CAPÍTULO 3 - MIGUEL

1858 Words
Aquela mulher... lembrei de tê-la visto sozinha no bar, tomando um drink atrás do outro. Sim, foi isso, eu estava bem sóbrio naquele momento. Depois que a vi a primeira vez, acho que ainda levei mais de uma hora até decidir me juntar a ela. Eu tinha as minhas razões para encher a cara e, aparentemente, a moça também, e foi por isso que puxei assunto. É, essa parte estava bem nítida. Lembrava-me exatamente quais tinham sido nossas primeiras palavras trocadas. — Olha, eu não te conheço e sei que isso não é da minha conta, mas... Não está bebendo um pouco demais? Ela ergueu o copo em minha direção e retrucou sem sequer me olhar: — É tudo por conta da empresa. E quero dar muito prejuízo para esse CEO filho da p**a. Surpreso com o comentário tão sincero, vi-me momentaneamente sem resposta. Acredito que ela tenha percebido isso, porque enfim virou o rosto em minha direção, olhando para mim e me reconhecendo. Porém, ao invés de ficar sem graça, ela riu. Ela simplesmente riu. E ainda acrescentou: — Ai, meu Deus, você é o filho da p**a! — Tomou o conteúdo de seu copo em um só gole e seguiu gargalhando. Acho que ela realmente estava muito bêbada. Mas, para o inferno, ela tinha razão. Eu era mesmo um grande filho da p**a e só restava a mim beber um pouco também. Pedi que o barman me servisse o mesmo que ela e virei goela abaixo, logo pedindo outra dose. A bêbada ao meu lado pareceu curiosa com isso. — Eita, teve um dia r**m, foi? — Têm sido vários dias ruins, na verdade. — Que tipo de dia r**m um cara como Miguel Marino teria? Acabou a champanhe da limusine? Quis trocar seu helicóptero por um modelo mais moderno e não tinha a cor que você queria? Ah, já sei: queria passar o fim de semana na sua mansão em alguma praia paradisíaca, mas a previsão do tempo disse que ia chover, não é? Nossa, força para você, guerreiro! Aquilo não seria problema para mim. Minha casa em Trancoso tinha uma área externa com piscina coberta. Mas talvez comentar a respeito disso fizesse com que eu parecesse tão esnobe e fútil quanto ela achava que eu seria. E eu não era. Nem tinha uma limusine. Achava meio brega. — Não é só porque eu sou rico que eu não tenha problemas de verdade — retruquei, observando enquanto o barman servia mais duas doses para nós. — Você está morrendo? — ela perguntou de repente. — Nossa, não. — Alguém da sua família está morrendo? — Não. — O seu cachorro está morrendo? Como ela sabia que eu tinha um cachorro? — Não, meu cachorro está ótimo. — Então, meu caro, você não tem um problema de verdade. — Por acaso você está morrendo? — Eu não nasci em berço de ouro. Existe uma infinidade de problemas que eu posso ter. — Então por que o meu único problema seria alguém morrendo? — Porque seria a única coisa pela qual você não poderia pagar. Qualquer outra coisa, aposto, sua grana é bem capaz de resolver. Eu queria que ela estivesse com a razão. Mas não estava, pelo motivo que expus: — Nem tudo na vida pode ser comprado com dinheiro. — Sabe quem gosta de dizer bobagens assim? Gente com muito dinheiro. — Seus problemas seriam resolvidos com dinheiro? Ela pareceu pensar por um instante. — Uma boa parte deles, sim. Se eu fosse uma herdeira milionária como você, não precisaria sofrer esperando por uma promoção e vendo um filho da p**a qualquer roubando ela de mim. Percebi que ela falava muitos palavrões. Não que isso me incomodasse. Mas estava acostumado a mulheres que, na minha presença, tentavam manter uma linha mais culta-educada-boa- moça. Claro, isso antes de eu as levar para a cama, onde se tornavam verdadeiras devassas. Pensei em como aquela boquinha suja deveria se comportar enquanto trepava com alguém. Eu poderia tentar descobrir, mas não faria isso por duas razões. A primeira, era que ela era funcionária da minha empresa, o que era algo meio proibido para mim, pelas minhas próprias regras. E a segunda é que a mulher estava completamente bêbada. Tomei mais uma dose. Do jeito que aquilo era forte, talvez eu não demorasse a ficar igual a ela. Bem, para falar a verdade, havia ainda mais um motivo para eu não tentar nada com a moça ao meu lado. Eu estava em um processo de mudanças em minha vida, e estas incluíam ser menos festeiro e menos mulherengo. Como aquela era uma festa da empresa, sentia que podia me dar ao luxo de beber um pouco além da conta. Fiz um comentário mental de que a empresa deveria promover festas toda semana. Colocaria isso na pauta de mudanças a fazer. Enquanto via o barman encher mais uma dose para mim, voltei a focar minha atenção no que ela tinha acabado de me contar. — Como assim alguém roubou a sua promoção? — Ele ainda é meu superior... Aliás, agora mais superior ainda. Por isso eu não posso denunciá-lo, senão ele pode querer se vingar. — Ela virou o copo, o que pareceu ter lhe dado uma dose extra de coragem. Ou de falta de noção de perigo. — Ah, que se foda, vou contar, sim! O filho da p**a do Antônio apresentou o meu projeto como se fosse dele. — Fala do projeto do condomínio? Ele é seu? Caramba, ele é ótimo. — Eu sei. E deu muito trabalho. — Vou conversar com o Antônio amanhã e ele vai ter que me explicar essa situação. — Se