Capítulo 52

1701 Words
Capítulo 10 Estava tudo escuro e ela não sabia onde acender a luz da sala ou do quintal. Se aproximou perto da porta, ouvindo barulho de água. Quando ela decidiu ignorar, achando que eram os cachorros, viu no chão, perto da porta ao lado de fora, as pantufas do Toni. Então notou que a porta estava aberta com uma fresta pequena. Se ela chamasse por ele ou pela Estela, ia chamar a atenção dos cachorros. Não deu tempo de pensar em muita coisa. Abrindo a porta, deu pra ouvir e ver que tinha alguém se mexendo na piscina. Em silêncio, morrendo de medo dos cachorros, ela saiu pra fora na ponta do pé, andou um pouco e a luz se acendeu sozinha com o sensor de movimento. Deu pra ver o Toni se afogando na piscina, mais não só isso. Assim que as luzes iluminaram tudo, os cachorros viram ela de longe. Foi questão de segundos. Ela teve que escolher entre voltar para dentro ou ir ajudar o Toni. Ela olhou para a direção do portão. Os cachorros estavam vindo correndo, para atacar. Ela decidiu fazer a coisa certa. Correu o mais rápido que pôde e pulou na piscina para pegá-lo. Assim que ela entrou, os cachorros alcançaram, ficaram na borda ameaçando morder, avançando, querendo entrar. O Toni estava desacordado. Só deu tempo dela segurar ele e, com medo dos cachorros, ficou no meio da piscina tentando se proteger. Foi tudo muito rápido. Um assobio alto ecoou no quintal. Era o Ramon. Os cachorros silenciaram e se afastaram. Ela gritou: — Me ajuda, rápido. Vem aqui. Ele se aproximou correndo. Ela foi até beirada e deu o Toni pra ele, falou nervosa chorando assustada. — Ajuda ele, faz alguma coisa. Ramon começou os primeiros socorros para afogamento. Saíram correndo de dentro da casa: Ayres, Estela e Iolanda, sem entender o que estava acontecendo. O desespero tomou conta de todos. Toni despertou tossindo a água, bastante indisposto, chorando chamando a mãe. Rebeca estava ajoelhada perto, chorando, assustada. Estela era quem mais chorava. Quando ele "melhorou", a Iolanda falou que precisavam ir para o hospital. Foram entrando todos juntos. Ela falou para a Rebeca, alterada: — O que aconteceu? Fala logo! Saiu com o menino a noite sua idi.ota. Ela estava chorando pelo susto, falou que levantou para tomar água e viu ele lá. Iolanda gritou: — E o que o menino estava fazendo lá fora sozinho? Vocês duas estão aqui pra cuidar dele, alguém pode me explicar como uma criança sai no meio da noite podendo se afogar e vocês não veem, suas idio.tas? Rezem muito porque quando a Kim souber disso nem eu vou poder ajudar vocês! Iolanda foi subindo pegar os documentos de Toni, Ramon foi para o carro com ele, Ayres correu pegar as chaves e uma camiseta para Ramon. Muito nervosa, Estela sentou na sala, Rebeca ficou parada olhando o quintal. Ayres entrou, abaixou na frente de Estela e disse que já era hora de todos saberem, que ela não teve culpa. Ela respondeu alterada: — Como não, seu idi.ota? Era pra eu estar dormindo com ele, sabe o que vai acontecer agora, né? — Você não sabe do que eles são capazes. O Toni é tudo pra ela. Se eu não sou capaz de fazer isso, uma coisa simples, não sirvo. Sai da minha frente, Ayres! Rebeca ouviu, estava indo para a cozinha, toda molhada, tremendo de frio. Logo atrás, a Estela foi indo, discutindo com o Ayres, dizendo que ele vivia uma realidade diferente e que ela não queria continuar com aquilo, porque não ia chegar a lugar nenhum. Ele estava tentando acalmar ela, disse que ia falar com a Kim porque a Iolanda não podia mandar para sempre na Estela, que iriam embora se preciso fosse. Rebeca entrou no quarto, foi para o banheiro se sentindo m*l, com dor de cabeça forte e enjoo. Ela sabia o que estava acontecendo. Ao se dar conta de que novamente podia adoecer, por ter ajudado o menino, ficou se olhando no espelho, pensando que podia ser o seu fim. Os sintomas de afogamento, combinados com a recuperação da pneumonia e da saúde dela, podiam ser fatais. Ela se perguntou se realmente importava continuar viva ou não. Entrou para tomar banho e, quando saiu só de toalha, porque não deu tempo de levar roupa para o banheiro, encontrou a Estela sentada na cama, chorando. Ela evitou olhar, foi pegando uma roupa pra vestir. A Estela falou: — Eles foram para o hospital. Obrigada por ter ajudado ele! Rebeca ficou quieta, foi se vestir no banheiro, acabou vomitando bastante. Estela bateu na porta, perguntou se ela queria alguma coisa, se estava bem. Rebeca só disse que não precisava de nada. Quando saiu, a cama dela estava arrumada. Estela falou: — Você não entende, como as coisas são aqui. Eu cuido do Toni há muito tempo, eu o amo tanto que chega a doer só de imaginar que podemos ser separados. A vida aqui é