2 -- Entre ⚫Sombras e Lúmen🟡
O Promotor estava imóvel diante do vidro espelhado, sentindo novamente aquele aperto estranho no peito. Por mais que tentasse convencer-se do contrário, simplesmente não conseguia acreditar que aquele ser — frágil, delicado, sentado sozinho na sala fria de interrogatório — fosse realmente capaz de fazer o que o relatório afirmava.
E mais, capaz de fazer aquilo tudo sozinho, em apenas duas horas.
Ele apertou os lábios, frustrado.
— Tentem procurar antecedentes, qualquer registro… qualquer coisa — ordenou, embora soubesse que já tinham tentado.
O detetive respirou fundo, claramente exausto.
— Já procuramos em cinco bases de dados diferentes… e não encontramos nada. Nada mesmo — respondeu, mantendo os olhos fixos no Omega sentado na mesa, quase imóvel, como uma pintura.
O Promotor cerrou os punhos. Aquilo era impossível. Inaceitável.
— Eu vou falar com ele — decidiu de repente.
O detetive e o policial se entreolharam, assustados pela ousadia, mas antes que pudessem protestar, o Promotor já estava empurrando a porta e entrando na sala.
O ar ali dentro parecia mais frio, mais denso. E assim que a porta se fechou, o Omega levantou os olhos… e encarou-o.
O Promotor estremeceu.
Ele tinha que admitir para si mesmo — embora fosse humilhante — que aquele garoto era lindo. Não apenas bonito… era surreal. Uma joia rara, a mais perfeita que já vira.
Pena que aquela joia estivesse… amaldiçoada.
Com passos calculados, ele se aproximou e sentou-se à frente do Omega.
O garoto inclinou a cabeça, observando-o em silêncio. O olhar dele era tão profundo e angelical que por um instante o Promotor se sentiu puxado para um transe, como se tivesse esquecido onde estava.
Só despertou quando a porta voltou a abrir abruptamente e o policial e o detetive entraram.
— Ele realmente é perigoso? — perguntou o Promotor, embora a própria voz revelasse que tinha dúvidas profundas. Era difícil acreditar olhando para aquele rosto.
O Omega sorriu.
Um sorriso pequeno, inocente, quase infantil.
Os três ficaram enfeitiçados por um segundo.
Como uma criatura assim poderia ter destruído um prédio inteiro?
— Por quê? — perguntou o Promotor com um tom mais suave do que pretendia. — Por que fez aquilo?
O Omega franziu o cenho, sem entender. O Promotor olhou para os outros.
— Ele é surdo? — questionou.
— A gente não sabe. Já chamamos alguém que fala língua gestual — respondeu o policial, olhando o relógio.
Como se fosse ensaiado, batidas soaram na porta.
Um jovem Beta entrou apressado, quase tropeçando nos próprios pés.
— Bo… boa tarde. Eu sou o tradutor. Park Bogum — disse, fazendo uma reverência tímida.
— Entre, Park. Precisamos de você — disse o Detetive.
O Beta assentiu, respirou fundo, ajeitou a postura e virou-se para o Omega.
Seus olhos se arregalaram instantaneamente ao ver a beleza do jovem à sua frente. Ele quase se esqueceu de como respirar, mas recuperou o profissionalismo.
Tentou primeiro o inglês.
— Hello, do you understand me? — disse com clareza.
Nenhuma resposta.
Então mudou para língua gestual.
— ‘Agora consegues me compreender?’ — sinalizou.
O Omega ergueu as mãos e respondeu com um aceno firme.
— O que foi que lhe perguntaste? — perguntou o Promotor, ansioso.
— Perguntei se ele me compreendia. Ele disse que sim — respondeu Bogum.
O tradutor voltou a comunicar-se com o Omega em gestos rápidos e fluidos, movimentos quase graciosos para os mais velhos — mas normais para os mais novos.
Depois de alguns minutos, o Detetive perdeu a paciência.
— E então?
Bogum respirou fundo.
— Ele fala língua gestual perfeitamente. Disse que não tem família, não conhece ninguém e não entende por que está aqui.
O Promotor arregalou os olhos, incrédulo.
— Como não entende?! Ele explodiu um prédio inteiro e matou dezenas de pessoas! — gritou sem conseguir se controlar.
Bogum ficou pálido. Virou-se para o Omega, assustado e confuso.
O Omega apenas o observou em silêncio.
O Detetive e o policial se entreolharam — o Promotor havia falado o que não devia.
— O que foi? — perguntou o Promotor. — Ele precisava saber do caso para comunicar-se com o Senhor Min.
Sem alternativa, o policial mostrou o vídeo para Bogum e para o Omega.
