Capítulo 12

1776 Words
Rebeca foi à casa de Tassiane primeiro, pela manhã. Não tinha ninguém. Depois foi à casa de Felipe. Esqueceu que ele estaria na escola. A mãe dele a convidou para entrar. Já sabia quem ela era antes mesmo de se apresentar. Foi muito gentil com ela. Rebeca ficou impaciente na sala, esperando. Quando Felipe chegou, ficou surpreso ao vê-la. Ela levantou sem jeito, falou oi e sorriu com um nó na garganta que m*l a deixava respirar. Ele se aproximou olhando fixamente, jogou a mochila no chão e pareceu não estar acreditando que era ela. Abraçaram-se. Foi muito espontâneo. Rebeca fechou os olhos e sentiu o corpo dele tão perto do seu. Pôde sentir o coração dele batendo disparado, a respiração ofegante, o perfume que ela adorava. Se sentiu muito triste, culpada e ele também estava culpado. Ela perguntou como “ela” estava. Felipe se afastou, quase chorando, pediu desculpas por não ter conversado com ela, antes. Sentaram no sofá. Ele começou a contar tudo o que estava acontecendo com Tassiane. Rebeca perguntou se podia vê-la. Ele disse que não seria bom, porque ela não podia ficar nervosa. Rebeca falou que era muito importante e que queria tentar. Ele respondeu: — Ela sabe da gente! E morre de ciúmes. Rebeca perguntou, surpresa: — Como assim? Da gente? Não aconteceu nada! Ele respondeu, sem jeito: — Você nunca foi minha segunda opção. Não é o momento e eu não quero mexer com você, te dar falsas esperanças. Sei que nada vai mudar, mas, em outras circunstâncias, eu teria escolhido você. Minha primeira opção sempre foi você, Beca. Rebeca ficou sem reação, com os olhos se enchendo de lágrimas. Ele continuou falando, segurando na mão dela: — Aquele dia você disse que nunca foi a primeira opção de ninguém. Só por isso tô te falando. — Não tem nada de errado com você. Nem sua aparência ou de onde vem. Ela respirou fundo, tentando não chorar, e falou, levantando: — É, mas você escolheu ela e com certeza ela precisa muito mais de você do que eu. Não vamos mais falar disso! Preciso ver ela, me ajuda com isso, por favor. — Eu nunca fiz fofoca nenhuma. Ele falou que acreditava nela e ia tentar. Pegou o celular e ligou para Tassiane. Afastou-se para conversar. Depois voltou e disse que não dava para ir lá porque ela não estava bem, mas que ela aceitou se encontrar em outro momento e agradeceu por Rebeca querer visitá-la. Rebeca ficou nervosa, chorando. Falou que precisava ir pelo menos um pouco. Felipe ficou com o número do tio dela para poder falar com ela. Quando foram se despedir, ele perguntou se ela não ia mais estudar, tentou aconselhar ela a voltar. Rebeca falou que não, mas que estava tudo bem. Que ela queria viver de acordo com a própria realidade. Felipe confessou que quis procurá-la nos últimos meses, mas que não achou certo, especialmente porque ela não merecia aquilo e ele não ia saber ser só amigo dela. Ela ficou arrasada com tudo, com muita culpa por ter o dom da cura e o achar inútil naquele momento. Foi embora pensando em um modo de conseguir ver Tassiane. Parou na casa de Neto e ficou sentada na entrada, esperando ele chegar da academia. Quando ele chegou, perguntou o que tinha acontecido. Sentou perto e a abraçou, viu que ela estava triste, com os olhos vermelhos. Rebeca falou que não queria ficar sozinha. Ele a colocou para dentro. Ela ficou no quarto dele, encolhida na cama, sentada. Neto ficou cuidando dela, tentou fazê-la comer e não ficou perguntando nada. Assistiram filmes a tarde toda, ele preferiu não conversar, para mantê-la perto. No final do dia, Rebeca pediu o celular dele emprestado e ligou para Felipe. Ele falou que Tassiane tinha tido um aborto espontâneo. Aquilo acabou com Rebeca, pois ela não chegou a tempo, e a culpa a deixou completamente desestabilizada. Neto a acompanhou até em casa. Ele não foi capaz de entender por que ela ficou daquele jeito. Já que elas estavam brigadas. Quando entraram, Antônio estava a esperando, preocupado. Rebeca disse que estava triste pela amiga e foi tomar banho, Neto foi embora cheio de expectativas, de retomar o laço deles. Antônio ficou desconfiado, confrontou Rebeca, querendo saber o que ela tinha feito. Acabaram discutindo porque Rebeca falou que não fez nada, mas só porque não deu tempo, que se desse teria feito sem pensar duas vezes. E que aquele dom era inútil, se ela não pudesse ajudar as pessoas. Ele gritou com ela pela primeira vez, chamou-a de ingrata, jogou na cara dela que deixou de viver a vida dele pelo bem dela, proibiu-a de sair de casa, a colocou de castigo. Rebeca nunca foi de retrucar, mas naquele dia respondeu. Falou que talvez fosse melhor nem existir, já que a vida dela era insignificante, para todos. Começou a fazer perguntas, querendo saber quando ia conhecer os familiares, e mais pessoas como ela. Ressaltou que não pediu para ele se sacrificar. Antônio passou m*l por ficar nervoso, ele já passava dos cinquenta anos, bebia muito, fumava e não ia a médicos de jeito nenhum. Rebeca o ajudou, levou ele para a cama, ficou próxima o abraçando, se arrependeu por tudo o que falou, acabou o ajudando a melhorar, aproveitando que ele dormiu medicado. Pagou caro por isso, adoeceu já na madrugada, ficou