Capítulo 29

1540 Words
Tudo ficou um pouco estranho. Ela foi dirigindo, com o pensamento distante. Quando chegaram à casa dele, ele a chamou para entrar ela, deu-lhe um beijão e falou abraçada: — Vou pra casa tomar banho, consegue me esperar acordado? Ou tá bêbado demais pra isso? Ele disse que ia esperar. Rebeca foi para casa, viu que tinha saído sangue e ficou com um misto de apavorada com arrependida. No banho, sentindo a água cair, só conseguia pensar em tudo o que fizeram, seu corpo pedia mais. Ela verificou se o tio realmente não estava em casa. Quando ia sair, Neto chegou de banho tomado também. Disse que tinha ido buscá-la para ter certeza de que ela ia. Rebeca falou, rindo: — Ficou com medo de eu fugir? Ele respondeu sem jeito, bem próximo a acariciando nas costas: — Eu acho que não fui legal com você. Tá tudo bem? Ela falou que sim e foi saindo. Ele respondeu sério: — Eu te machuquei, né? Desculpa, eu sinto muito por isso. Super constrangida, Rebeca balançou a cabeça que não. Foram para a casa dele de mãos dadas. Deitaram abraçados. Ela foi beijá-lo e sentiu que ele estava diferente, mais contido. Falou que era melhor dar um tempo daquilo, mas que tinha gostado. Ele perguntou se estava doendo. Ela falou que sim, um pouco. Ele disse “desculpa” de novo. Ela falou que aquilo era normal. Ficaram se olhando em silêncio, até pegar no sono. Na manhã seguinte Neto acordou no susto com Célio chamando por ele na porta. Os dois levantaram juntos. Rebeca saiu pelos fundos, achando que ninguém ia ver, mas Célio já estava desconfiado e viu pela janela. Não muito tempo depois, Neto foi para a casa dela. Disse que levou um super sermão do pai porque estavam dormindo juntos. Rebeca perguntou se ele tinha falado, que estavam tipo tr.ansando. Ele respondeu pensativo: — Não, ele tá muito bravo comigo. Acho que seu tio disse alguma coisa, sobre não querer a gente tão junto, vou pra casa da minha avó hoje, não quero ficar longe de você. Ela falou que também não queria. Ficaram um pouco juntos, só trocando carinho deitados no quarto dela. Logo Célio ligou para apressá-lo. Despediram-se com muitos beijos. Rebeca falou, brincando, que seria bom dar um tempo para ela se recuperar. Ele falou, chateado, que não ia mais fazer aquilo, porque tinha certeza que ela estava querendo por ele, e não por estar pronta. Ela respondeu, abraçada rindo: — Eu quero tentar de novo, você não? Eu não sou tão boa, né, é isso? Ele disse que ela era ótima, que também queria de novo, mas que precisava ser diferente, especial, em um lugar adequado. Ela falou que oportunidades não iriam faltar. Ele respondeu sério: — Posso te pedir uma coisa? Já que estamos juntos. Ela falou que sim. Ele pediu para ela se cuidar, ficar longe de problemas e especialmente longe do Noah. Rebeca falou, surpresa: — Como assim? Eu já te falei ontem, nunca aconteceu nada, por que você tá falando isso? Não confia em mim? Ele disse que confiava nela, não nos outros, e que não gostava da forma como Noah a olhava. Rebeca falou que não tinha nem por que se aproximar dele, enrolou e não prometeu nada. Pois sabia, que estaria mentindo. Ele foi embora. Ela ficou o resto do dia pensando no tio, preocupada. Já era de noite e nada de Antônio chegar. Impaciente, sem notícias, começou a pensar coisas ruins. Trocou-se para sair. Foi procurar Célio para usar o celular dele. Ele não estava em casa ainda. Ela decidiu ir à cidade atrás de Noah, algo dentro de si, só a fazia pensar nele e em Aisha. Perguntou para os colegas, se alguém tinha visto ele. Conseguiu ligar para ele do celular de uma menina. Falou que estava lá na Arena. Ele disse com ironia que não vivia para servi-la. Rebeca respondeu: — Eu nem sei por que ainda tento, sabe? Eu preciso de ajuda, mas é lógico que com você não vou conseguir nada. Manda um recado pra sua irmã, fala que eu não quero nada, seja lá o que for que ela mandou. Se ela não pode vir trazer pessoalmente, eu não quero. Desligou na cara dele e foi embora revoltada com a vida. Quase não dormiu a noite toda. Antônio chegou cedo e não falou com ela. Quando tentou conversar, brigaram de novo. Ele não quis falar para onde tinha ido ou o que foi fazer. Disse que ela não tinha ninguém além dele, que era para sossegar e ser grata por tudo o que tinha. E que logo iriam embora, recomeçar. Ela não aguentou e foi muito m*l-educada. Falou que ele