capítulo 02

2242 Words
Desperto do meu sono pesado e me arrependo logo em seguida. A luz forte que entra pela janela me faz fechar os olhos com força, eles são mais sensíveis do que gostaria de admitir. Quando me acostumo com a claridade, olho ao redor e gemo, enfiando novamente o rosto no travesseiro. m***a. Acho dormi demais! JÁ É MANHÃ! Isso significa que eu fiquei dormindo por mais que doze horas. Maldito sono de leão. Noto que estou com frio, muito frio na verdade, já que não trouxe cobertor para o quarto, mas pelo menos ainda estou vestido. Levanto da cama e me espreguiço, alongando a cauda e esticando os braços. Caminho para fora do quarto em passos largos, enquanto esfrego meus braços um no outro, tentando me esquentar. Não estou com cabeça para magia essa hora da manhã. Desço as escadas e vou até minha mochila que está jogada no sofá, como deixei ontem. Tiro uma escova dental, uma pasta de dentes e depois vou em direção ao banheiro. (***) Encaro o meu reflexo no espelho sobre a pia enquanto escovo meus dentes. Será que os outros alunos vão gostar de mim? Será que vou fazer algum amigo? Estou mais preocupado com isso do que gostaria. Sempre disse e fiz os outros pensarem que eu não ligava para o que diziam e pensavam de mim, mas na verdade eu me sinto um pouco solitário as vezes. Antes, na minha antiga cidade, era apenas eu e meu pai. Nos éramos, e ainda somos, uma dupla e tanto. Meu pai sempre foi meu herói, ele é atencioso e carinhoso, além de ser super protetor. Lembro-me de quando eu andei de bicicleta pela primeira vez. Essa provavelmente é a lembrança mais antiga que tenho. “ – não precisa se preocupar filho, eu sempre estarei com você— assegura meu pai, mas isso não retira o grande frio que sinto na barriga. — o-ok— digo enquanto coloco os pés nos pequenos pedais da bicicleta verde, que agora está sem rodinhas. — levante sua cauda Thomas, você não quer que ela enrole no pneu da bicicleta, né?— faço que não com a cabeça, levantando a cauda como pedido- pronto? —s-sim— dito isso, ele começa a me empurrar, e eu começo à pedalar. O vento sopra meus cabelos brancos, como se aprovasse minha tentativa de aprender andar de bicicleta sem rodinhas. Olho para trás e noto que meu pai já não está mais me segurando, ele está parado à alguns metros, enquanto eu me afasto mais e mais. Orgulho brilha nos seus olhos, enquanto sorri de orelha à orelha...” Também sorrio para meu reflexo, exibindo minhas presas um pouco longas, agora azuis por causa da pasta dental. Esse foi um dos dias mais felizes da minha vida. Sim, eu quase quebrei o braço por causa do tombo que levei poucos metros a frente, mas isso não me fez esquecer a expressão no rosto do meu pai. Termino de escovar os dentes e vou para a cozinha morrendo de fome, outra característica da minha parte híbrida. Quem olha para mim não tem ideia que o garoto branquelo de 1.65 pode comer tanto. Abro a geladeira que não tem nada para comer, só água. Você se mudou ontem i****a, ainda não fez compras. Me repreendo mentalmente, fazendo uma nota mental para comprar muita comida depois. Suspirando, vou até minha mochila, onde tenho quase certeza que deixei algumas barras de cereal e chocolate. Abro o zíper da bolsa e gemo em protesto, não há nada para comer ali. Devo ter comido tudo ontem. Pego minha carteira que estava dentro da mochila e retiro alguns notas de dinheiro. Agora preciso achar algum mercado por aí. (***) Ando pelas ruas asfaltadas observando tudo. As casas ficam uns bons cem metros distantes uma das outras. Na minha rua há outras 5 casas idênticas à minha. Já em outra rua onde as casas são maiores e mais chiques, observo uma garota como cabelo verde fazer pequenas flores crescerem em seu jardim. Provavelmente é aqui que mora os filhos dos governantes e da elite do nosso mundo. Eles são “abençoados” como dizem as antigas lendas, com dons. Mas eles não são os únicos, meu pai costumava me dizer que sou uma bênção, um garoto que não faz parte da elite e possuí não apenas um, mas vários dons, acho que só dei sorte mesmo. Caminho