Capítulo 18
Era o Ramon. Ele entrou, olhou com estranheza as duas deitadas próximas, falou que ia sair dali uma hora, perguntou se a Estela ia mesmo junto. Ela falou desanimada:
— Eu não sei, você vai me ajudar?
Ele disse que não. Ela falou, jogando um travesseiro nele:
— Então não vou te ajudar também, traidor.
Ele falou que não tinha como, que era pra ela sossegar um pouco e pensar no dinheiro. Ela falou:
— Você quer ir com a gente, Rebeca? Vai ser legal.
Ela disse que não. Ele respondeu irônico:
— Não? Mas você nem sabe onde vamos.
Ela falou que não importava. Ele apressou a Estela e saiu do quarto. Ela voltou a mexer nas coisas da Rebeca, falando:
— Você vai junto sim, vamos na boate, qualquer coisa é melhor do que ficar aqui com a minha mãe. Você tem celular, né?
Ela disse que sim, mas que quase não mexia. A Estela falou:
— Se você me emprestar, eu prometo que te ajudo.
Rebeca disse que não precisava de ajuda com nada. A Estela falou:
— Mas eu posso usar? Depois?
Rebeca disse que sim. A Estela começou a escolher as roupas, até se animou. Foi tomar banho, ficou escovando o cabelo depois. Quando a Rebeca saiu do banheiro, até a lingerie dela a Estela tinha separado.
Elas estavam se arrumando. A Rebeca colocou calça jeans, uma blusa de manga comprida com transparência nos braços, sandália de salto plataforma e jaqueta de couro, passou batom vermelho e maquiagem nos olhos, lápis e rímel. A Estela colocou vestido curto agarrado, meia arrastão e um sapato escarpim alto.
Quando estavam quase prontas, a Kim foi até o quarto com o Toni. Ele queria dar boa-noite para a Estela. Ela elogiou as duas, falou que era pra Estela ir pegar um casaco dela. As duas saíram juntas com o Toni.
Rebeca ficou deitada esperando. A porta estava aberta. O Ramon entrou e falou com ela:
— E aí, vai junto mesmo? Cadê a Estela?
Ela levantou, se aproximou dele e falou séria:
— Acho que sim, com tanta gentileza sua, como posso negar o convite, né? Ela foi pegar um casaco com a Kim.
Ele falou sério, encarando ela com um pouco de ironia, reparando em como ficava diferente maquiada:
— Já tomou seu remedinho hoje?
Sem entender, ela disse que não, porque ia sair. Ele respondeu:
— É claro que não. Anda logo, vamos indo, vou falar pra Estela encontrar a gente no carro.
Foram caminhando juntos em silêncio, enquanto ele mexia no celular, trocando mensagens. A Estela encontrou eles, falou puxando a Rebeca de canto:
— Pegou o celular?
Ela disse que sim.
As duas estavam rindo, cochichando. O Ramon falou:
— O que foi? São amigas agora?
Ele estava irritado com algo. As duas ficaram quietas, rindo.
Ele atendeu uma ligação, começou a discutir no telefone, cobrando alguém. Falou várias vezes que o problema não era dele, que ele não podia fazer nada.
Ele foi para a tal boate correndo muito, calado pensativo. Quando chegaram, ele abriu o porta-luvas, pegou uma arma e falou pra Estela:
— Entra e fica no caixa, fala com o Levi. Não sai de lá por nada, vou resolver umas coisas.
Ele desceu cheio de pressa. A Estela falou para a Rebeca:
— Vem, vamos logo.
As duas entraram logo atrás dele. A Estela foi falando com os seguranças, super íntima, rindo, brincando. Ela estava segurando a Rebeca pela mão. Parecia uma balada mas era uma boate de stripper, muita fumaça, som alto, luzes coloridas.
A Estela falou perto de um balcão:
— Fica aí, eu já volto. Não sai daí.
Rebeca estava meio perdida, encantada com o lugar, era luxuoso. Encostou no balcão, sentou no banco, olhou para o palco. Estava tocando "Options", de Hippie Sabotage, e tinha uma moça de cabelos cacheados dançando no pole dance, semi n.ua. Parecia fácil. Sutilmente ela deslizava seu corpo pela barra, descendo, subindo, girando.
Rebeca ficou olhando vidrada, m*l piscava. Quando a moça estava de cabeça para baixo, ficou alguns instantes virada na direção da Rebeca. Mesmo longe, o olhar delas se cruzou e a Rebeca sorriu, encantada com a apresentação e a dançarina. Ela não sabia, mas a Lara tinha notado ela lá e viu quando ela sorriu.
Estela se aproximou pelo lado de dentro do balcão e falou:
— Que cara de boba, nunca veio a uma boate ou é lésbica?
Rebeca falou sem tirar o olho do palco:
— O que você acha, ô sabichona?
A Estela falou irônica, rindo:
— Que não, caipira como é. Me empresta o celular?
