Anna ou Nina pareciam estar hiperventilando. Parei de falar por um momento para lhe dar tempo de assimilar a situação, rezando para que ela não tivesse um ataque de pânico. Quando criança sempre teve problemas de ansiedade, claro que não era para menos.
— Se ela está tão ferida, você deveria levá-la para um hospital. A sua voz estava trêmula, assim como as suas mãos. Ela disse isso, embora soubesse muito bem que, se pudéssemos levá-la, não estaríamos assim. Sou um criminoso procurado internacionalmente e a minha irmã entrou ilegalmente no país. Além disso, os ferimentos à bala e o espancamento chamariam muita atenção e, uma vez internada num hospital, ela é um alvo muito fácil para as outras organizações criminosas, que acabariam com ela em horas.
Não, um hospital nunca é uma opção, a menos que seja em Moscou em alguns lugares específicos, onde temos o nosso próprio hospital Bravta.
— Vamos levá-la até o quarto onde ela está e você vai se arrumar para operá-la. Eu disse a ela, tentando parecer calmo.
A sua respiração ainda era difícil. O seu nervosismo estava me afetando, e toda vez que eu olhava para ela, ela ainda parecia jovem demais para já estar operando. Algo que eu também não poderia levar em conta, porque a verdade é que não tínhamos mais ninguém... Nina faria todo o possível para salvar Olivia Pedi a Gavril que a levasse para fazer a limpeza para a operação, no mesmo banheiro anexo ao quarto em que a Olivia já estava. Quando conversei com Daniel, ele me garantiu que tinha ouvido falar de Anna antes mesmo de vir para Las Vegas dos membros da Bratva. Gavril havia confirmado que havia realizado mais de 80 intervenções em ferimentos à bala, apesar de ser recém-formada, já que trabalhava com eles há anos. Ela também me disse que ser tão boa no seu trabalho é o que a salvou de situações difíceis, sendo tão jovem e bonita num entorno, digamos hostil. Imaginei ela com medo caso
alguém a reconhecesse e sem a nossa proteção pela primeira vez na vida.
Gavril tinha muito a explicar, ele era o único que a conhecia e era impossível que ele não estivesse envolvido no desaparecimento dela anos atrás. Me matou pensar que alguém poderia tê-la encontrado antes, que eu não tenha conseguido ajudar ela.
Eles a protegeram porque não estavam interessados em perdê-la, uma cirurgia é muito valiosa no nosso meio. Eu me perguntei por que eles a aceitaram em primeiro lugar, não é comum misturarmos pessoas de fora, e menos ainda com conexões tão perigosas quanto as dela. Gavril havia assumido um grande risco ao colocá-la naquela posição e isso só poderia significar que ele estava tentando encobrir algo maior. Ou a minha cabeça estava realmente pregando peças em mim e não era Nina?
Ela não tinha o menor sotaque russo, mas meu coração sabia disso desde o primeiro minuto.
Entrando no quarto de Olivia, senti que algo estava errado. Gavril estava dentro do banheiro com Anna e com a porta fechada com trava. Ele não estava falando muito alto, mas eu podia ouvi-lo sussurrar. Bati e ele não atendeu.
Não direi que não sou um animal. Já matei, já torturei, já roubei, mas o que se passa na cabeça desse homem sempre será um enigma. Por que ele tem que assustar ou bater em Anna assim? O fato de ele ser amigo do meu pai me surpreende. O meu pai não é a melhor pessoa do mundo, mas até Gavril parece indigno dele.
Sempre que ele veio a Moscou, ele sempre foi repulsivo para mim, principalmente por causa da maneira como ele fala e olha para as mulheres, principalmente. Nem mesmo entre os seus pares conquistou respeito, o que o levou a perder o seu posto de poder em Los Angeles. Nos últimos anos, ele se tornou apenas mais um executor, uma grande humilhação, depois de ter ocupado uma posição de chefe. Lembrando de uma conversa em que o meu pai me disse para nunca o deixar sozinho com Olivia, eu abri a porta com um chute.