por mais alguns minutos, maravilhado com cada híbrido que surge no meu caminho. Nunca tinha visto tantos juntos, na minha antiga cidade eram poucos, e quase nenhum era adolescente como eu, por isso fazer amizade não era fácil. Noto uma grande placa na frente de um prédio de três andares, com vitrines que exibem diversos produtos. “Mercady” está escrito em enormes letras azuis acima da porta. Não sei porque costumam colocar a letra “Y” em quase todo nome. Por que não colocar “Mercado”?! Ignoro essas questões insignificantes e entro no prédio. O ar frio me envolve assim que atravesso as enormes portas duplas de vidro olho em volta e vejo diversas prateleiras, onde se encontra todo tipo de coisa. — ahn... Bom dia— fala alguém. Olho em direção a voz e dou de cara com garoto loiro, que aparenta ser um pouco mais velho que eu. — oi. Bom dia— digo sem jeito. Ele vem até mim e estende a mão. Estendo a minha e cumprimento-o. — o que procuras? – pergunta com um sotaque meio pesado. — ahn... Comida. Gostaria de alguns cereais, carnes...— falo uma lista imensa. — que exército você quer alimentar?- murmura ele, sorrindo enquanto suas orelhas longas e cinzentas mexem-se freneticamente. — ahn... É para mim— digo meio sem jeito, morrendo de vergonha de sua piada. — tô brincando, relaxa aí— ele explica, ainda exibindo um sorriso gentil. — você é híbrido de algum felino né?— ele continua. afs, porque ninguém consegue identificar que eu sou um hibrido de leão?! É só reparar nas orelhas! Mas talvez seja porque estou escondendo a cauda. — sim, de leão— respondo. — aaah. Você é albino né?— mas que povo curioso! Levanto uma sobrancelha e cruzo os braços, como se dissesse “não é óbvio?”. — desculpa pelo interrogatório, é que não é todo dia que recebemos novos alunos aqui. Prazer em conhece-lo, eu sou o Ruy, híbrido de coelho.— indaga sem retirar o sorriso simpático do rosto. Sorrio de volta. — o prazer é meu, Ruy. — espero que possamos ser amigos, eu provavelmente vou estudar com você. — claro! — agora vamos pegar as suas compras. Siga-me — diz dando meia volta e andando entre as prateleiras. (***) — e que tipo de cereal você quer? — desse, desse, desse e desse— falo apontando para as caixas azuis, verdes e amarelas. — nossa, você come bastante ein? — sim — levantando o rosto para encarar seus olhos castanhos. Ele é um pouco mais alto que eu, me fazendo ter que olhar para cima para poder ver seu rosto. O cabelo de Ruy é encaracolado, criando um emaranhado ao redor das orelhas. Fofo. É a primeira palavra que vem a mente quando olho para ele. — você tem algum dom?— pergunto, tentando puxar conversa. — não, mas eu tenho um olfato muito apurado. Graças a minhas características de coelho. E você? — não. — falo e abaixo a vista, procurando não encara-lo para não mostrar a mentira evidente. — sem problemas. A grande maioria dos jovens que vem para cá não tem dons, e os que tem são um tanto... Inúteis. Fala sério, quem precisa de um dom para ser mais popular? Ninguém. Mas tudo naquela escola é dividido por classes, desde dons à raridade do animal que derivados. — verdade. — mas enfim, aqui está suas coisas.— ele diz ao pôr as caixas de cereal na cesta. — obrigado. — foi um prazer conhece-lo, quer que eu te ajude à levar para sua casa? Você provavelmente não vai conseguir levar tudo. — c-claro. – levamos as coisas até o caixa. Depois que eu pago tudo, a comida é colocada em várias sacolas. Ele pega metade e eu o resto, então saímos da loja. — você mora aqui à quanto tempo? — a minha vida toda, meu pai é dono da loja.— responde. — aaah. — mas e você, o que estás achando daqui? — é legal, mas tô com saudade do meu pai. — ele é albino também? Desculpa, eu sou muito curioso — fala mexendo suas orelhas peludas. — não, sou só eu. — e sua mãe? — ela morreu quando eu nasci. — aah, sinto muito.— lamenta. Depois de mais ou menos meia hora, chegamos em minha casa. Ruy é super legal, um tanto tagarela, mas é o amigo que procuro. Ele me contou várias coisas da Hybrid academy, me explicou algumas regras e me deu alguns avisos. Esse garoto parece saber de tudo! — é aqui que você mora? — sim. — legal. Deve ser ótimo morar sozinho.