estava mentindo, como fez a vida toda. Ameaçou fugir, se matar, até denunciar ele por mantê-la em cárcere, disse que queria encontrar a mãe. Perdeu a cabeça. Teve um surto, uma explosão de raiva, que nunca havia tido antes. Ele se alterou muito ameaçando bater nela e começou a passar m*l, pois tinha problema de hipertensão. Rebeca ficou sem reação, olhando e chorando de raiva. Demorou para se aproximar. Quando foi chegar perto, ele a empurrou, não a deixou tocar nele. Pediu água e os remédios. Ela correu pegar e deu na mão dele. Levou outro empurrão para se afastar. Caiu sentada, chorando. Implorou para ele contar a verdade, disse que estava sentindo vontade de morrer, que não sentia existir um lugar no mundo, para ela. Ele só disse que preferia morrer a lhe causar qualquer m*l ou dor, e que tudo o que tinha feito, foi por amor a ela. E se havia errado, foi por não saber, como ser um bom pai. Rebeca ficou sentada bastante tempo no chão, olhando-o no sofá. Foi falar para Célio que Antônio não ia trabalhar. Célio foi lá verificar, oferecer ajuda. Queria levá-lo ao hospital, mas Antônio não quis. Rebeca ficou vigiando-o o tempo todo, fez comida e não o incomodou mais. Teve muito medo de perdê-lo. Nunca tinha sentido aquilo antes, aquela impotência e insegurança. Muito arrependida, sentindo-se culpada, decidiu deixar tudo quieto. Afinal talvez ele estivesse dizendo a verdade e mais ninguém no mundo além dele se preocupava com ela. Antônio tinha muitos segredos, começou a dormir trancado, não deixou mais que ela se aproximasse de jeito nenhum, com medo de adoecer ela. Parou de falar com ela, e aquilo estava a matando por dentro. Ele quase nunca brigava ou chamava a atenção dela. Rebeca ficou muito triste, fazendo de tudo para não deixá-lo pior. Ela só queria consertar tudo. Alguns dias depois, ele perguntou o que ela queria fazer no aniversário de dezoito anos. Foi a primeira vez que falou com ela sobre algo que não fosse muito necessário, depois de tudo o que aconteceu. Ela nem estava mais lembrando do aniversário. Falou que não queria nada, que não tinha importância. Ele perguntou se queria algo de presente, um celular, roupa, sapato, qualquer coisa que pessoas da idade dela gostavam. Rebeca falou cética: — Não quero nada, não precisa se preocupar com isso. Ele disse que ela podia sair comemorar com os amigos. Rebeca aproveitou a oportunidade e falou: — Eu só tenho o Neto. Mas acho que ele não vai mais voltar, o senhor falou alguma coisa para o Célio? Sobre nós dois? Ele respondeu intrigado: — Eu não sou bobo, Rebeca, e você precisa aprender um pouco mais a ter malícia na vida. Ele é um bom rapaz, mas é jovem e tem um mundo de oportunidades que você não tem. — No momento, precisamos ficar aqui, eu odiaria se ele te fizesse algo de r**m, porque teríamos que ir embora. Entende? Ela falou que era claro que entendia, que não acontecia nada demais entre eles, só amizade. Ela ficou deprimida, estava só ficando em casa o dia todo. Não voltou mais a trabalhar, tudo virou um imenso vazio. Na sexta-feira, quando ela acordou, tinha um embrulho ao lado da cama. Abriu sem muitas expectativas. Era um celular simples que nem tinha sistema Android e nem tela touchscreen. Ela ficou mais tempo olhando para ele, pensando, do que mexendo. Quando foi para a cozinha, viu que havia coisas diferentes para tomar café da manhã: coxinha, um pedaço de pudim, Danone e refrigerante. Ficou olhando para tudo, admirando, pois não era um hábito comer assim. Só comeu a coxinha. Nem tinha o hábito de comer nada cedo. Saiu para fora e foi falar com o tio para agradecer. Deu-lhe um abraço. Ele disse que estava sujo, afastando-a. Tinha mais gente perto, tomando café. Começaram a parabenizá-la. Rebeca falou que nem sabia se era aquele o dia ou se era no próximo. Ele disse rindo que era no dia seguinte. Perguntou se ela tinha gostado do celular. Ela falou que sim. Ele falou que era para ela ligar para alguém, qualquer pessoa com quem quisesse conversar. Rebeca pensou na madrinha, mas lembrou das coisas que ele disse e desistiu. Ficou enrolando andando pelo barracão, conversando. Na hora do almoço, foi fazer comida. Quando Antônio chegou, perguntou se ela tinha falado com alguém. Ela respondeu séria: — Não, eu não tenho nenhum número, só o seu! Posso te fazer uma pergunta?
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