Capítulo 4

776 Words
O silêncio no quarto era absoluto, como se até o ar tivesse prendido a respiração. Isla ficou imóvel, os olhos presos à figura que acabara de entrar. Darian Marchesi. Sem terno. Sem gravata. Usava apenas uma camisa escura dobrada nos antebraços, e calças de alfaiataria. Casual. Mas ainda assim imponente. Seus olhos cinzentos vasculharam o ambiente antes de pousarem sobre ela — firmes, frios, intensos. — Está acomodada? — ele perguntou, com aquela voz baixa que parecia carregar poder em cada sílaba. Isla tentou firmar a postura. — Sim… está tudo muito bem. Obrigada. Darian deu alguns passos para dentro, fechando a porta atrás de si com um clique suave. — A governanta relatou que chegou no horário. Gosto disso. Ela apenas assentiu. Ele a observava. Como se quisesse entender até o que ela mesma ainda não sabia sobre si. E talvez… como se soubesse que o simples fato de estar ali já era um teste. — Está nervosa — ele constatou, não como uma pergunta, mas como uma verdade óbvia. — Estou num lugar desconhecido, com pessoas que m*l conheço, e sob um contrato que muda a minha vida. Acha mesmo que eu estaria calma? Por um segundo, o canto da boca dele ameaçou um sorriso. Mas desapareceu tão rápido quanto surgiu. — Gosto de franqueza, Srta. Ferraro. Isso vai tornar tudo mais fácil. Ele se aproximou, os passos lentos. Isla sentiu os músculos tensarem. — Você leu cada linha, assinou cada cláusula. Nada do que acontecer aqui será uma surpresa. — Eu sei o que assinei — ela respondeu, firme. Darian parou diante dela, próximo o bastante para que Isla sentisse o perfume amadeirado e sutil que ele usava. Seu olhar desceu discretamente por ela, dos olhos aos pés — não de forma vulgar, mas analítica. Como quem avalia um investimento. Ou uma promessa. — Ótimo. Porque, a partir de agora, sua vida será conduzida segundo minhas regras. Isla ergueu o queixo, mesmo com o coração batendo descompassado. — Eu não vim aqui para causar problemas. Ele se inclinou levemente, apenas o suficiente para que o tom de voz caísse ainda mais. — Não. Mas veio aqui para me dar um filho. Ela corou, mas não desviou o olhar. A respiração prendeu por um segundo no peito. Darian recuou um passo e soltou o ar com calma. — O médico virá amanhã. Faremos exames. Ajustaremos sua dieta, sua rotina. Quero tudo perfeito. Sem erros. Ela assentiu de novo, tentando manter a compostura, mesmo com as mãos suando. Ele se virou, como se já fosse sair, mas parou na porta. — Descanse bem, Isla. Ela congelou. Era a primeira vez que ele dizia seu nome. — A próxima vez que eu entrar nesse quarto... — ele continuou, sem olhar para trás — ...não será apenas para conversar. A porta fechou-se devagar atrás dele, abafando o som dos passos firmes no corredor. Isla ficou parada, olhando para a madeira branca como se ainda pudesse ver através dela. Seu corpo ainda estava tenso, como se esperasse mais — uma palavra, um toque, um gesto que não veio. Ela soltou o ar com dificuldade, sentindo os ombros finalmente relaxarem. Caminhou até a poltrona, mas, ao se sentar, percebeu que não conseguiria descansar. O ar do quarto ainda carregava o cheiro dele. Ela levou as mãos ao rosto e murmurou para si mesma: — O que foi isso? Não sabia explicar. O jeito que ele a olhava. Como se pudesse vê-la por dentro. Como se soubesse que ela estava com medo, mas não admitiria. Era intimidador. Mas também… envolvente. Se odiava por pensar nisso. Ela se levantou, caminhou até a janela. A mansão agora estava silenciosa, apenas com algumas luzes espalhadas no jardim. Nenhuma movimentação. Nenhum som. Ali dentro, ela era só um corpo à espera de cumprir um papel. Mas por que, então, aquele olhar dele parecia ver além da função que ela tinha naquele contrato? Por que o som da voz dele, dizendo seu nome pela primeira vez, ficou gravado como se fosse importante? "A próxima vez que eu entrar nesse quarto..." Isla fechou os olhos e se abraçou. Não sabia o que a assustava mais: a ideia de Darian voltar… ou o fato de que uma parte dela, pequena e silenciosa, esperava que ele voltasse. Era cedo demais para sentir isso. Cedo demais para se perder. Voltou à cama e se deitou, os olhos fixos no teto. O silêncio do quarto agora parecia mais denso. Mais cheio. Ela se cobriu até os ombros e, só então, uma lágrima silenciosa escorreu pela lateral do rosto. Não era por medo. Era por não saber o que viria depois.
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