Luca
A água estava quente demais.
Mas Luca não se afastou.
Ficou ali, parado, com as mãos apoiadas na parede do box, a cabeça baixa, deixando a água cair sobre a nuca, escorrer pelas costas, como se o corpo estivesse presente e o resto dele tivesse ficado preso em outro lugar — alguns segundos atrás, em um instante que não conseguia desfazer.
A testa encostada no azulejo.
Os olhos fechados.
A respiração irregular.
Não conseguia parar de pensar.
Não conseguia desligar.
Não conseguia… esquecer.
O beijo.
A lembrança veio inteira, sem fragmentos, sem distorções — nítida demais.
O momento exato.
O silêncio antes.
O jeito como ela ficou imóvel por um segundo.
O olhar dela.
E então… o momento.
O instante em que ele se aproximou.
Ele fechou os olhos com força.
A respiração falhou por um instante.
Não tinha sido planejado.
Não tinha sido calculado.
Tinha sido… inevitável.
E era isso que mais o assustava.
Ele sempre teve controle.
Sempre soube quando parar, quando avançar, quando brincar, quando sair.
Mas com Cacau…
Foi outra coisa.
Mais lenta.
Mais pesada.
Mais… inevitável.
Não havia roteiro.
Ele puxou o ar com mais força, como se o corpo reagisse à lembrança antes mesmo que ele autorizasse.
O contato não tinha sido invasivo.
E isso o desconcertava.
Porque tudo que ele já tinha feito na vida vinha de um lugar mais leve, mais superficial, mais… fácil.
Mas aquilo não.
Aquilo teve peso.
Teve hesitação.
Teve cuidado.
Ele abriu os olhos.
A água escorria agora mais fria pelas costas, mas o corpo ainda carregava uma sensação residual — não de desejo imediato, mas de presença.
Como se algo ainda estivesse ali.
Como se aquele segundo não tivesse acabado completamente.
Ele passou a mão pelo rosto devagar.
E então lembrou de um detalhe que não o deixava em paz.
Ela não recuou.
O pensamento veio de novo.
Mais claro.
Mais direto.
Ela não recuou.
Ele fechou os olhos outra vez, mas não para fugir.
Para sentir melhor.
Para tentar entender.
Não foi reciprocidade declarada.
Mas também não foi rejeição.
Foi… algo.
Um instante mínimo em que ela ficou.
E esse instante agora ocupava mais espaço dentro dele do que qualquer coisa.
Mais do que o beijo em si.
Mais do que o erro.
Mais do que a consequência.
Porque aquele segundo carregava uma possibilidade.
E possibilidade, para Luca, sempre foi mais perigosa do que perda.
Ele soltou o ar lentamente.
Encostou as duas mãos na parede.
E percebeu outra coisa.
Ele não tinha pensado em mais ninguém.
Nem antes.
Nem durante.
Nem depois.
Não houve comparação.
Não houve repetição de padrão.
Não houve aquele distanciamento automático que sempre o protegia.
Houve… presença. Desejo.
E isso o expôs de um jeito que ele não sabia lidar.
Ele abriu os olhos.
Desligou o chuveiro.
O silêncio do banheiro pareceu alto demais depois da água.
Passou a toalha no rosto, devagar.
Olhou para o próprio reflexo no espelho embaçado.
Não reconheceu o homem que estava ali.
Não completamente.
Porque aquele homem… tinha cruzado um limite.
E não tinha certeza se podia voltar.
Ele apoiou as mãos na pia.
Você estragou tudo.
O pensamento veio automático.
Mas, pela primeira vez… não parecia completamente verdadeiro.
Porque junto com o erro… veio outra coisa.
Algo mais perigoso.
Mais profundo.
Mais difícil de negar.
Ele passou a mão pelos cabelos úmidos, puxando para trás.
E então pensou nela.
No jeito como ela ficou depois.
Silenciosa.
Contida.
Como sempre.
Mas diferente.
Ele tinha visto.
Um detalhe.
Um descompasso na respiração.
Um olhar que não era só controle.
E aquilo… aquilo o destruiu de uma forma nova.
Ele caminhou até o quarto, pegou a camiseta no encosto da cadeira e vestiu sem pressa.
O corpo ainda pesado.
A mente mais ainda.
Sentou na cama.
Os cotovelos apoiados nos joelhos.
As mãos entrelaçadas.
E ficou ali.
Repetindo.
Revendo.