você contar que eu te contei, ele pode me demitir. — Só quem pode demitir alguém ali dentro sou eu. E eu não pretendo demitir ninguém. — Nem o Antônio? — Nem o Antônio. — Afe... Você é mesmo um bundão. Novamente, eu não esperava pelo termo nada educado sendo dirigido a mim. Nunca tinha sido tratado daquele jeito por uma mulher, muito menos por algum funcionário da minha empresa. Mas não me importei muito com isso. Acho que já estava ficando bêbado o suficiente para começar a ver aquilo com uma certa naturalidade. O que não havia nada de natural era como aquele início de conversa no bar tinha evoluído para nós dois acordarmos nus dividindo a mesma cama. Para começar, ela me chamou de bundão. E de um jeito nada sexy. Minha cabeça doeu, sendo tomada por uma névoa e eu não consegui mais me lembrar da sequência daquela conversa. Ainda tentei forçar um pouco a memória, mas nada surgiu. Decidi, contudo, que nada daquilo tinha importância. Eu não queria ir para a cama com uma funcionária, mas agora já tinha ido, nada poderia mudar isso. Vida que segue... E a minha, no caso, tinha muito a seguir. Levantei-me, peguei minhas roupas jogadas pelo chão, usei o banheiro do quarto, vesti-me e saí. No estacionamento do hotel, entrei em meu carro e logo percebi que não estava tão bem assim para dirigir. — Que merda... — resmunguei, sentindo a cabeça girar um pouco. Que bom que o local não ficava tão longe assim da minha casa. Ainda assim, iria redobrar a atenção e dirigir bem devagar. A última coisa que eu precisava na vida era me envolver em um acidente ou ganhar uma multa de trânsito. — Preciso ser a p***a de um homem exemplar... — aquele tinha virado praticamente o meu mantra nas últimas semanas. Acabava de atravessar o portão do estacionamento e virava à esquerda na rua em frente ao hotel quando meu celular tocou. Posicionei-o no painel do carro e o atendi no viva-voz. Em geral, ignoraria, já que estava dirigindo e, repito: precisava evitar ao máximo levar uma multa. Mas eu não me permitiria perder uma ligação de Janete. Janete era atualmente a mulher mais importante da minha vida. Não, eu não tinha qualquer envolvimento amoroso ou s****l com ela – mesmo porque, ela era casada, além de ter idade para ser minha mãe. E também não tinha qualquer parentesco comigo. Porém, no momento, eu ousaria dizer que ela tinha uma importância maior do que a minha própria mãe. Janete era minha advogada. É, eu sei que isso pode soar bem frio. Mas, na realidade, era o extremo oposto disso. Porque Janete não estava no momento cuidando de nenhum processo que dissesse respeito a questões financeiras ou patrimoniais. Ela cuidava do processo mais importante e vital de todos para mim. — Que tipo de merda você tem na cabeça? — Como eu disse, Janete não era minha namorada nem minha parente. Mas ela era dura, direta e nada comedida com as palavras. Bem, ela era advogada da minha família há mais de vinte anos, tinha me visto crescer, então ela podia se dar àquelas ‘intimidades’. E eu até gostava, porque demostrava o quanto ela estava empenhada em ganhar aquela causa. — O que eu fiz dessa vez, Janete? — Uma funcionária da sua empresa, Miguel? É sério isso? Não tem vinte e quatro horas que tivemos uma conversa séria e você prometeu que ia entrar nos eixos, e pouco depois você se enfurna em um hotel com uma mulher, e ainda com uma funcionária? Cocei a cabeça, cansado. Sabia que ela estava com toda a razão, mas não pude deixar de externar uma reclamação: — Colocou alguém para me espionar agora, Janete? — Eu não precisei fazer isso. Os seus inimigos já fizeram. Acabei de receber fotos e vídeos de você bebendo com a moça, se agarrando com a moça, entrando no quarto de hotel com a moça à uma e meia da manhã, e ela saindo sozinha e descabelada agora há pouco, às sete e quinze. Puta que pariu! Xinguei mentalmente todos os palavrões dos quais eu conseguia me lembrar. Como aqueles filhos da p**a podiam ter chegado tão baixo? — A ação está completamente perdida, então? — questionei por fim, sentindo um verdadeiro pavor da resposta. — Me encontre em meia hora no meu escritório e nós vamos discutir sobre as ameaças e propostas feitas. Não se atrase. — Não vou me atrasar. Eu ia me atrasar. E tinha a impressão de que até ela sabia disso. Além de estar ainda saindo do hotel, bem longe do escritório dela, eu ainda precisaria parar para tomar um café bem forte. Os efeitos da bebida estavam bem acesos no meu organismo. Além da dor de cabeça e do estômago revirando, eu estava também com uma tontura bem forte, o que me fazia me perguntar que inferno de misturas alcoólicas eu devia ter feito durante a noite. Logo que Janete desligou a ligação, eu, irritado com toda aquela história, soquei com força o volante, tentando extravasar um pouco da minha raiva. Só então, reparei algo no dedo anelar da minha mão direita. Algo que definitivamente não estava ali antes. — Que p***a é essa? — resmunguei, forçando a cabeça para tentar me lembrar como aquilo tinha ido parar ali. Uma onda de desespero ainda maior tomou conta de mim quando algumas lembranças daquilo invadiram a minha mente.
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