O Beta ficou horrorizado.
Já o Omega… parecia indiferente. Como se aquilo fosse irrelevante.
— Pergunta o motivo — ordenou o Promotor.
Bogum traduziu, tenso. O Omega respondeu lentamente, sorrindo como se contasse um segredo íntimo.
— Ele disse… que não tem o que falar — respondeu o tradutor engolindo seco. — Disse que aquele do vídeo não era ele. Que o vídeo é montagem.
Os três homens o encararam como se Bogum tivesse acabado de dizer que o Omega destruiria o país inteiro.
— Chega. Acabou — disse o Promotor com firmeza.
Ele saiu, acompanhado rapidamente pelo policial e pelo detetive. O Beta ficou paralisado, sozinho com o Omega… que agora sorria para ele, de forma impossível de decifrar.
Depois de alguns minutos, voltaram com o Delegado.
Tiraram o Omega da sala sem cerimônia e decidiram levá-lo pelos fundos para evitar imprensa e caos.
A viagem seria longa — doze horas até a Torre — então trataram logo de adiantar procedimentos.
O Beta, apavorado, viu tudo.
Sabia exatamente o que aconteceria se abrisse a boca sobre o que testemunhou.
Abaixou a cabeça, saiu da delegacia e fingiu que nunca viu nada.
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A viagem até a Torre foi silenciosa. O Omega dormia profundamente no banco traseiro, quase como um anjo caído do ceu
Na frente, o Delegado e o policial seguiam lado a lado.
— Não acha que isso é extremo demais? — perguntou o policial, inquieto.
— Não — respondeu o Delegado sem hesitar. — Prefiro que ele morra lá dentro do que a verdade venha à tona. Não vou deixar um simples Omega destruir tudo o que construí… só porque os outros são fracos.
O policial engoliu seco e não respondeu.
Atrás deles, o Omega dormia… ou fingia dormir.
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No sonho
“Lá estava ele novamente naquela sala gelada do laboratório, a mesma luz branca, a mesma maca metálica, as mesmas agulhas penetrando sua pele.
Ele não suportava mais aquela tortura.
Todos os dias iguais.
Todos os dias presos naquele ciclo monstruoso.
Ele acordava, fazia sua higiene, e aguardava.
Sempre aguardava.
Até que viessem buscá-lo.
E então… apagava.
Quando despertava, estava preso, amarrado, invadido por instrumentos que nem entendia.
Ele não sabia quantos experimentos fizeram com seu corpo. Não sabia o que tiraram dele.
Só sabia que não era mais ele. Antes ele era Park Jimin
Ele tinha família… amigos… estava noivo.
E num acidente — num instante — acordou… assim, como Min Yongui
O que aconteceu? Onde estavam seus pais? Onde estava seu amor?
Perguntas demais para nenhuma resposta”
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Yongui ON
Acordei com o carro tremendo e notei que estávamos diante de um enorme portão metálico. O policial agora estava ao volante. Ele falou algo com alguém do lado de fora, e os portões se abriram lentamente.
Ali estava ela, a Torre.
Eu nem sabia que esse lugar existia.
— Espero que gostes. Será sua nova casa — disse o Delegado.
— Ele não entende, senhor — murmurou o policial, o Delegado revirou os olhos.
Eu sorri. Um sorriso pequeno… e sombrio.
Quando saí do carro, quatro guardas se aproximaram apressados, cada um com suas próprias algemas reforçadas.
Eles esperavam resistência e eu ofereci… nada.
Causa espanto, sempre.
Fui levado para trocar de roupa, tirar fotos, impressões digitais.
Depois me colocaram no elevador e apertaram o último botão — o que não tinha números.
Nada revelava onde eu ficaria.
O elevador abriu e encontramos um corredor longo, cheio de vigilância.
Quatro betas de cada lado da porta, outra na sala, outro no corredor e outra entre as celas.
E a minha era… rosa, ridiculamente rosa. Horrível.
Depois de verificarem tudo, um Beta saiu do banheiro da cela e me observaram sentar-me na cama.
Colocaram um prato sobre a mesa — sopa de batata com dois pães, fiz careta e eles riram.
Então um rosnado ecoou de outra cela fazendo todo mundo se extrenecer
Meu corpo inteiro arrepiou.
Meu lobo avançou internamente, querendo sair.
Os guardas ficaram tensos… e se retiraram rapidamente.
Comi mesmo não gostando, não quero ter anemia de novo.
Tapei a câmera do banheiro para tomar banho em paz, depois de limpo, deitei-me na cama e adormeci quase no mesmo instante.
Sem notar… dois olhos vermelhos brilhavam nas sombras da cela ao lado, observando-me.