Rose Moreau
O véu preto sobre o meu rosto cobre perfeitamente as lágrimas que escorrem dos meus olhos. E a chuva ainda ajuda.
Eu encaro o chão fixamente, sem muita coragem de olhar ao redor, e seguro firme o meu lenço branco com um bordado elaborado. O brasão da Elite. Cores como vermelho e dourado destacam-se em cada borda e mostram de cara o poder da Cúpula que muitos achavam que tinha sido eliminada.
Mas só foi modificada e silenciada.
E silêncio não quer dizer inexistência, apenas que age de forma mais sutil.
O dia hoje é para marcar uma perda imensa do sangue da minha família. Minha irmã Dayse está sendo trazida para ser enterrada e eu ainda não consigo acreditar que isso está mesmo acontecendo. Não deveria. Ela ainda era tão nova e iria ter o seu primeiro bebê. Era para ser um momento feliz.
Como aquilo se tornou… isso?
Quando crio coragem para olhar ao redor, vejo rostos bem parecidos. Todos sérios. Todos silenciosos. A chuva cai sobre os guarda-chuvas negr0s formando um som constante, quase hipnótico, como se o céu estivesse insistindo em participar daquele luto.
De repente, um guarda-chuva é colocado sobre a minha cabeça.
Foi o meu pai.
Ele se mantém firme, mas os olhos mostram bem a dor que sente. E aqui, protegida do peso da chuva, percebo que as gotas parecem ainda mais fortes ao redor, batendo no tecido escuro acima de nós.
Minha mãe está ao lado dele, chorando sem disfarçar. Os ombros tremem, os dedos apertam o tecido do próprio vestido preto enquanto ela abraça o próprio corpo como se estivesse tentando se manter inteira.
Mas quando ela me vê, diferente do choro dela, recebo um olhar de sermão intenso.
Viro-me na mesma hora.
— Sua irmã vai fazer falta… — Meu pai diz, com a voz baixa, pesada.
As palavras parecem cair no chão molhado entre nós.
Eu engulo em seco.
— Vai, sim... muita.
Minha voz sai quase inaudível.
O vento sopra e faz o véu encostar no meu rosto. A umidade fria da chuva atravessa o tecido fino e arrepia minha pele.
À frente, o caixão começa a se aproximar.
Escuro. Brilhante. Pesado.
Os homens que o carregam caminham devagar, com passos medidos, enquanto todos ao redor se mantêm em silêncio absoluto. Não há música. Não há discursos.
Dentro da Cúpula, funerais são assim.
Discretos.
Controlados.
Como se até a m0rte precisasse obedecer às regras.
Meus olhos seguem o caixão e um aperto cresce dentro do meu coração. Dayse sempre foi tudo aquilo que eu não sou.
Alta.
Linda.
Elegante.
Ela sabia exatamente como sorrir nas ocasiões certas. Sabia como falar com as pessoas certas. Sabia como andar em um salão cheio de gente importante como se tivesse nascido para aquilo. E talvez tivesse mesmo.
Ela era a filha perfeita.
A filha favorita.
Eu fecho os olhos por um instante.
Uma lembrança surge sem que eu consiga impedir.
Dayse sentada na beirada da minha cama alguns meses atrás, segurando um pequeno sapatinho de bebê nas mãos.
— Olha isso, Rosie… — Ela disse, rindo baixo. — É tão pequeno que dá medo.
Eu lembro do brilho nos olhos dela.
Do jeito que colocou minha mão sobre a barriga ainda discreta.
— Você vai ser tia.
Eu lembro de ter rido.
Lembro de ter abraçado ela e lembro de ter pensado que aquela era a coisa mais feliz que já tinha acontecido dentro daquela casa.
Agora ela está dentro daquele caixão. E o bebê também.
A realidade volta com força quando os homens param diante da cova aberta. A terra ao redor está escura, encharcada pela chuva. O buraco parece ainda mais profundo por causa da lama acumulada nas bordas.
Eu sinto minhas mãos tremerem.
Não deveria ser assim. Não deveria.
Os cordões são posicionados sob o caixão e então começa a descida.
Devagar.
Muito devagar.
O rangido da madeira contra as cordas ecoa no silêncio do cemitério. Eu não consigo respirar direito. As lágrimas voltam com mais força agora.
Minha irmã desaparece centímetro por centímetro dentro da terra.
Eu aperto o lenço com tanta força que meus dedos doem.
— Dayse… — O nome sai em um sussurro quebrado.
