Capítulo 20 corrigido

1539 Words
Capítulo 20 Ela acordou com Noah a chamando. Ele estava abaixado, segurando-a, e perguntou o que tinha acontecido. Ela falou, levando a mão ao nariz: — Eu tô bem! Não foi nada. Tentou levantar, e ele a ajudou. Falou que ela ficou apagada lá bastante tempo e que uma funcionária a encontrou. Ela foi à pia se limpar. Ele estava confuso, preocupado, perguntou se ela queria chamar alguém ou ir para o hospital. Ela falou que não precisava e pediu para ir embora. Muito atencioso, Noah ficou próximo amparando ela, deu papéis, e pediu uma garrafa de água ao rapaz que estava na porta. Ela estava pálida, calada, ele foi andando próximo a ela, abriu a porta do carro, colocou o cinto de segurança nela. No caminho, perguntou se aquilo sempre acontecia e já falou, afirmando, que ela não tinha cara de quem usava pó ou qualquer outra coisa. Rebeca falou que nem sabia como se usava, mas que aquilo era normal de acontecer. Mentiu. Aquilo nunca tinha acontecido antes, não tão forte, e ela já imaginava o porquê! Chegando ao portão do centro de reciclagem, ele desceu do carro para ajudá-la. Neto estava lá no quintal esperando ela, furioso. Saiu para fora muito alterado quando ouviu o carro de Noah, viu que Rebeca não estava bem. Chegou pegando nela, tirando-a de perto de Noah, puxando pelo braço. Perguntou o que ele tinha feito para ela estar daquela forma, insinuou que estava drogada. Rebeca falou que não tinha sido ninguém, tentou falar que estava indisposta. Neto largou ela, começou a acusar Noah de ter feito aquilo, chegou a empurrá-lo o mandando ficar longe dela. Rebeca ficou no meio, com medo de eles brigarem. Era lógico que Neto ia levar a pior. Noah se irritou com as acusações e a grosseria, mas não partiu para cima. Começaram a discutir no portão, Noah ficou debochando dizendo que ia continuar saindo com ela, quantas vezes ela quisesse. Rebeca estava sentindo que ia desmaiar de novo. Estava chorando, nervosa por causa dos dois, pedindo para pararem. Estava mais perto de Neto. Só deu tempo de segurar no braço dele e falar: — Ele não fez nada, para, por favor, eu não tô bem. Foi desfalecendo e apagou. Neto a pegou no colo. O tio dela estava saindo para ver, Célio também. Todos lá ouviram a gritaria. Noah começou a contar o que aconteceu. Disse que Rebeca estava bem, aparentemente normal, quando foi ver Aisha, mas que depois começou a passar m*l e desmaiou uma vez. Todos estavam nervosos. O tio dela não fez muitas perguntas. Falou a Noah que estava tudo bem, como quem acreditava nele e na história toda, agradeceu. Noah se ofereceu para levar ela ao hospital. Célio disse que não precisava e correu para pegar o carro. Agradeceu a Noah, e ele foi embora preocupado, sem entender, achando que ela era doente, com algo tipo câncer. Rebeca acordou no caminho para o hospital. Neto estava com ela no banco de trás. Perguntou se ela tinha usado algo ou bebido. Disse que deviam ter drogado ela. Rebeca falou que não e pediu a mão dele. Ele estava apavorado e com raiva. Chegando ao hospital, ele entrou como acompanhante, por ser maior de idade e ela menor. Começaram a examiná-la, fizeram exame de sangue. Rebeca virou uma “atração” porque estava com a hemoglobina e a quantidade de hemácias muito alteradas. Deram medicação na veia, e a médica disse que, se não tratada, o quadro dela poderia piorar. Ela estava com anemia forte. Nunca foi de comer muito e nem de ir ao médico, então pareceu normal. Quando perguntaram dos sintomas, falaram que ela não era de reclamar por nada. Vendo aquele histórico um pouco duvidoso, a médica pediu para conversar sozinha com Rebeca. Fez uma série de perguntas de todos os tipos, até íntimas. Recomendou que ela ficasse em observação e disse que só uma mulher poderia ficar de acompanhante. Como não tinha ninguém próximo, Rebeca garantiu que ficaria bem sozinha. Neto ficou revoltado porque queria ficar. Antes de ir embora, o tio dela estava sozinho com ela e começou a falar que ela era i****a, insolente, descuidada. Perguntou o que ela tinha feito, por que tinha feito. Rebeca falou que não sabia direito o que aconteceu. Ele respondeu, bravo e triste ao mesmo tempo: — Eu já te expliquei, por isso você deve ficar sozinha, não se apegue às pessoas, Rebeca. Sua mãe foi tola como você e por isso você vive comigo hoje, não te serve de lição? — Todos esses anos da minha vida venho me dedicando a te