Sob vários aspectos que pude constar, a favela apresenta expressões sociais que, apesar de informais ou ainda não legitimadas pelas instituições estatais, estão cada vez mais afinadas com a vanguarda do pensamento social e econômico contemporâneo. Ou seja, de muitas maneiras, sem mesmo ter consciência do seu estilo de vida calcado nas “sustentabilidades” — social, econômica, ambiental etc — os moradores da favela já ultrapassaram e superaram dilemas da própria sociedade.
Assim, em determinado momento, passei a perceber a favela não mais como “problema social”, mas como um tipo de produção de localidade que possui um “enraizamento” sociocultural próprio. Não são, portanto, espaços e populações que precisam ser beneficiadas por regimes de ordenamento ou mesmo “pacificadas”, “civilizadas”, mas, antes de tudo, compreendidas em suas capacidades transformadoras e regeneradoras do próprio tecido social urbano em contextos metropolitanos de países como o Brasil, China, Índia e, sobretudo, países africanos.
Essa mudança de perspectiva não ocorreu naturalmente, mas resultou de um regime de proximidade “situado”, isto é, fundado na hospitalidade e no meu acolhimento como “moradora da favela” em diferentes ocasiões nas quais me “submeti” aos códigos locais, só ai pude exercer a empatia, sentir como sentem, tomar como próprio o que os interlocutores vivem. Para esta mudança de perspectiva, concorreram inúmeras pessoas de lá (moradores), e do lado de cá (professores, autores e amigos).
Percebi, ao longo do trabalho de campo, que os conflitos estão sempre presentes. Uma manifestação disso é encontrada na relutância das pessoas em aceitar compromissos que vão contra suas lógicas (de acesso e consumo de bens e serviços) estabelecidas, como o receio da chegada dos serviços das concessionárias de energia elétrica e a problemática suspensão da “gatonet” (a TV a cabo clandestina).
Em março de 2013, quando houve a ocupação pelas Unidades de Polícia Pacificadora (UPP) na Barreira do Vasco, percebi que estava diante de um “drama social”, na medida em que a UPP era organizada, estruturada, exclusivamente a partir de elementos externos à favela. A atuação do Estado era pautada por uma lógica ética que parecia não (querer) compreender ou dialogar com as socialidades consolidadas localmente.
Essa organização é concebida com base em lógicas e valores próprios que, na maioria das vezes, se opõem às perspectivas e anseios “oficiais” propostos pelo Estado. No meu trabalho, busco apresentar e enfatizar como os moradores construíram formas de regulação e organização, que por vezes competem ou são prejudicados pelos imperativos oficiais no âmbito governamental.
No meu entendimento, essa perspectiva tem um problema, pois marca a favela como um não-lugar, como o espaço do transitório e, portanto, aquilo que em última instância faculta as incursões do Estado, não para consolidar esse espaço, mas para tentar eliminá-lo.
Do ponto de vista dos moradores das favelas, é fato que tudo começa como provisório e irregular, com um jeito ou arranjo, mas que paulatinamente vai se “consolidando”, tornando aquilo que antes era uma solução “temporária” em algo permanente e até “institucionalizado”. Do mesmo modo, as novas “necessidades” são englobadas pelas formas “tradicionais” de acesso aos bens e serviços, fazendo com que novas “irregularidades” se apresentem na obtenção de novos serviços, como a TV a cabo e a internet banda larga.
Por outro lado, em tempos recentes a imagem da favela “turística”, localizada em áreas nobres, tem sido transformada. A criatividade de seus moradores – desde as construções de suas casas em lógicas que deixam arquitetos e engenheiros perplexos, assim como as formas de transporte (moto-táxi) e os arranjos técnicos desenvolvidos para acesso à energia elétrica e à água potável, bem como a contratação de serviços de TV a cabo e internet – a meu ver, os afastou dos estigmas ligados à “carência de recursos” ou à “criminalidade”.
problemas são resolvidos de forma eficiente e criativa.
Os moradores de favela assim apresentados, embora ainda sofram com tais estigmas, se revelam como cidadãos que engendram dispositivos técnicos e sociais para superar as falhas que marcam a distribuição e o fornecimento, em suas casas e vizinhanças, dos chamados “serviços essenciais”.
Exemplo deste “novo olhar” para os moradores de favelas e seu contexto de vida foi evidenciado pela antropóloga Bianca Freire-Medeiros ao estudar o turismo na favela. Ela apontou que “a força da marca ‘favela’ tornou-se capaz de transcender o referencial territorial, promovendo tanto o que é brasileiro quanto o que pretende ser ‘alternativo’, ‘descolado’ e ‘reciclado’”.
Creio que esta é a questão fundamental de meu trabalho, minha principal contribuição para o entendimento desse espaço e para definição e constituição do modo de vida que pude observar na Barreira do Vasco. A partir dessa noção de “economias de compartilhamento”, abordei as diversas formas de uso compartilhado daquilo que em outros contextos é particularizado e individualmente apropriado e utilizado.
Significa abordar os bens a partir de uma hierarquia estabelecida sob critérios de circulação e compartilhamento próprios, buscando entender o que leva um bem ou serviço a ser “necessidade”, o que torna desejável “a propriedade” de um bem e o que faz com que outros sejam passíveis de empréstimos ou compartilhamento. Há, ainda, coisas compartilhadas com o objetivo de obtenção de lucro financeiro; outras fogem a essa lógica e são simplesmente compartilhadas. Percebi que esses tipos de compartilhamento caracterizam e geram pertencimentos ao lugar e a redes sociais.
No caso da Barreira do Vasco, as pessoas concebem e organizam o compartilhamento de energia elétrica e outros serviços quando, por exemplo, várias famílias partilham o mesmo medidor (ou mesma gambiarra) através de ligações “clandestinas”. A partir dos relatos, apresento as questões que caracterizam esse “compartilhamento”, discutindo desde as elaborações técnicas desses artefatos até a ética e as regras de uso, isto é, como os proprietários ou “guardadores” dos medidores e das ligações regulares repartem a energia elétrica emprestando seu medidor aos demais.
Outra prática observada é a rede de empréstimos, tanto para bens duráveis como aparelhos domésticos (batedeira, chapinha de alisamento de cabelo, liquidificador, gaveta de freezer, panelas de grande capacidade, máquina de lavar roupa, varais, roupas e acessórios para ocasiões especiais), quanto medicamentos ou alimentos em horas de emergência (emprestar um ovo, um copo de açúcar, arroz etc).