Capítulo 55

1529 Words
Capítulo 13 Ela ficou tensa, nunca sabia o que esperar deles. Levou o Toni para o quarto dele. Deu pra ouvir a Kim gritando com o Noah, dizendo que não tinha o que fazer, que ele devia ter pensado naquilo antes. Deu pra ouvir ele pedindo pra ela falar baixo. Ela falou até palavrão e continuou gritando. O Toni entrou para tomar banho todo preocupado, perguntou se eles estavam brigando. Rebeca falou: — Não sei, acho que estão conversando sobre trabalho. Coisas chatas de gente grande! Não liga pra isso não. Ele estava querendo chorar, falou que queria a Kim. Ela respondeu: — Ela já vem. O que você acha da gente ver um filme? O que você gosta de fazer antes de dormir? Ele falou chorando, sentando no chão embaixo do chuveiro: — A Estela lê pra mim, eu quero ela. Você não precisa ir embora, pode ficar, mais eu quero a Estelinha. Ela se abaixou e falou que a Estela ia voltar logo. Ele falou em inglês, bravo: — Você tem que ir embora, odeio você. — Quero a Estela aqui, não você, vai embora. Ela não entendeu, mais soube que coisa boa não era. Perguntou se ele não queria falar direito, pra ela entender e tentar ajudar. Ele ficou chorando, ignorando ela. A Kim entrou no banheiro, falou muito séria: — Vai lá, o Noah está esperando. Depois pode ir descansar, eu fico com ele! Rebeca falou chateada: — Desculpa, ele está pedindo a Estela. Kim falou que estava tudo bem, que ia cuidar dele. Com medo, Rebeca foi até o escritório. A porta estava aberta. Ela entrou devagar, parou perto da porta. O Noah estava com uma cara péssima, parecia que tinha chorado. Falou pra ela fechar a porta e se aproximar. Ele levantou, encostou na mesa, próximo à cadeira, falou pra ela sentar. Perguntou se ela não tinha mesmo nada pra contar, sobre a Aisha, algum segredo delas, alguma promessa, qualquer coisa, mesmo que mínima. Ela disse que já havia falado tudo. Ele respondeu: — Se eu descobrir que você está mentindo, isso terá consequências. Escuta bem o que vou falar, Rebeca. — A minha irmã estava grávida e foi morta por alguém em quem ela confiou, com certeza alguém próximo a nós, à família, já que ela estava há bastante tempo sem ficar saindo por aí. — Se quem fez isso foi visto por você na boate e imaginar que você pode se lembrar e o reconhecer, vai fazer o mesmo que fez com ela. O médico dela confirmou a gravidez. — Você sabe se ela ainda estava saindo com aquele rapaz? O Júlio? Pelas semanas talvez pudesse ser dele, eu não sei. Ela estava chorando, falou com receio: — Eu não sei. A última vez que vi os dois perto, ela comprou camisinha. Faz muito tempo que eles não ficam. Ele fez algumas perguntas, contou sobre o laudo do legista. Ela descreveu com riqueza de detalhes como foram as últimas vezes em que viu a Aisha antes de tudo acontecer. Noah foi sentar atrás da mesa e falou: — Você não sabe, né? Não faz a menor idéia? Ela levantou os ombros, franziu a testa, tipo "não sei". Ele continuou falando muito sério: — É por isso que eu sempre achei que você era boa demais pra ser amiga dela, o mundo e a vida de vocês não tinham nada a ver. A Aisha era diferente, um pouco temperamental e egoísta. — A vida toda eu passei tentando mostrar que amava ela. Se meu pai era um pouco diferente, isso era coisa dele. Eu nunca esqueço quando ela chegou em casa. Quando eu era pequeno, fiquei louco com a novidade, passei a noite toda ao lado dela, querendo cuidar. Não entendia por que minha mãe estava tão triste, achava que era um presente pra gente, o bebê. — Você ainda vai ter oportunidade pra conhecer minha mãe melhor, ela não fazia distinção da gente. Na verdade, o cuidado com a Aisha era maior ainda. Ela sempre teve e deu problemas. — Desde criança aprontava, fugia, matava aula, só andava com gente que era muito perdida. Quando ela tinha quatorze, quinze anos, sumiu por semanas, não levou nada além da roupa do corpo. — Voltou como se nada tivesse acontecido. Depois desse sumiço não era mais virg.em e mudou o jeito de ser de uma maneira estranha. — No começo, ela estava extremamente feliz, nem os castigos dados mudavam aquilo. Até hoje ninguém sabe onde ela foi e com quem esteve. — Depois do aniversário dela, que quase causou um divórcio aqui em casa, ela mudou. No dia seguinte ficou