dias de cama sem receber ninguém. Neto tentou vê-la, mas Antônio falou que ela não queria, disse que ela estava naqueles dias de mulher, deprimida, e, sem celular, não era tão difícil ficar incomunicável. De algum modo, aquilo a mudou, emocionalmente, curar Antônio conectou seus sentimentos aos dele, de uma maneira sobrenatural, transcendental. Não foi pouco, e ela só perceberia muito tempo depois. Rebeca voltou a trabalhar, e Neto estava trabalhando de verdade. Célio disse que já estava na hora de ele aprender a valorizar mais o dinheiro e batalhar pelas próprias coisas. Quando Rebeca voltou ao trabalho, conversaram um pouco, ela estava muito calada, revoltada com o mundo e ele nem se quer imaginava. Com o passar dos dias, tudo pareceu voltar ao normal, mas ela não se sentia mais assim. Ela ouvia ele sempre falando de estudar, entrar para a polícia logo, fazendo planos e aquilo a irritava profundamente. Por não conseguir sonhar igual. No fim de semana, chamou Neto para sair, ir a Arena Underground. Mentiu que ia dormir na casa dele e se trocou lá. Começou a usar lápis de olho, rímel e batom vermelho. O coturno não podia faltar, nem as calças jeans, que agora eram novas e marcavam o corpo, fazendo com que se sentisse mais mulher. Ela colocou um croped um pouco decotado, de alças, queria se encontrar, se sentir bem. Quando ele a viu arrumada, perguntou o motivo de tudo aquilo, ficou rindo deboche. Ela ainda pegou uma blusa dele. Neto disse que ela estava estranha no comportamento, porque ficou mais calada desde que tudo aconteceu. Às vezes, ela nem respondia, simplesmente o ignorava. Ela disse que estava e ia continuar mudando, assim como ele. Quando chegaram à Arena, não tinham muitas pessoas ainda, Aisha estava lá regulando o som, foram ficar junto. Neto começou a mexer no carro dela, a ajudando. Ela ofereceu bebida para Rebeca, perguntou porque ela sumiu. Neto respondeu tomando a frente. — Ela não vai beber. Aisha respondeu com deboche. — Ué, e ela não pode decidir sozinha Neto? — Você não pode decidir tudo por ela. Ele disse que era obrigação dele, sempre cuidar dela, Aisha ficou incomodada, por saber de coisas que Rebeca não sabia, continuou oferecendo bebidas. E a levou andar com ela. Rebeca estava extremamente calada, ficou observando a todos, admirando os carros e as corridas. Sempre que alguém perguntava se ela e Neto eram um casal, ele respondia com deboche: “Quem quer saber? Porque quer saber?" Aisha falava que eram, Rebeca dizia que não. Neto estava cada vez mais bonito. Era loiro alto, forte, corpo definido, um sorriso lindo e muito cativante, do tipo gente boa, sabia conversar com qualquer um. As meninas sempre ficavam de olho nele. Uma noite Aisha contou para Rebeca que, nas férias quando ela sumiu, ele andou ficando com algumas meninas, até mais velhas. E aproveitando o assunto, perguntou se Rebeca ficaria com alguém, já que ela dizia ser só amiga dele. Rebeca ficou extremamente decepcionada, com raiva, mas manteve a máscara de indiferente, disse que não tinha vontade de estar saindo com ninguém. Mas que se acontecesse, de conhecer alguém destoante, ficaria de boa. Como Rebeca era muito séria e calada, homem nenhum se aproximava, e os dois sempre ficavam muito juntos, Neto insinuava pelas costas dela, que eram um casal, amizade colorida. Rebeca tentou ir ver Tassiane, mas desistiu. Conversou com ela pelo celular de Neto, e a Tassi disse que podiam voltar a ser amigas, que se decepcionou muito com a rejeição dela, porque esperava aquilo de qualquer um, menos de Rebeca, que sempre foi defendida por ela. Conversaram bastante. Tassiane contou tudo, lamentou a perda. Queria demais aquele bebê. Também tentou convencer Rebeca a voltar a estudar, mas ela já tinha tomado uma decisão. Não queria mais aquilo para si. Neto havia terminado o colegial, estava trabalhando para valer e todos os dias, bem cedo, os dois iam para a rua com a Kombi, pegar reciclagem. Neto deixava Rebeca dirigir todos os dias. Iam tomar café da manhã na rua, comer em uma padaria e depois trabalhar. O pai dele estava o castigando um pouco. Neto estava guardando dinheiro para comprar o próprio carro. Rebeca também guardava dinheiro, mas não achava que conseguiria comprar um carro. Porém, era algo que queria muito. Antônio ficava maluco só de imaginar que Rebeca podia ser mais livre, independente. Ele não sabia como ela ia se comportar amadurecendo e tendo acesso à liberdade e independência dela. E tinha razão. Neto foi viajar para ver a avó, que estava r**m de saúde, e Rebeca não quis ir junto. No fim de semana quis sair, mentiu que ia à igreja e Antônio fingiu acreditar. Rebeca trocou de roupa no portão, saiu de calça jeans e camiseta discreta, por baixo usava um bory vermelho bordo frente única com as costas de fora. Foi a primeira vez que saiu sozinha assim e se deu conta de que não precisava de Neto tanto quanto imaginava. Já tinha conquistado o lugar dela no grupo e não se sentia a estranha, pois lá todo mundo era meio diferente e ninguém mexia com ninguém. Aisha não estava lá, Rebeca ficou mais de uma hora observando as corridas, ouvindo sobre as apostas.
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