Capítulo 4

1191 Words
Na manhã seguinte, acordei antes mesmo do despertador tocar. Fiquei alguns segundos olhando para o teto, ainda meio perdida entre o sono e os pensamentos que insistiam em voltar à minha mente. A casa ao lado. A luz na janela. O homem no jardim. E, principalmente, o silêncio dele quando eu o cumprimentei. Soltei um pequeno suspiro e virei o rosto em direção à janela. A luz suave da manhã já iluminava parte do quarto. Levantei-me devagar e caminhei até lá. Afastei a cortina. A rua parecia tranquila como sempre. Algumas folhas secas estavam espalhadas pela calçada e o vento da manhã fazia as árvores balançarem suavemente. Meu olhar foi automaticamente para a casa ao lado. E, como nos dias anteriores, ela parecia completamente vazia. Nenhum movimento. Nenhum som. Nenhuma pessoa. Era difícil acreditar que alguém realmente morava ali. Cruzei os braços, pensativa. — Talvez ele só apareça à noite — murmurei. Balancei a cabeça. Eu realmente precisava parar de pensar nisso o tempo todo. Hoje eu tinha outras coisas para fazer. A casa ainda precisava de várias coisas básicas: comida, produtos de limpeza, alguns utensílios de cozinha… e talvez algumas pequenas decorações. Desviei o olhar da janela e fui até o guarda-roupa. Abri as portas e observei minhas roupas por alguns segundos. Nada muito sofisticado. Afinal, eu ia apenas ao mercado. Peguei um jeans azul claro, confortável e levemente largo nas pernas. Depois escolhi uma blusa branca de manga curta, simples, com um tecido leve que caía bem no corpo. Por cima, decidi colocar uma jaqueta jeans fina, porque o vento da manhã estava um pouco frio. Calcei um tênis branco, daqueles que combinam com praticamente tudo. Prendi meu cabelo em um r**o de cavalo baixo, deixando algumas mechas soltas na frente. Caminhei até o pequeno espelho do quarto. Minha aparência ainda carregava um pouco do cansaço dos últimos dias. Peguei minha pequena bolsa de maquiagem. Nada exagerado. Passei um pouco de hidratante no rosto, depois uma camada leve de base, apenas para uniformizar a pele. Um pouco de corretivo abaixo dos olhos. Depois apliquei um rímel simples, que já fazia meus olhos parecerem mais vivos. Finalizei com um toque suave de gloss transparente. Observei o resultado. Natural. Simples. Perfeito para um dia comum. — Muito bem, Helena — falei para mim mesma. — Agora você parece uma pessoa funcional. Peguei minha bolsa e desci para a cozinha. Comi rapidamente algumas torradas e tomei um copo de suco. Antes de sair, fiz algo que já estava virando hábito. Olhei pela janela da cozinha. Direção da casa ao lado. Nada. Nem sinal do vizinho misterioso. — Talvez ele realmente só exista à noite — murmurei. Peguei minha bolsa e saí. O ar da manhã estava fresco. A cidade parecia ainda mais bonita sob a luz suave do sol. Enquanto caminhava pela rua, comecei a notar pequenos detalhes que não tinha percebido antes. Uma padaria na esquina. Um café pequeno com mesas do lado de fora. Algumas lojas simples. Era uma cidade tranquila. E de certa forma… acolhedora. O mercado ficava a cerca de dez minutos de caminhada. Era um prédio grande, com várias seções diferentes. Assim que entrei, peguei um carrinho. — Ok — falei baixinho. — Missão: sobreviver morando sozinha. Comecei pela parte de alimentos. Arroz. Macarrão. Molho de tomate. Algumas frutas. Legumes. Depois passei pela parte de produtos de limpeza. Detergente. Sabão. Esponjas. Também peguei algumas coisas que tornariam a casa mais confortável. Velas aromáticas. Um