O Homem Que Observava

512 Words
Kol observava Kayte havia anos. Não era curiosidade passageira. Não era desejo raso. Era algo que ele mesmo não sabia nomear — e isso o irritava. Do alto do prédio abandonado que servia como um de seus pontos de vigilância, ele a via atravessar a rua quase todos os dias no mesmo horário. Sempre sozinha. Sempre com passos firmes. Nunca apressada demais, nunca distraída. Kayte andava como quem sabia exatamente para onde ia e como se defender, mesmo sem parecer agressiva. Ela não sabia, mas nunca esteve realmente sozinha. Kol era alto, forte, o corpo coberto por tatuagens que marcavam vitórias, perdas e juramentos de sangue. Líder de gangue. Temido. Respeitado. Um homem que não abaixava a cabeça para ninguém. Seu rosto fechado e o olhar frio faziam muitos tremerem antes mesmo de ouvir seu nome. Mas com ela… era diferente. Kayte sempre chamou atenção — não por provocar, mas exatamente pelo contrário. Jeans bem ajustado, blusas simples, vestidos elegantes sem exagero. Nada curto demais. Nada vulgar. Tudo nela gritava controle, limite, dignidade. Era bonita de um jeito perigoso, daquele tipo que não pede validação. Ela trabalhava no que aparecia. Fazia o dela. Não se apoiava em ninguém. Mulher de poucos amigos, poucas palavras, muitos muros. Reservada. Forte. Independente demais para um bairro que costumava engolir gente assim. E talvez fosse exatamente isso que o prendeu a ela. Kayte já o tinha visto, claro. Quem não tinha? Kol era impossível de ignorar. O líder da gangue local, sempre rodeado por homens armados, postura de predador. Ela achava ele bonito — seria mentira negar —, mas nunca passou perto. Gangster não fazia parte da vida que ela queria. Kayte não flertava, não provocava, não brincava com perigo. Ela passava longe. Sempre. E isso só fazia Kol observá-la mais. — Ela saiu mais cedo hoje — murmurou um dos homens ao fundo. Kol não respondeu. Não precisava. Seus dois únicos amigos — irmãos de alma, os únicos em quem confiava de verdade — já sabiam. Sabiam que Kayte era intocável. Não por ordem direta, mas por algo muito mais sério: proteção absoluta. Nenhum deles entendia o motivo. Como um homem como Kol podia ser tão zeloso com uma mulher com quem nunca trocou uma palavra? Como podia mandar vigiar rotas, afastar ameaças, silenciar boatos, resolver problemas antes mesmo que ela soubesse que existiam? Kol também não entendia. Tudo o que sabia era que, se algo acontecesse com Kayte, o mundo sangraria. Naquela noite, Kayte parou na esquina, ajeitou a bolsa no ombro e respirou fundo antes de seguir. Um gesto pequeno, quase invisível. Mas Kol percebeu. Sempre percebia. — Continua seguindo — disse ele, finalmente, com a voz baixa e firme. — Mas à distância. Ela não pode desconfiar. Porque Kayte não pediu para ser protegida. E Kol nunca pediu para se importar. Mas o destino já tinha começado a brincar com os dois. E quando seus caminhos finalmente se cruzassem, não seria suave. Seria um choque. De ódio. De resistência. E de um amor que precisaria se esconder… até mesmo deles mesmos.
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