. Se eu não organizasse a cabeça, eu ia enlouquecer. Cozinhar sempre me acalmou. Eu peguei alho, cebola, tomate. Encontrei arroz, feijão já cozido. Carne. Eu comecei a cortar os ingredientes devagar. O som da faca na tábua trouxe uma normalidade que eu precisava. Eu morei sozinho desde os dezesseis. Perdi meus pais cedo demais. Um acidente. Uma ligação no meio da noite que mudou tudo. Eu tive que parar de estudar para trabalhar na oficina do meu tio. Depois a oficina virou minha. Mas eu não parei totalmente. Fiz cursos online. Estudei nas madrugadas. Nas folgas. Do jeito que dava. Eu aprendi a me virar. Eu aprendi a cozinhar porque ninguém ia fazer por mim. A panela começou a chiar. O cheiro de alho refogado subiu pela cozinha. Algum tempo depois, eu ouvi passos na escada. Eu olhei. Ela descia devagar. Sem maquiagem. Cabelos molhados, mas não pingando. A camisa preta ficava larga nela. As pernas à mostra. Eu quase esqueci de respirar. Ela se aproximou da bancada. — Cheiro bom. Eu sorri de lado. — Eu moro sozinho há muito tempo. Se eu não aprendesse a cozinhar, morria de fome. Ela inclinou levemente a cabeça. — Você mora sozinho desde quando? — Dezesseis. Perdi meus pais cedo. Parei de estudar para trabalhar. Mas continuei depois. Online. Quando dava. Ela se sentou no balcão. Eu tentei não olhar para as pernas dela. Tentei. Fracassei. Desviei rápido. Ela percebeu. Claro que percebeu. — Vida difícil amadurece, ela disse com calma. Homens que crescem na dificuldade costumam ser mais estáveis. Menos ambiciosos. Mais pé no chão. Eu mexi a panela. — Conheceu muitos homens assim? Ela sorriu. Um sorriso pequeno. Raro. — Não. Homens como você… são raros. A frase me pegou desprevenido. Eu senti o impacto no peito. Não era elogio comum. Vindo dela, soava diferente. Eu mudei de assunto. — O que você quer comer? Vou fazer uma comida à la brasileira. Ela apoiou o queixo na mão. — Conheço o Brasil. Eu olhei surpreso. — Conhece? — Já estive lá algumas vezes. Falo português. Ela pronunciou a frase com leve sotaque. — Não com perfeição, ela completou. Mas o suficiente. — Você fala quantos idiomas? Ela deu de ombros. — Italiano. Russo. Francês. Inglês. Português. Um pouco de espanhol. Eu balancei a cabeça. — E você finge que não fala? Ela assentiu. — É útil. Quando as pessoas acham que você não entende, elas mostram quem realmente são. Descubro quem está comigo. Quem está tramando enquanto negocia. Eu parei por um segundo, olhando para ela. Inteligente. Fria quando precisava. Estratégica até na respiração. — Você é assustadora às vezes. Ela sorriu de novo. — Só às vezes? Eu ri baixo. O clima ficou mais leve. Estranhamente leve. Eu abri uma garrafa de vinho que encontrei no armário. Servi uma taça para ela. Outra para mim. Eu levantei a minha. — À nossa convivência. Que possamos nos conhecer melhor. Ela ergueu a dela. — Ao nosso casamento. Eu fiquei um segundo surpreso. Depois toquei a taça na dela. — Ao nosso casamento. Nós bebemos. Sentamos para jantar. Ela comeu com naturalidade, sem frescura, sem teatro. Perguntou sobre os temperos. Sobre o feijão. Sobre como eu tinha aprendido. A conversa fluiu. Eu contei da oficina. Dos clientes. Das noites estudando cansado demais para continuar, mas continuando mesmo assim. Ela ouviu de verdade. E, de vez em quando, sorria. Eu percebi uma coisa enquanto ela falava sobre viagens, negócios, línguas e acordos. Ela era diferente. Rainha da máfia. Homens se ajoelhando. Armas. Ordens. Mas ali, sentada à minha frente, sem maquiagem, com a minha camisa, segurando uma taça de vinho, ela parecia… humana. — Você é diferente, eu disse sem pensar. Ela ergueu os olhos. — Diferente como? Eu dei de ombros. — Rainha da máfia. Homens te respeitam de joelhos. Você quase não sorri. Mas quando sorri… Eu parei. Ela esperou. — Quando sorri, você fica linda. O silêncio que veio não foi desconfortável. Ela sustentou meu olhar por alguns segundos. Não havia deboche. Nem frieza. Só uma curiosidade silenciosa. A primeira noite de casado não teve toque. Não teve pressa. Não teve promessa. Teve vinho. Comida. Conversa. E a estranha sensação de que, sob aquele teto que não era nosso, algo estava começando a nascer. Não amor. Mas respeito. E talvez isso fosse mais perigoso.
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