Capítulo 6

849 Words
O relógio marcava 22h03 quando Isla ouviu os passos. Firmes. Lentamente ascendentes. O som ecoava pelo corredor como uma contagem regressiva. Ela estava de pé, perto da cama, vestida com a camisola branca deixada sobre a colcha naquela manhã. Leve. Simples. Mas fina demais. Seu coração batia alto. Queria correr para o banheiro. Fechar a porta. Respirar. Mas não se moveu. A maçaneta girou. A porta se abriu devagar. E Darian Marchesi entrou. — Está acordada — ele disse, como se já soubesse. Isla assentiu com um leve movimento de cabeça. A garganta seca demais para responder. Ele entrou devagar, sem pressa. Vestia apenas uma camisa preta, aberta nos primeiros botões, e calças de tecido leve. Trazia nas mãos um copo com algo âmbar. Uísque, provavelmente. — Fiquei sabendo que foi ao médico. Tudo correu bem? Ela assentiu novamente, tentando manter a compostura. — Está nervosa — ele afirmou, como antes. — Estou preparada — ela corrigiu, mesmo sentindo a mentira escorregar pela língua. Darian parou diante dela, a apenas um passo de distância. Seus olhos percorreram seu rosto, depois seus ombros, sua pele exposta pela alça fina da camisola. — Não está — ele disse, calmo. — Mas vai ficar. Isla sentiu a respiração falhar. — Por que demorou a voltar? — perguntou, mais para distraí-lo do olhar que a atravessava do que por curiosidade. Darian deu um leve sorriso com o canto da boca, quase imperceptível. — Quis dar a você tempo. — Tempo pra quê? — Pra entender onde está. O que você é aqui. E pra lembrar… quem manda. Ela não respondeu. Mas o orgulho latejava dentro do peito. Ele se aproximou ainda mais, e ela não recuou. Podia sentir o calor do corpo dele agora. O cheiro inconfundível. A presença esmagadora. Darian ergueu a mão. Por um instante, ela achou que ele fosse tocá-la. Mas ele apenas passou o polegar levemente por baixo de seu queixo, erguendo seu olhar até o dele. — Eu poderia tomar o que é meu agora — ele disse, com a voz baixa, grave. — Mas prefiro que você saiba o que está me entregando. Ela segurou o ar. — E o que estou te entregando, Sr. Marchesi? O olhar dele se apertou, mais escuro. — Controle. Exclusividade. Obediência. Ela riu — um som fraco, sem humor. — Isso tem nome. E não é paternidade. Ele recuou o dedo, mas não se afastou. — Não. Isso é o que acontece quando alguém vende o corpo. — Ele deu um passo ao lado, e a voz caiu para um tom quase sussurrado, rente ao ouvido dela. — Mas não se engane, Isla. Eu não comprei só o seu ventre. Ela estremeceu. Quis odiá-lo. Quis gritar. Mas tudo que conseguiu fazer foi ficar ali, imóvel, sentindo o mundo se estreitar naquele quarto. Darian se afastou, indo em direção à porta. Antes de sair, virou-se uma última vez. — Amanhã, você começa a tomar os suplementos. Em breve, não haverá mais volta. Assim que a porta se fechou, Isla soltou o ar que estava preso no peito desde o instante em que Darian entrou. Sentiu os joelhos vacilarem e sentou-se na beirada da cama, o coração ainda disparado, a pele quente. Passou a mão pelos braços, tentando afastar aquela sensação que se espalhava como fogo sob a pele. Não era só medo. Era alguma outra coisa. Era ele. As palavras dele ecoavam na mente como uma ameaça doce e perversa. “Eu não comprei só o seu ventre.” Ela se odiava por ter sentido algo quando ele disse aquilo. Por ter deixado que um arrepio percorresse a espinha, que o corpo reagisse… mesmo sem permissão. Você não é dele, Isla. Você está aqui por Ava. Isso não é sobre você. Não é sobre ele. Levantou-se e foi até o espelho. O reflexo mostrou uma versão dela mesma que parecia diferente. Havia algo nos olhos. Um brilho estranho, confuso. Um rubor nas bochechas. Um aviso silencioso. Isla passou os dedos pelos cabelos, tentando se recompor. — Isso não pode acontecer — murmurou. — Isso não vai acontecer. Mas a voz dela tremeu. Caminhou até a janela e puxou a cortina com força. O jardim lá fora estava envolto pela penumbra suave da madrugada. As luzes dos postes baixos iluminavam os canteiros com uma delicadeza c***l. Lá fora, tudo parecia em ordem. Aqui dentro… nada mais estava. Sentou-se de novo, puxando os joelhos para perto do peito, envolvendo as pernas com os braços. O quarto, embora bonito, parecia sufocar. As paredes, antes sóbrias, agora pareciam observá-la. Julgar suas reações. Seus pensamentos. Você quer que ele volte. A frase veio como um sussurro interno. Um veneno. Ela apertou os olhos com força, negando. Mas o corpo… o corpo já tinha respondido antes dela pensar. Deitou-se, virando-se para o lado, encolhida, como se pudesse escapar do que estava sentindo. Mas o perfume dele ainda estava no ar. O calor do olhar dele ainda estava preso à sua pele. E a última frase dele… ainda vibrava dentro dela: “Em breve, não haverá mais volta.”
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