deprimida, depois começou a beber e usar drogas. Meu pai cansou de brigar, de tentar ser mais amoroso. — Ela ficou muito revoltada, ficou anos sem falar comigo. Parecia que eu tinha feito algo e ela me odiava. Um dia cheguei no meu limite. — Ela estava sempre me enfrentando na frente das pessoas, faltando com respeito, passando de qualquer limite. Dei um tapa nela e ela falou: "me mata, é muito mais fácil, quer me ajudar, acaba com isso tudo". — Eu não conseguia entender. Ela tinha de tudo, eu m*l via ela. Decidi me afastar mais ainda. Só voltamos a conversar quando ela arrumou aquele namorado. Ele era incrivelmente normal, tinha um trabalho meia-boca, morava com os pais, não era bem de vida e, quando me viu pela primeira vez, lá na Arena, eu fiquei de longe encarando, vi que estavam discutindo. — Ele se aproximou e foi se apresentar pra mim. Disse que queria me conhecer e que não ia se afastar dela por minha causa. Achei legal o modo dele me enfrentar, aproveitei a oportunidade pra tentar me aproximar dela, mesmo ela falando que não me suportava, garantindo pra ele que eu ia fazer algo r**m. — Ele fazia muito bem a ela, eu nunca ia me meter no meio. Ela voltou a ser como antes. Às vezes iam na boate, ficavam em casa, minha mãe dava liberdade para os dois. Um pouco antes do acidente, algo mudou. — Ela foi sozinha conversar comigo, pareceu estar com medo, tentou se aproximar de mim. Achei estranho, falei que ia cuidar dela, apoiar sempre. — Não sei se ele queria terminar, não tive tempo de descobrir. Ela começou a desandar um pouco, brigar com ele e aconteceu o acidente. Naquela noite eu estava fora, viajando, e ela sabia. Ele faleceu e ela quase. Rebeca estava chorando e ele também. Ela disse que a Aisha nunca contou sobre o acidente, que só disse que amava muito um ex. O Noah continuou falando: — Disso não duvido. Mas depois do acidente ela mudou, pra pior. Achei até estranho essa amizade de vocês. Ela estava andando com o meu pessoal, fazendo coisas, participou de roubos grandes, viagens, festas. — Você sabe que eu faço todo tipo de coisa errada, não vou mentir pra você. Essas coisas que minha irmã dizia são todas verdade! Rebeca, ela criou um escudo pra não poder amar, pra ser sempre sozinha. Acredito que por isso fez o que fez, pra te afastar. Ela estava ainda sem entender, perguntou o que a Aisha fez. Ele respondeu sério: — Ela ficou com seu amigo, mas pelo jeito ele não teve coragem de te contar. Eu tive acesso a tudo no celular dela, posso te mostrar! Desacreditada, Rebeca balançou a cabeça que não, achou impossível ser real. Ele continuou falando que ficaram várias vezes escondidos, que ele só estava contando pra ela ver do que a Aisha era capaz e tentar chegar ao culpado pela morte dela, que o Neto não era suspeito, nem o Júlio, mais que os segredos da Aisha estavam protegendo o verdadeiro assassino. Ele deu algumas folhas nas mãos dela, com as conversas impressas. Transtornada, ela olhou por cima, com os olhos embaçados, ficou arrasada. Aquilo a machucou de uma maneira diferente, visceral. Ela falou, levantando: — Eu já te disse tudo o que sei. Posso ir? Ele disse que sim. Ficou sentado, olhando ela sair da sala devastada, suspirou com ódio, esfregou o rosto e se perguntou, o que estava acontecendo, dentro da sua cabeça. Sua vontade era de abraçar, proteger e consolar Rebeca, de tudo e todos. Mas ele sabia que não podia, era necessário manter uma distância segura. Ela desceu as escadas transtornada, foi para o quarto, sentou no chão, ficou encolhida, chorando por horas, se sentindo usada e ingênua, cansada de ser tão cega e boba com todos. Achou que Aisha foi falsa, o tempo todo. Enquanto isso, o Noah ficou olhando ela pela câmera, monitorando o celular dela pra ver se ela ia falar com o Neto. Já era tarde quando ela foi tomar banho, colocou um conjunto de moletom e foi para a cozinha tomar os remédios, estava com muita dor de cabeça, nervosa. Ao chegar lá, ela desistiu, deixou em cima da mesa. Tudo estava quieto, as luzes apagadas, aparentemente todos dormindo. Ela foi para a sala, sentou no chão perto da porta de vidro, ficou olhando para o quintal com o pensamento distante, se odiando por ter sido tão ingênua.
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