Capítulo 38

1391 Words
Ela falou sem nem se mexer: — Hoje não, Noah! Me deixe em paz. Ele sentou na mesa perto, respondeu meio de costas pra ela, olhando para a corrida: — Hoje não? Por que não? Conversa comigo. Ela respondeu cética: — Você não se cansa? Sua vida é tão chata assim, que você precisa ficar mexendo com alguém como eu pra passar tempo? Ele perguntou se ela estava bem. Rebeca decidiu ignorar. Ficou quieta. Ele levantou sem dizer nada, saiu andando. Logo voltou com uma garrafa de água, colocou na mesa, voltou a sentar e falou que era pra ela. Ela estava com sede. Sentou-se para tomar, nem agradeceu. Ele perguntou por que ela não ligou no outro dia, que estava procurando por ele. Ela falou que só queria falar com a Aisha. Ele respondeu: — Queria? Não quer mais? Ela ficou quieta, prendeu o cabelo. Ele pegou o celular, ligou pra Aisha e falou pra ela: — Oi, achei sua amiga aqui, vou passar pra ela! Rebeca pegou o celular. Aisha perguntou se ela estava bem, disse que estava louca para vê-la, se desculpou por ter sumido. Rebeca falou que estava tudo bem, normal. Perguntou se ela estava bem. Aisha disse que sim. Rebeca ficou quieta, quase chorando. Aisha perguntou do Neto. Ela falou disfarçando, enxugando uma lágrima que rolou em seu rosto: — Ahhh, ele tá aqui perto, você sabe que eu não posso chegar perto de ninguém sozinha, o ciúmes dele não deixa. Quando você volta? Sinto tanto a sua falta! Aisha disse que não ia mais voltar, mas que ia dar um jeito de as duas se verem. Rebeca falou, tentando não chorar: — Fico feliz que esteja tudo bem, fiquei muito preocupada. Não some mais assim, agora eu tenho um celular, você pode me ligar. Aisha disse que não tinha muito o que contar, porque estava só ficando em casa com a família, mas disse que tinha um gato dando mole pra ela. Rebeca deu um pouco de atenção, riu com ela, falou que precisava desligar porque o Neto estava chamando. As duas se despediram. Ela desligou e deu o celular para o Noah. Ele perguntou o que tinha acontecido, colocou a mão no rosto dela onde levou o tapa. Rebeca falou, afastando a mão dele: — Nada! Ele respondeu sério, curioso: — Quem fez isso? Ela levantou sem dizer nada. Ele falou: — Foi seu namorado? Por que você mentiu pra Aisha? — Se aquele moleque bateu em você. Vou arrebentar ele. Rebeca respondeu, soltando o cabelo: — Não foi ele e ele não é meu namorado, nunca foi aliás. Pra que vou ficar falando pra ela dessas coisas? Ela não tá aqui e não vai me ajudar, ninguém vai. Ele perguntou o que tinha acontecido. Ela falou saindo andando com a garrafa de água: — Nada! Largou ele lá falando sozinho. Foi embora, chegou de madrugada. Amanheceu acordada na sala, olhando pra TV, pensando em várias coisas. Quando o tio levantou cedo, passou por ela sem dizer nada. Rebeca foi deitar e dormiu o dia inteiro. Era sábado. No final do dia ele foi chamá-la pra comer bolinho de chuva. Ela levantou e foi sentar na mesa com a maquiagem toda borrada. Ficou muda, encarando ele, até que ele se levantou e saiu para o quintal. Ela voltou para o quarto, depois tomou banho, colocou roupa de ficar em casa, passou por ele de propósito, fingindo que não ia sair, esperou ele dormir, se trocou e saiu escondida. Foi andando, como sempre. Quando chegou, nem falou com ninguém, ficou encostada nas grades de proteção, olhando as corridas. Ficou viajando nos pensamentos, com as suposições dela, de quem ia ganhar, das possíveis tragédias que podiam acontecer. Ficou muito tempo lá sozinha. Viu o Noah chegando pra correr. Evitou olhar na direção dele. Ele desceu do carro, foi até ela e falou com um tom de deboche: — E aí, tá melhor hoje? Já bebeu? Se quiser correr é a sua última oportunidade, vou me mudar pra bem longe. — Vendi tudo aqui. Ela falou sem olhar pra