a Nova Pediatra do Filho do CEO

934 Words
Helena Costa respirou fundo antes de empurrar a porta de vidro da clínica particular. Seus tênis brancos estavam impecáveis, mas seu coque já dava sinais de batalha contra o vento matinal. Aquilo era tudo o que ela precisava: um novo começo, mesmo que fosse como médica substituta por uma semana. — Sorria, Helena — murmurou para si mesma, ajeitando o jaleco. — Você ama crianças, ama medicina e está totalmente preparada para lidar com qualquer situação. Ela só não sabia que a "situação" do dia era um mini furacão de cinco anos que respondia apenas em Libras e que havia traumatizado dois pediatras no último mês. A recepcionista, uma moça ruiva de aparência simpática, levantou os olhos do computador. — Doutora Helena? Ele já chegou. Sala 3. — Ele? A ruiva apenas apontou com o queixo, como se dissesse: “Você vai ver.” Helena atravessou o corredor decorado com desenhos infantis e abriu a porta com um sorriso profissional no rosto. Foi recebida por uma cena digna de filme de comédia: um homem de terno tentava impedir que o filho escalasse uma estante de livros como se fosse um parque de diversões. — Cuidado! — o homem disse, segurando o menino no ar no último segundo. — Luca! Não estamos no Cirque du Soleil. O garoto riu silenciosamente. Literalmente. Nenhum som saiu, só um sorriso largo e o brilho zombeteiro nos olhos. Helena piscou. Era a primeira vez que via um menino rir com o corpo inteiro sem emitir nenhum som. — Boa tarde — disse ela, finalmente entrando por completo. — Doutora Helena Costa. Estou substituindo a Dra. Silvia essa semana. O homem virou-se, ainda segurando o filho no colo. Era alto, elegante e tinha aquele ar cansado de quem nunca tira férias. Os olhos escuros e a barba bem feita completavam o pacote CEO-viúvo-misterioso que toda comédia romântica de respeito exige. — Dante Moretti — disse ele, apertando a mão dela com firmeza. — E este é Luca. Cinco anos. Hiperativo. Mudo. E profissional em espantar pediatras. Luca olhou para ela e, com movimentos rápidos e precisos das mãos, sinalizou: “Você também vai fugir?” Helena sorriu. — Talvez. Mas só se você tentar me morder ou me obrigar a subir nessa estante. Luca arregalou os olhos. A maioria dos adultos não respondia. Não daquele jeito. Ele lentamente levou os dedos ao queixo e sinalizou: “Você entende?” — Entendo. E gosto — respondeu ela, também em Libras. Foi o suficiente para que ele sorrisse, dessa vez com uma pontinha de respeito. Dante, por outro lado, pareceu surpreso. — Você fala Libras? — É claro. Fiz parte de um projeto com crianças surdas durante a residência. Foi a melhor parte da faculdade. E… talvez a única que realmente me preparou pra lidar com pequenos terremotos. Dante arqueou uma sobrancelha, divertido. — Isso é um milagre. Luca ainda não deixou nenhum médico examiná-lo sem tentar fugir, esconder-se ou fazer parecer que está possuído. — Você me contou que ele não fala, mas ele ouve normalmente? — Perfeitamente. Não há impedimento físico. Ele só… nunca quis falar. Desde que nasceu. — Algum diagnóstico? — Nada conclusivo. Um especialista disse que é seletivo, outro disse que é trauma, outro que ele só tem “forte personalidade”. Helena sorriu para Luca, que agora havia se sentado na mesa de exame, observando tudo com atenção. — Bem, personalidade forte eu confirmo — disse ela, pegando o estetoscópio. Para surpresa geral, Luca estendeu os braços para ela espontaneamente. — Uau — murmurou Dante. — Você venceu o primeiro nível. Isso nunca aconteceu tão rápido. — Sou boa com crianças difíceis. E com adultos difíceis também, caso esteja se perguntando. Ele deu um meio sorriso, mas não respondeu. Enquanto fazia o exame, Helena mantinha contato visual com Luca e ia sinalizando cada passo. “Isso pode estar frio. Respira fundo. Agora segura. Solta.” Ele a seguia com confiança. Dante observava em silêncio, cruzando os braços. Era estranho ver o filho se conectar tão rápido com alguém. Ainda mais uma desconhecida. — Está tudo normal — disse ela, terminando. — Batimentos fortes, respiração limpa, nada incomum. — Isso nunca foi o problema — disse Dante. — É a parte emocional. As crises. O silêncio. A teimosia. Helena olhou para Luca, que agora a encarava com uma seriedade quase adulta. Ele sinalizou: “Ele está exagerando.” Ela riu. — Ele disse que você exagera. — Eu entendi — respondeu Dante, surpreso. — Também fala Libras? — Não. Mas já consigo entender algumas coisas só de conviver com ele. Sou autodidata f*****o. Helena olhou para os dois. Um pai que se esforçava para entender o filho, mesmo que fosse um CEO ocupado. Um menino que não precisava de palavras para ser compreendido. Aquela conexão… era bonita. Mesmo se viesse embalada em caos. — E então, doutora? Vai aguentar mais de uma consulta? Ela tirou os óculos, apoiou-os na cabeça e cruzou os braços com um sorrisinho. — Se ele prometer não me fazer escalar estantes, acho que posso durar mais que os outros. Luca levantou a mão e fez um juramento mudo. Depois sinalizou: “Você pode voltar semana que vem?” — Posso, sim — respondeu Helena, e então olhou para Dante. — A não ser que o senhor CEO aqui me dispense. — Depois de ver isso? — Dante descruzou os braços, parecendo menos tenso. — A senhora está oficialmente contratada… por tempo indeterminado. Helena arqueou uma sobrancelha. — Olha, nem precisei mandar currículo. Luca gargalhou silenciosamente. E Dante… quase sorriu de verdade.
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