Rebeca deu o celular, chegou a sorrir com o comentário m*****o. A Estela começou a trocar mensagens, falou pra ela:
— Posso confiar em você? Ou você é uma cadelinha do Noah também?
Rebeca falou com deboche:
— Eu mordo, mas não pelo Noah, só por vontade própria. Tá falando com ele, né? O Ayres?
Ela respondeu eufórica, com um sorriso bobo:
— Sim, eu sinto tanta falta dele. Às vezes acho que não vou aguentar!
A Lara saiu do palco. A Rebeca se virou de costas depois que perdeu ela de vista. A Estela estava bebendo uma bebida rosa, ofereceu para a Rebeca. Ela recusou. A Estela falou, dançando atrás do balcão:
— Você precisa aprender a se soltar, curtir um pouco. A vida é breve, sabe? Hoje estamos aqui, amanhã podemos não estar mais.
O Levi se aproximou delas pelo lado de fora e falou para a Estela:
— É assim que você vai trabalhar? Poooo, Estela, assim fica difícil.
— Depois as comandas não batem, eu que levo fumo.
Ela respondeu dançando ao som de "Heads Will Roll", de Yeah Yeah Yeahs:
— Aí, vê se não enche o saco, tá com inveja, né? Se você beber, o seu gerente te morde.
Ele deu risada e falou para a Rebeca:
— Oi, sou o Levi, lembra?
Ela respondeu séria:
— Sim, Rebeca!
Ele falou para as duas:
— De onde tiraram ela? Dá pra ver de longe que não é como a gente. Tá fazendo o que perdida aqui, Rebeca?
Rebeca falou com deboche:
— Ahh, estou tentando me encontrar. Sou tão estranha assim? De longe já se nota que sou um peixe fora d'água ou só notou de perto?
Lara se aproximou por trás dela, ouviu tudo e falou, parando bem perto, no meio do Levi e da Rebeca:
— De longe já se nota. Oi, tudo bem?
Rebeca sorriu, falou olhando ela inicialmente nos olhos e depois desviando o olhar desconfortável:
— Oi, tudo, e você? Sou a Rebeca!
Lara falou séria, ainda encarando ela com um olhar profundo, penetrante:
— Sou a Lara, prazer em te conhecer. Você é muito linda, de longe eu já te vi. Estava me assistindo?
A Estela se afastou para ir atender clientes.
A Rebeca ficou vermelha de vergonha, falou sem jeito:
— É, eu vi você dançando, é bem legal. Parabéns!
Super constrangida com o jeito intimidador da Lara, a Rebeca m*l conseguia olhar pra ela, Lara era branca, cabelo escuro cacheado volumoso na altura dos ombros, olhos verdes, maquiagem carregada muito bem feita e o cheiro do perfume era amadeirado e forte.
Lara sorriu, agradeceu e falou pra Rebeca, chegando mais perto:
— Vou voltar pra lá, adorei te conhecer, linda!
Ela estava claramente flertando e a Rebeca ficou na dúvida se tinha entendido errado.
A Lara voltou para o palco. Assim que subiu, fez questão de olhar para a direção da Rebeca. Começou a dançar ao som de "That's All She Wrote", de 2Pac, Eminem, Nipsey Hussle & T.I. Era difícil não olhar. Rebeca ficou encantada, olhando todo o tempo.
A Estela falou que lá era uma boate de luxo, onde só se entrava com nome na lista. Disse que iam políticos, gente muito bem de vida, que queria curtir, dançar, se divertir, com segurança, sem qualquer tipo de baderneiro por perto.
Rebeca falou:
— Aqui é lindo demais, e aquela lá, quem é?
Estela virou o copo de bebida e respondeu:
— É a Lara, ela é do nosso clã, dança quase toda noite. Não é tão legal, ela escolhe com quem ser. O Ayres não suportava ela. Adoro ver ela dançando, eu achava que ela tinha algo com o Ramon, mas nunca tirei a dúvida.
— Sei lá, ele é outro chato, come na mão do Noah! Ele é gerente aqui, na verdade ele é o braço direito do Noah. Não se deixe enganar, às vezes ele parece legal, mas ele só pensa nele.
— Se tiver que te ferrar, ele vai. Se puder te entregar ao Noah, ele vai. Entende? Somos uma família, mas na realidade é cada um por si. Eu amo a Kim, mas não sou família dela de verdade.
— Somos inferiores, eu, você, minha mãe, até o Levi que é um grude com ela. Se tiverem que escolher, somos os primeiros a rodar.
Rebeca prestou atenção em tudo, não disse nada. Ficou sentada a noite toda, só observando a todos.
O Ramon apareceu depois, estava com outra camiseta, já era de madrugada. Ele falou para a Estela:
— Você consegue ir embora sozinha?