ele: — Eu não bebo, você deduziu isso sozinho ontem. Em momento algum falei que estava bêbada! Ele ficou olhando sério, enquanto ela acompanhava a corrida. O rapaz das apostas chamou por ele, foi até os dois falando que o outro cara tinha desistido. Rebeca deu risada irônica. O rapaz falou: — Que foi, ruiva? Tá parada aí há horas, não me deu um palpite bom hoje! Ela respondeu com deboche, olhando o Noah: — Ahhh, sabe como é né, a gente precisa saber a hora certa de acelerar e de reduzir. Ninguém quer correr com ele e, cá entre nós, sabemos que ele nem é tudo isso. O carro é bom, mas ele é cauteloso demais, tem medinho de morrer. E pior que isso, fica ameaçando os oponentes, prefere bater do que perder, aí que feio! Noah falou com arrogância que ela não tinha o carro dela ainda, pra saber como era perder algo que foi difícil conseguir. Ela falou rindo, provocando: — Pobre menino rico né? Você tem medo, assume. Ele disse que amava a vida dele, que não era louco de querer se matar à toa. Ela falou se afastando: — A morte é simples, Noah, a vida é mais complicada. E eu não tenho nada a perder, nunca corra comigo! Ele ficou olhando sério. Só pra não dar o gostinho de ele vê-la na plateia, foi sentar longe. Ficou até bem tarde. Quando estava saindo do estacionamento para ir embora, viu ele tipo na saída, encostado no carro e olhando pra ela. Não dava pra desviar, mas fingiu que não estava vendo. Ele falou: — Posso te levar pra casa? Juro que não vou te matar, esquartejar ou mexer com você. Ela parou na frente dele, balançou a cabeça que não. Ele falou encarando-a: — Posso te perguntar uma coisa? Ela balançou a cabeça que sim. Ele falou: — Por que você é assim? Diferente? Eu nem sei como você foi fazer amizade logo com a minha irmã. Ela sorriu pensando em dar uma resposta rude, falou: — Eu não escolhi ser quem sou, cabelo e pele diferente da maioria das pessoas, sem pais, sem tudo de bom que a maioria tem, é difícil me enquadrar no padrão de vocês! Ele falou sério: — Não vou sentir pena de você, a maioria fica com dó né? Desse papo furado. Ela respondeu séria: — Às vezes. Mas eu não esperaria nada vindo de você, porque você faz jus à sua fama e gosta disso! Eu já sei por que gosta de mexer comigo. Ele falou com ironia: — Ah, sabe? Deixa eu adivinhar, porque você me disse não um dia e eu sou o cara mimado que quer tudo que não pode ter, que toma à força se preciso for? Ela respondeu rindo: — Aí, credo, nãooo. Eu sei que você não curte meu estilo de falsa puritana, as putas são melhores e cobram bem menos, não esqueci disso. Você fica incomodado comigo porque não tenho medo, não consegue me intimidar, todo mundo faz o que você quer, tem medo ou respeito. Ele sorriu e falou curioso: — Entendi... e você? Tem o quê? Ela levantou os ombros, tipo “nada”. Ele perguntou por que falsa puritana. Rebeca falou chateada: — Não finja que não sabe, eu não sou i****a. Ele respondeu irônico: — Não sei, mas queria saber. Tenho um pressentimento de que seu namorado fez alguma coisa pra você e por isso você tá vagando por aqui sozinha como um fantasma. Ela ouviu o trem vindo e, pra ir embora, pulava os trilhos. Ficou olhando na direção fixamente. Ele falou sério: — O que foi? Olha, eu não tenho dó de você e você mesma também não deve ter. A vida é dura, Rebeca, a gente sofre e se machuca muito, confiando nas pessoas, depositando nossas expectativas nelas. Você pode achar que eu tenho tudo, que dinheiro resolve a vida, mas não é assim. Ela riu com ironia, foi indo mais perto da linha do trem. Ele perguntou, indo atrás: — Dinheiro resolve sua vida? Hoje? De quanto você precisa? Ela falou: — Não, o que eu quero não depende de mim, você vai embora mesmo? — Vai me deixar também?
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