boa, tenho de tudo, mas não é fácil. Com ironia, Rebeca falou: — É, eu não entendo. Sociopatas não sentem essas coisas comuns como a maioria das pessoas. Amor, dor, medo, insegurança, tristeza. Estela respondeu: — Você não é assim. Olha, eu tenho vinte anos, moro na casa dos outros desde sempre, trabalho servindo os essa família, desde sempre e minha mãe nunca pareceu uma mãe de verdade. Ela não gosta de mim e eu não sei nem o porquê. O Toni me deixa confusa, eu o amo e nem somos família, enquanto minha mãe me deu à luz e não me ama! — O Ayres foi a melhor coisa que me aconteceu. Desde que começamos a nos envolver, eu passei a ver a vida com outros olhos. — Quando você está amando, um simples olhar, um sorriso muda o seu dia, você fica com a boca seca, as mãos geladas, o rosto corado, o coração dispara só de imaginar como é estar com a pessoa e, quando tem a oportunidade, nada mais importa. Mesmo que seja rápido, escondido, não dá pra controlar. — Não sei se você já viveu algo assim, um amor ou uma paixão. Eu só queria ser normal, Rebeca, ter a minha vida, poder fazer as minhas escolhas, construir a minha família. Elas estavam sentadas, uma em cada cama. Rebeca falou que não ia contar nada a ninguém. Estela falou, olhando para a câmera do quarto: — E nem precisa, eles vão ver que eu saí do quarto e deixei o Toni sozinho. Provavelmente agora só você vai cuidar dele. Sei que não leva muito jeito com criança, mas você é boa. — Se arriscou e salvou a vida dele. Sabe o que poderia ter acontecido se os cachorros te pegassem? A essa hora estariam vocês dois no hospital, talvez ambos mortos. Estela deitou chorando. Rebeca ficou quieta. Levantou, foi para a cozinha, tomou leite quente, se confrontando sobre o que queria pra si. Imaginando que se a fama de Noah, não era boa, todos ali eram envolvidos com coisas erradas. Ela foi sentar na sala, ficou no chão com os joelhos dobrados, abraçando as próprias pernas, perto da porta de vidro. A Nora estava no quintal. Quando a viu, se aproximou devagar e deitou perto, encostada na porta ao lado de fora. Por horas, madrugada adentro, Rebeca ficou lá em silêncio, sozinha. Viu o dia clarear e o sol nascer. A Nora amanheceu lá também. Quando o sol começou a bater na sala, sem querer Rebeca pegou no sono com a cabeça apoiada nos joelhos. Ramon chegou com a Iolanda bem cedo, sem o Toni. Entraram pelos fundos em silêncio. Ele já tinha visto a Rebeca pelas câmeras a noite toda sentada lá. Quando chegou, foi direto na sala, procurar por ela. Se aproximou em silêncio, viu que ela estava dormindo. Com muito cuidado, a pegou no colo. Ela quase nem se mexeu, estava muito cansada. Ele a levou para o seu quarto, porque no quarto dela a Iolanda estava conversando com a Estela. Ele colocou Rebeca na cama. Ela despertou um pouco assustada. Ele estava muito próximo. Falou, se afastando: — Calma, eu te trouxe pra deitar aqui, tenta dormir. A Iolanda está no seu quarto com a Estela! Ela respondeu sonolenta esfregando os olhos: — O Toni está bem? Ele disse que sim, que o deixou com a Kim no hospital. Falou que era pra ela tentar descansar. Ela virou de lado, voltou a dormir. Ele a cobriu e saiu do quarto. Estela estava apanhando, levando uma surra. O Ayres estava no quarto dele ouvindo e saiu pra ir se meter, defender ela. Ramon não deixou. Disse que já tinha avisado aos dois no que aquilo ia dar, e ele também não gostava, mas não podiam ajudar a Estela. O Ayres estava chorando de raiva, de Iolanda. Foi para o canil, decidido a sair do emprego e ir embora com a Estela. Depois de humilhar e maltratar muito a Estela, a Iolanda saiu de novo, voltou para o hospital. O Ayres correu para ir ver a Estela, falou que queria ir embora com ela. Ramon estava junto no quarto, ajudando ela com os machucados. Ela falou cética: — Se você quer mesmo me ajudar, Ayres, se afasta e esquece de tudo. Antes de você aparecer, tudo estava bem e agora olha pra mim. Você estraga tudo o que toca, nem sua família te quer por perto, você não tem nada nem ninguém. Me iludiu com suas palavras bonitas, brincou comigo. Eu vou embora daqui. Por sua causa, vou ficar longe do Toni. Não quero nunca mais falar com você. — Olha pra mim, isso é culpa sua, tá vendo? Não esquece. Quero que lembre disso quando pensar em mim, no meu rosto desfigurado dessa forma, por sua culpa! Ele estava chorando, saiu do quarto sem dizer nada. Ramon falou pra ela: — Você não precisava ter feito isso. Ele gosta de você, de verdade! Ela respondeu chorando: — É, e eu também o amo. Por isso preciso deixar ele ir. Minha mãe fez várias ameaças, não quero pagar pra ver. Eu prefiro morrer do que o colocar em perigo!
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