Ela disse que sim, perguntou se estava tudo bem. Ele falou muito sério:
— Não confio em você, em vocês duas, na verdade. Vou chamar alguém pra levar vocês embora! E Estela, se você fizer qualquer besteira na minha responsabilidade, eu vou atrás dele. Estamos entendidos?
Ela não gostou, falou chateada:
— Ahhh, virou minha babá? A hora que eu quiser, não vai ser você nem suas ameaças que vão me segurar!
Ele chamou atenção dela. Ela continuou respondendo sem abaixar a cabeça. Ele foi muito grosso, puxou ela pelo braço pra fora do balcão e disse que não ia pagar nada pela noite. Falou do Ayres, que ela estava iludida, vivendo uma mentira. Disse que ele a abandonou facilmente. Gritou mandando um segurança levar as duas embora.
Ela foi embora chorando, revoltada com a vida. Falou que com certeza ele trocou de roupa, porque foi bater em alguém. Disse que ele era muito violento.
Ao chegarem na fazenda, foram direto para o quarto. A Estela falou deitada, chorando:
— Eu juro que não vou ficar tolerando ninguém me tratando assim. Nem minha mãe ou o Ramon. Ninguém! Eu vou embora, nem que isso custe a minha vida.
Rebeca se aproximou, sentou perto, abraçou a Estela, ficou perto até ela dormir. Ela nem sabia o que falar, era difícil entender aquela "família".
Na manhã seguinte, a Rebeca acordou mais tarde. A Estela tinha deixado um bilhete falando que estava na piscina, deixou um desenho como mapa, um maiô e uma saída de praia em cima da cama.
A Rebeca colocou um vestido florido soltinho, saiu procurar por eles. Estavam na piscina, Eleonora, Toni, Kim e Estela. Ele falou animado:
— Ela veio! Rebeca, vem nadar com a gente.
Ela deu bom dia, falou que não estava vestida pra nadar. A Kim falou:
— Bom dia, bela adormecida. Vai pôr biquíni, esse sol tá uma delícia. Quero saber da noite de vocês, hein? Se der coragem, hoje vou junto!
A Rebeca sentou perto, disse que não gostava muito de água, comentou que tinha achado a boate linda.
A Eleonora ofereceu as coisas que estavam lá na mesa pra Rebeca tomar café. Ela disse que gostava de café preto mesmo. A Kim falou que era pra ela ir na cozinha pegar, explicou onde era.
Ela foi sozinha. Quando estava procurando um copo nos armários, o Noah entrou, falou bom dia. Ela disse que queria um copo, pediu ajuda por favor. Ele pegou e perguntou como foi a noite. Ela disse de costas pra ele:
— Normal.
Ele estava encarando ela, falou curioso, com muita vontade de conversar mais com ela:
— Normal? Só isso? Não gostou?
Ela o encarou e disse séria:
— É, o Ramon sendo um grosso, um monte de gente estranha, coisas que eu nunca vi. Como eu disse, normal.
Ele perguntou se o Ramon foi grosso com ela. Quando ela ia responder, o Ramon entrou na cozinha e falou bom dia. Ela falou olhando o Noah:
— Não, comigo não. Bom dia!
Ele se aproximou dela conversando com o Noah. Ela viu que a mão dele estava muito machucada, ficou olhando. Ele falou sério:
— O que foi? Está olhando o que?
Ela respondeu cínica, com pouco caso:
— Nada, só estava imaginando como ficou o rosto da outra pessoa.
Ele perguntou se ela queria ver. Os dois começaram a rir. Ela ficou séria, saiu da cozinha e nem disse nada.
O dia todo ela ficou com o Toni e a Estela, fizeram cabana de lençol, caçaram minhocas. No final do dia, a Eleonora foi chamar o Toni pra ficar com ela. Disse que a Estela ia sair trabalhar. A Rebeca perguntou se ela queria ir, ou se não tinha opção. Ela falou que gostava até, foi se arrumar. A Rebeca não quis ir junto.
Ficou com o Toni e deu banho nele. Enquanto ela foi tomar banho, ele ficou no quarto dela esperando.
A Kim estava indisposta com cólicas fortes, nem saiu para jantar, e o Noah ficou no quarto com ela.
Jantaram juntos só a Toni, a Rebeca e a Eleonora. A Iolanda estava por perto, mas não quis comer junto. O Manoel tinha ido viajar.
Depois de terminarem, a Iolanda foi limpar tudo sozinha. A Eleonora chamou os dois pra assistir.
Logo o Toni dormiu. A Rebeca disse que ia pôr ele na cama. A Eleonora falou:
— Não, espera um pouco. Eu quero conversar com você! Não tivemos oportunidade ainda.
Um pouco tensa, a Rebeca falou que tudo bem. A Eleonora falou apreensiva:
— Acho que você não quer falar do que aconteceu naquela noite, mas eu preciso saber por você. Eu sou mãe e só quero entender, quero justiça pra minha filha! Você poderia me contar? Tudo?