proteger! Mas, se você não colaborar, eu não posso te ajudar. Você não é mais criança, minha filha! Ela começou a chorar e falou baixinho: — Desculpa, eu sei, o senhor tem razão. É que eu não sabia, ela só estava indisposta e foi muito rápido! Ele interrompeu, dizendo que lá não era lugar para conversar sobre aquilo. Perguntou se ela ou alguém tinha percebido algo. Rebeca garantiu que não. Ele só adiantou que achava melhor se mudarem para longe, mas que seria difícil e ele ia precisar falar com algumas pessoas antes. Eles foram embora. Rebeca ficou lá sem nenhum pertence pessoal ou de higiene. Estava só de lingerie e aquela camisola horrível de hospital. Ficou se sentindo muito culpada, triste e com uma sensação horrível de m*l-estar, enjoo. Aquilo não passava mesmo tomando medicação na veia. Um tempo depois, a enfermeira foi até ela com uma mochila que Rebeca reconheceu de cara. Era de Neto, com coisas dela dentro: roupas, sabonete, escova de dente. A enfermeira falou que o amigo dela pediu para avisar que ia ficar lá na recepção, que não podia entrar, mas que não ia para casa e deixá-la sozinha. De alguma maneira estranha, aquilo foi reconfortante e triste ao mesmo tempo. Rebeca sempre gostou dele. Como podia não gostar, afinal? Era como alguém da família, seu melhor amigo também. Por ser diferente, “especial”, ela já cresceu sabendo que podiam ser prejudicados por causa dela, todos de quem se importasse. Com todos que eram como ela, não foi muito diferente. A cada geração que nascia uma criança especial, a história se repetia como um ciclo inquebrável. Na melhor das opções, o que acontecia era que “eles” morriam para salvar alguém que era muito amado. Não era algo bom de fato, mas, com certeza, escolher isso era melhor do que ser usado até a morte para ajudar pessoas que nunca se importaram, que tomavam à força o dom deles e matavam seus familiares quando não eram capazes de compreender que aquilo não funcionava para sempre. E foi assim que Rebeca foi forçada a crescer longe da própria família, pelo bem de todos. Pelo menos era o que Antônio dizia. Ela não conseguiu dormir nada. Ficou pensando muito em tudo e decidiu se afastar um pouco de Neto e Aisha. No dia seguinte, ficou sozinha o tempo todo até de noite. Só começou a se sentir melhor mais à tarde. Quando o tio chegou para visitá-la, entrou sozinho. Estava muito preocupado com ela. Não deu para conversar muito, mas Rebeca falou que ia voltar a ficar sozinha e que nunca mais ia fazer aquilo de novo. Quando Neto entrou, aproximou-se e deu um abraço apertado nela. Falou que ficou com medo de perdê-la, que nunca se sentiu daquele jeito desde que a mãe morreu. Rebeca ficou quieta, não sabia o que falar. Ele contou que Aisha tinha ido à casa dela procurá-la e que prometeu deixar as duas conversarem pelo celular dele. Rebeca falou que não queria. Ele ficou intrigado, querendo entender o que aconteceu de fato. Ela falou que não estava se sentindo bem, para encurtar o assunto, mas que nada tinha acontecido. Contou que tinha ido e voltado da casa dela com Noah. Ele perguntou se ela estava ficando ou se tinha ficado com Noah, talvez para se vingar, e disse que ele não era alguém legal. Rebeca falou, chateada: — É que eu não posso ficar com alguém por vontade própria, né? E ninguém vai se interessar por mim de verdade, porque todos só se aproximam pra me usar, magoar. Incluindo você! Ele respondeu sério: — Não é isso que eu tô falando e eu gosto de você, pra valer. Só quero o seu bem! Vamos voltar a ser como antes, por favor? — Se afasta desse cara. Rebeca ficou quieta e deitou de costas, para ele não vê-la chorando. Nem falou tchau. Não quis se despedir dele. Ainda ficou internada, porque a fama de pobre coitada chegou à assistência social do hospital também, e eles estavam tentando protegê-la, ajudar. Fez todo tipo de exames e, pela primeira vez, o ginecológico, que foi superficial apenas. Demorou para entender que lá estavam procurando algo errado na criação dela, relacionado ao tio. Até com psicólogo passou. No outro dia, Aisha foi visitá-la. Chegou falante, fazendo brincadeira. Rebeca estava muito mais quieta que o normal. Ela perguntou se tinha acontecido alguma coisa de diferente, talvez na boate. Rebeca falou que não. Ela respondeu: — Minha mãe disse que, se você precisar de qualquer coisa, é só falar, qualquer coisa mesmo.
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