Revivendo.
O momento.
O toque.
O silêncio.
O depois.
E, pela primeira vez desde que tudo começou…
Luca não pensou em como consertar.
Pensou em outra coisa.
E se não houver conserto?
E se aquilo fosse exatamente o tipo de erro que não se desfaz?
E se aquele beijo tivesse complicado tudo de forma irreversível?
Ele fechou os olhos novamente.
A respiração mais lenta agora.
Mais pesada.
E deixou escapar um pensamento que não queria admitir:
Eu não me arrependo.
E isso… isso foi o que mais o assustou.
Cacau
Cacau não lembrava de ter adormecido.
Só lembrava de ter fechado os olhos.
E, ainda assim, quando acordou, a sensação era de que não tinha descansado.
O quarto estava silencioso.
A luz da manhã entrando pelas frestas da cortina.
E, antes mesmo de qualquer pensamento consciente… veio a lembrança.
Não inteira.
Não de uma vez.
Mas suficiente.
Ela ficou imóvel.
Deitada.
Os olhos abertos.
Respirando devagar.
Como se qualquer movimento pudesse tornar aquilo mais real do que já era.
O beijo.
Ela virou o rosto para o lado, encarando o vazio do quarto.
E tentou racionalizar.
Foi um erro.
Mas a frase não sustentou.
Porque não correspondia à sensação.
Erro pressupunha impulso descontrolado.
Aquilo não foi descontrolado.
Foi… sentido.
Ela se sentou devagar.
Os pés tocaram o chão frio.
E ela agradeceu por isso.
Pelo concreto.
Pelo físico.
Por algo que a puxasse de volta para o controle.
Caminhou até o banheiro.
Acendeu a luz.
E encarou o reflexo.
A mesma expressão.
A mesma postura.
A mesma mulher.
Mas não completamente.
Porque havia algo diferente no olhar.
Algo mais atento.
Mais alerta.
Como se uma parte dela estivesse agora… exposta.
Ela apoiou as mãos na pia.
Respirou fundo.
Uma vez.
Duas.
Três.
E então tentou organizar.
O momento.
O antes.
O depois.
O instante em que ele se aproximou.
Ela percebeu.
Claro que percebeu.
Ela sempre percebia.
E ainda assim… não recuou.
A lembrança desse detalhe fez o peito apertar.
Ela fechou os olhos.
E dessa vez não evitou.
Deixou vir.
O silêncio entre eles.
A respiração dele próxima.
O olhar — diferente.
Sem ironia.
Sem jogo.
Sem aquela leveza que sempre a irritava e, ao mesmo tempo, a fazia relaxar.
Aquele Luca… não era o que ela conhecia.
E talvez tenha sido por isso.
Por um segundo… ela quis ver quem ele era sem a máscara.
Ela abriu os olhos de repente.
Como se tivesse ido longe demais.
Pegou a escova de dentes.
Movimentos precisos.
Controlados.
Mas a mente não parava.
Quando terminou, pegou a toalha e secou o rosto com mais força do que o necessário.
Como se pudesse apagar algo.
Não conseguiu.
Diante do espelho, começou a se arrumar.
Cada etapa um retorno ao controle.
Cada gesto uma reconstrução.
Base.
Corretivo.
Pó.
Respiração estável.
Olhar firme.
Tudo no lugar.
Até que pegou o batom.
E parou.
O gesto suspenso.
O tempo desacelerado.
E, sem aviso… a memória voltou inteira.
O toque.
O calor.
O cuidado.
O detalhe que ela não esperava.
Ele não forçou.
Não avançou.
Não invadiu.
Ele… esperou.
E isso foi o que a fez ficar.
Por um segundo.
Um único segundo.
Mas suficiente para mudar tudo.
Ela olhou para si mesma no espelho.
Direto.
Sem fuga.
E reconheceu.
Eu quis.
A verdade não tinha espaço para negociação.
E era isso que tornava tudo mais perigoso.
Porque não era só erro dele.
Era escolha dela também.
Ela fechou os olhos.
A mão firme segurando o batom.
E então decidiu.
Com a mesma frieza que usava para decisões difíceis.
Isso não pode acontecer de novo.
Abriu os olhos.
Terminou de se arrumar.
Impecável.
Intocável.
Intacta por fora.
Mas, por dentro… sabendo que não estava mais no controle completo.
E que, pela primeira vez em muito tempo… isso a assustava.