pequeno vaso com flores artificiais. E uma toalha nova para a cozinha. Eu estava concentrada olhando uma prateleira quando ouvi uma voz atrás de mim. — Você também está completamente perdida? Virei-me. Duas garotas estavam me olhando. Uma delas tinha cabelos cacheados castanhos e olhos grandes e curiosos. A outra era loira, com cabelos lisos até os ombros e um sorriso simpático. — Um pouco — admiti. A garota de cabelos cacheados riu. — Reconheço esse olhar. Eu também tive quando me mudei. — Você é nova na cidade? — perguntou a loira. Assenti. — Cheguei há dois dias. — Eu sabia! — disse a primeira. — Meu instinto não falha. Ela estendeu a mão. — Eu sou Camila Ribeiro. A loira fez o mesmo. — Beatriz Almeida. Mas todo mundo me chama de Bia. — Helena — respondi. — Prazer em conhecer você, Helena — disse Camila. Bia olhou para meu carrinho. — Primeiras compras de sobrevivência? Ri. — Exatamente. — Clássico — disse Camila. — Nós também passamos por isso. — Vocês estudam na universidade? — perguntei. — Sim — respondeu Bia. — Psicologia. — E você? — Arquitetura. — Ah, então você é das pessoas inteligentes — disse Camila dramaticamente. Ri. — Não sei se inteligente… mas definitivamente curiosa. — Curiosa é bom — disse Bia. — A cidade tem muitas histórias interessantes. Meu coração deu um pequeno salto. — Sério? — Sim — respondeu Camila. — Especialmente as casas antigas. Por um segundo pensei na casa ao lado da minha. Mas decidi não mencionar nada. Ainda não. — Vocês moram por aqui? — perguntei. — Duas ruas depois — disse Bia. — Em um pequeno apartamento. Camila cruzou os braços. — E você? — Na rua das acácias. As duas trocaram um olhar rápido. — Aquela rua é linda — disse Bia. — Muito tranquila. Assenti. — Sim, é bem silenciosa. Camila inclinou um pouco a cabeça. — Tem uma casa grande lá, não tem? Meu coração acelerou um pouco. — Tem. — Aquela com o jardim meio abandonado? Assenti lentamente. Camila franziu a testa. — Sempre achei aquela casa estranha. Bia deu um leve empurrão nela. — Camila… — O quê? Estou sendo honesta. Olhei entre as duas. — Por quê? Camila abriu a boca para responder… Mas Bia falou primeiro. — Porque ela adora imaginar histórias. Camila suspirou. — Ok, talvez um pouco. Ri. — Talvez vocês possam me contar essas histórias outro dia. — Com certeza — disse Bia. — Café amanhã? — sugeriu Camila. Sorri. — Gostei da ideia. Terminamos as compras juntas. E pela primeira vez desde que cheguei à cidade… Senti que talvez não estivesse tão sozinha quanto imaginei. Quando saí do mercado, o sol já estava mais alto no céu. Caminhei de volta para casa carregando duas sacolas. A rua estava tranquila como sempre. Quando virei a esquina… Meu olhar foi automaticamente para a casa ao lado. E meu coração quase parou. Porque ele estava lá novamente. Adrian. De pé perto do portão. Parecia estar olhando para algo em suas mãos. Talvez um livro. Talvez um caderno. Diminuí o passo sem perceber. Por um segundo pensei em simplesmente entrar em casa. Mas antes que eu pudesse fazer isso… Ele levantou o olhar. E nossos olhos se encontraram outra vez. Meu coração acelerou imediatamente. Havia algo diferente naquela expressão. Algo que eu ainda não sabia explicar. Segurei as sacolas com mais firmeza. E, mesmo sabendo o que aconteceu da última vez… Eu fiz isso de novo. Forcei um pequeno sorriso. Levantei a mão em um gesto educado. — Bom dia. O silêncio caiu entre nós. E mais uma vez… Adrian Vasconcelos não respondeu.
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