Nina estava contra a parede, claramente assustada, então eu o arrastei para fora e fechei a porta para lhe dar privacidade.
Eu não queria chamar a atenção dos meus homens para a situação, mas não pude deixar de agarrar Gavril pelo pescoço, arrastá-lo e jogá-lo contra a parede.
— Diga-me que você não sabia onde ela estava todos esses anos. Diga-me que ela nem sempre esteve aqui e você não a levou para fora do país.
Comecei a apertar a minha mão enquanto Gavril tentava sem sucesso, chutar e tentar se livrar dos meus dedos.
Continuei apertando até ouvir alguém se aproximar.
Eu o soltei e ele caiu no chão tossindo. Ele m*al havia se recuperado quando outro dos meus homens entrou na sala, não tive chance de terminar a conversa. Ele fugiu como um rato assim que teve a chance, provando que ele era culpado.
ANNA
Acho que nunca senti tanto alívio na minha vida como quando ouvi a sua voz. Claro, pelo que sei, ele também pode ser meu carrasco.
Gavril me empurrou para o banheiro assim que ficamos sozinhos, apontou uma arma para minha cabeça e disse que me mataria se eu não pudesse salvar o seu filho Michael. Mas primeiro eles me pediram para cuidar de Olivia, eu não tinha certeza se teria tempo suficiente para salvar os dois. Então, como se nada tivesse acontecido, ele me pediu para tirar a roupa. Sempre me perguntei o que a minha mãe poderia ter visto nele. Deve ser algo tão maravilhoso e secreto (porque ninguém mais pode ver) que significou escolhê-lo
repetidamente, em vez da sua própria filha e de tudo o mais, incluindo a sua saúde mental. Por anos ele olhou para mim com o mesmo rosto malicioso com que está olhando para mim agora.
Durante anos tive pesadelos com medo de que ele fosse para a minha cama, quando ficava com a minha mãe. Acho que isso ainda me assusta mais do que pensar que Alex Volkov ainda pode querer me matar. Prefiro morrer a sentir o cheiro do álcool dele em mim.
Tentei fazer a minha mãe entender milhares de vezes, mas ela nunca acreditou em mim. Eu adoraria dizer que não tive coragem de dizer a ela, que ela nunca me ouviu, mas ela ouviu e não acreditou em mim, o que é devastadoramente pior.
O meu pai sempre me disse que eles, os Bratva, eram a família dele e a minha, mas ele se enganou, porque deixaram ele morrer, e eu também, porque a família geralmente ajuda e não pede nada em troca, especialmente se você tem 16 anos e está sozinha em outro país.
Mas neste mundo todos os favores têm um preço, e eles não decidiram exatamente me ajudar por causa do meu pai, mas sim cobrar algo em troca. Se eu soubesse de quem eu era filha, ela já estaria morta.
Tive sorte, porém, porque pelo menos ganhei o respeito deles cedo, e eles nunca colocaram a mão em mim. Exceto Gavril, quero dizer. Ele continuou colocando a mão em mim por anos, felizmente apenas para me bater.
O Dr. Petrov me colocou sob a sua proteção como a sua protegida e até negociou para que eu fizesse como condição do nosso contrato que Gavril nunca soubesse o meu endereço ou falasse comigo em Las Vegas. Eu me pergunto como ele me encontrou hoje?
Antonio tinha um olhar de fúria absoluta quando a porta se abriu e por um momento pensei que ele iria me ameaçar também. Mas não, de novo como Daniel antes de entrar carro, era apenas para esse lixo de homem.
— Você não tem permissão para entrar neste quarto, eu não quero você nem mesmo neste corredor, e eu não quero que você fique sozinho com Anna ou Olivia, entendeu? Antonio disse com um sotaque parecido com o de Daniel, mas com uma voz mais rouca do que quando éramos adolescentes. Eu nem me lembrava de quanto gostava da voz dele. Era diferente do que eu ouvia nos meus sonhos e, por alguns segundos, apenas pensei em como o meu nome, o verdadeiro, soaria nos seus lábios.
Gavril estava tentando protestar, mas Antonio não lhe deu chance.