- assinto, mesmo sem ter certeza disso. — quer ajuda para desempacotar essas caixas? — ele aponta para as várias caixas de papelão dispostas por toda minha sala. — claro! — digo, embora eu não precisasse de ajuda, já que estava planejando usar magia para colocar tudo no lugar. — por onde começamos? — vamos colocar a comida na cozinha primeiro. Nos dirigimos para a cozinha onde colocamos todos os cereais no armário da parede e as carnes e frutas na geladeira. E então começamos a desempacotar tudo. (***) — obrigado — murmuro quando terminamos tudo. — quando precisar, é só chamar okay?. — okay. Que beber alguma coisa?— lhe ofereço. — não, obrigado. Tenho que voltar para a loja. — aah. Te vejo na escola? — claro! Vou te esperar lá na entrada, não se atrase. É só seguir por aquela rua direto, sem dobrar nenhuma esquina.— fala já saindo de casa e apontando para a estrada. — certo. Obrigado mais uma vez. — ele assente e me dá um sorriso simpático, antes de se virar e andar pela rua. Nossa Thomas! Um amigo em dois dias, até que não está sendo tão r**m. (***) No dia seguinte. Olho pra meu relógio de pulso, já são 11:00 horas, falta pouco para meu primeiro dia de aula. Olho para as minhas roupas, tentando encontrar algumas que me agrade. Pego uma calça preta e uma camisa verde um pouco grande, para esconder qualquer indício da minha cauda. Além uma cueca boxer, mais uma criação dos humanos que foi melhorada para acomodar minha cauda. Jogo as roupas na cama e volto para o primeiro andar, onde tomo um banho super rápido, por conta da maldita água fria. Merda! Agora estou morrendo de frio, poderia usar meus dons para esquentar água, mas levaria tempo, coisa que eu não tenho no momento. Subo novamente para o segundo andar de minha casa, onde visto minha roupa e calço um tênis qualquer. Depois de disso, saio de casa apressado, caminhando com passos longos e rápidos de um felino. Chego à escola 10 minutos depois. A estrutura é enorme, com três andares e janelas grandes de vidro, de modo que seja possivel ver alguns alunos rindo e conversando do lado de dentro. — vamos, estamos atrasados.— me espanto com a voz, e viro-me para achar seu dono. É Ruy, ele está encostado em uma árvore. — oi, desculpa. Acho que calculei errado a distância entre minha casa e a escola. — tudo bem. Agora vamos, tenho que te mostrar a escola. — ok. (***) É tudo deslumbrante! Os corredores coloridos dão vida ao lugar. As portas feitas de uma madeira escura que não sei identificar dão um ar de seriedade ao espaço, contrastando com as cores das paredes e armários. — esse é seu armário — Ruy fala quando chegamos ao armário azul, entre um roxo e um verde. — ahn... Como se abre isso?— pergunto meio sem jeito, não querendo parecer um caipira que veio da roça (que na verdade é exatamente o que sou) — é só colocar seu polegar aqui— Ruy aponta para o pequeno painel na porta – assim só você consegue abri-lo. — aaah. Legal — digo colocando meu dedo no pequeno quadrado de vidro, que faz com que o armário destranque instantaneamente. Pergunto-me onde raios eles conseguiram minhas digitais... — aí estão todos os seus livros e o uniforme para a aula de educação física . – ele aponta para o monte de roupas vermelhas, cuidadosamente dobradas e colocadas na prateleira de baixo. — pegue o livro de ciências, essa é nossa primeira aula. — pensava que no primeiro dia o diretor iria fazer um discurso e tal... — digo sorrindo. — eu também pensava assim. Mas quem manda nessa escola não é o diretor e sim um grupo de tapados que acha, ACHA que é dono de tudo só porque tem poderes, então os professores acharam melhor não ficar enrolando para começar um novo período. Nunca mexa com eles Thomas, não são conhecidos por pegar leve. — termina em tom de aviso. — ok Ruy, eu estou aqui para estudar e nada mais. — bom... Agora vamos.— pego o livro grosso e pesado da minha prateleira e o sigo até a sala.
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