Quando o caixão finalmente toca o fundo, algo dentro de mim se rompe. Eu começo a chorar mais forte. As pessoas ao redor permanecem imóveis, como estátuas vestidas de preto.
Então meus olhos se movem e param nele.
Dominik Copello.
O marido da minha irmã.
Ele está um pouco afastado, mas é impossível não notá-lo. Alto. Postura impecável. As mãos estão atrás das costas, entrelaçadas com calma, como se estivesse em uma reunião formal e não no enterro da própria esposa.
A cabeça erguida.
O rosto completamente sério.
Nenhuma lágrima.
Nenhuma expressão.
Nada.
Apenas silêncio.
Ao lado dele está Olga Copello. A mãe dele. Elegante como sempre. Impecável. O guarda-chuva perfeitamente posicionado. O rosto frio, quase indiferente. Ela observa tudo com os olhos atentos de quem analisa cada detalhe.
Por algum motivo, um arrepio percorre minha coluna. Eu desvio o olhar rapidamente.
Os primeiros punhados de terra começam a cair sobre o caixão. O som é o pior de todos. Oco. Como se cada impacto confirmasse aquilo que minha mente ainda se recusa a aceitar.
Dayse não vai voltar.
Nunca mais.
Eu fecho os olhos novamente e é então que sinto meu pai se aproximar mais.
Muito mais.
O hálito dele encosta perto da minha orelha quando ele fala.
— Prepare-se, Rose.
Eu franzio a testa.
— Para quê?
Ele demora apenas um segundo antes de responder.
— Você conhece as regras... sabe o que vai acontecer agora.
Eu me viro para ele, confusa.
— N-não entendi.
O olhar dele encontra o meu por baixo do véu.
Frio.
Resoluto.
— Você vai se casar com Dominik Copello.
Por um instante, o mundo inteiro parece parar.
A chuva continua caindo, a terra continua sendo jogada sobre o caixão.
Mas tudo soa distante.
— O… quê?
Minha voz sai fraca.
— Não… — Eu balanço a cabeça lentamente. — Não. Isso não… isso não faz sentido.
Ele continua me encarando.
— Faz, sim.
— Pai… — Eu engulo em seco. — Eu tenho dezessete anos. Não tenho idade e...
Quando isso acontece, não há casamento.
Todo mundo sabe disso.
É uma das poucas regras que ainda protegem as mulheres da Cúpula. Casamentos antes dos dezoito simplesmente não acontecem.
Mas meu pai apenas suspira.
— Não desta vez, querida.
Meu coração começa a bater mais rápido.
Um pânico começa em mim e sinto as mãos gelarem.
— Não… — Eu murmuro.
Ele se inclina novamente.
— Em breve Dominik virá conversar conosco. Prepare-se para isso... e antes de pense nesse ponto, os seus dezoito não está longe, Rose. Não posso fazer nada!
Eu sinto como se alguém tivesse puxado o chão sob meus pés.
Casar.
Com ele.
Com o marido da minha irmã. Com o homem que acabou de enterrá-la. Isso é absurdo! É doentio.
É…
Eu nem consigo terminar o pensamento.
Eu só tenho dezessete anos e ele deve ter uns trinta, bem sei. Que loucura! Antes que eu possa dizer qualquer coisa, uma mão segura meu braço com força.
Minha mãe.
Os dedos dela apertam minha pele através do tecido do vestido.
— Controle-se. — Ela diz entre dentes.
Eu a encaro, confusa.
— Eu estou…
— Indiferença no enterro da sua irmã? — Ela interrompe, furiosa. — É isso que você acha adequado?
— Eu não fui indiferente... — Respondo, quase em um sussurro.
O aperto dela aumenta.
— Não foi o que pareceu. Se comporte como uma mulher.
A dor no meu braço começa a incomodar.
— Mãe…
— Isso não vai ficar assim.
Ela me solta abruptamente e se afasta alguns passos, indo atrás do meu pai.
Eu fico parada aqui, sozinha. A chuva volta a tocar meu véu e os meus olhos seguem os meus pais enquanto eles se afastam.
E então eu sussurro, quase sem perceber.
— É sempre assim…
Minha voz se perde no vento.
Eu olho para a cova mais uma vez e a terra já cobre quase metade do caixão. Dayse desaparecendo. Para sempre. Eu sinto um aperto enorme dentro de mim, porque eu sei de uma coisa agora: as coisas já eram difíceis antes, mas agora… agora vão ficar muito piores.
Principalmente porque minha mãe acabou de perder a filha preferida.
E eu sou a única que restou.