Capítulo 8
Ela balançou a cabeça que sim. Ele falou olhando sem paciência:
— Sim o quê? Está bem? Com fome? Você precisa aprender a falar as coisas, com a boca.
Ela franziu as sobrancelhas e respondeu séria:
— Eu tô cansada de todo mundo me tratando como louca! Estou de jejum há mais de 16 horas, é lógico que estou com fome. Quer o quê? Que eu peça pra você me levar comer logo a minha comida preferida?
Ele falou debochado, rindo:
— Qual sua comida preferida?
Ela ficou em silêncio, se sentindo inferiorizada. Foram saindo do laboratório. Ele falou:
— Você fica sem comer porque quer. Se ficar doente, ninguém vai cuidar de você. Como vai trabalhar doente? Você não tem anemia? Imunidade baixa?
— Está se curando de uma pneumonia? Isso tudo junto pode matar. Ninguém vai te ajudar se você mesma não colaborar. Você é nova, mas não é criança, tem que amadurecer! Você acha que eu só faço o que quero na vida?
— Se está deprimida, os remédios vão te ajudar. Pode fazer terapia.
Eles estavam entrando no carro. Ela começou a chorar com o sermão, ficou olhando para a janela, evitando o contato visual. Quando ele notou, se arrependeu do que disse, sentiu um aperto no peito, um nó na garganta, falou que não queria ficar pegando no pé dela, mas que queria ver ela bem. Ela respondeu sem olhar pra ele, enxugando as lágrimas:
— Tudo bem, tanto faz!
Ela ficou sentida, triste, não disse mais nada, nem uma palavra. Ao chegar de volta a casa, nem se lembrou de ir na garagem. Foi entrando junto com ele. A Kim estava na sala, mexendo no notebook. Falou reparando em Rebeca:
— Oi, e aí? Deu tudo certo?
Rebeca balançou a cabeça que sim, "sorriu" sutilmente, se sentindo intimidada pela postura dela. Kim falou olhando fixamente séria:
— Que bom, depois a gente busca o resultado. Consegui marcar médico pra você amanhã.
Rebeca respondeu sustentando o olhar:
— Tá bom, posso ir lá pra dentro? Preciso tomar remédio!
Kim falou que era pra ela ir comer, sugeriu que fosse algo leve, uma fruta, um suco, e depois era pra ela ir atrás do Toni. Ramon falou em inglês:
— Ela não está bem.
Kim respondeu também em inglês:
— E teria como estar? Perdeu o tio, viu a amiga morrer, só Deus sabe o que essa menina passou lá onde morava. Você está de olho pra ver se ela está tomando mesmo os remédios? Não quero perguntar nada pra Iolanda.
Ele disse que provavelmente ela estava tomando, que sempre ia com água para o quarto e algumas vezes ele viu ela tomando. Kim pediu pra ele ir atrás, vigiar. Ele respondeu descontente:
— Sério? Vou virar babá agora?
Ela deu risada, disse que não era tão r**m, cuidar de uma gatinha triste. Ele foi atrás da Rebeca. Encontrou ela sentada na cama com as caixinhas de remédios no colo. Ela estava com o pensamento distante, olhando fixamente para o nada. Ele falou:
— Rebeca?
Ela se assustou até, olhou pra ele, não disse nada. Começou a pegar os remédios, separando pra tomar. Em cima e ao lado da cama dela tinham várias caixas de papelão fechadas. Ela falou quando se levantou:
— Você sabe o que é isso?
Ele disse que não. Ela falou, saindo do quarto, passando por ele:
— É bem capaz das caixas terem prioridade mesmo, pra dormirem na cama. E eu fora.
Ela foi para a cozinha, abriu a geladeira, tomou os remédios com suco. Ele ficou perto, de olho, começou comer uma maçã. Perguntou se ela queria ir na garagem. Ela falou, encarando-o séria:
— Não!
Estela entrou com o Toni. Ele estava fantasiado de cowboy, falou em inglês, rindo:
— Oi, caipira, gostaria de ir no meu haras? Tenho vários cavalos muito bonitos, de raça.
O Ramon deu risada, falou pra ele em inglês:
— Caipira? Está falando com a nova babá?
Ele levantou os ombros, como quem realmente quis chamar ela de caipira. Falou rindo.
— Forasteira.
O Ramon falou:
— Rebeca, ele está te chamando para brincar. Ir ver os cavalos, que na verdade ele não tem!
Estela falou com deboche, olhando a Rebeca:
— Na verdade o canil é o haras dele, mais lá você não vai, né?
Rebeca ficou quieta, séria. Kim entrou na cozinha falando que ia sair. Disse que o Ramon ia com ela, perguntou se alguém queria alguma coisa da rua, qualquer coisa. O Toni pediu um doce. Ela falou o beijando afetuosa:
— Vou ver se você está merecendo, mocinho. Rebeca, já viu as coisas no quarto? Eram da Aisha, pega tudo o que quiser, depois a Estela vê se gosta de algo. Assim que der, a nós vamos comprar umas coisas pra você. Essa semana eu não prometo! Estela, fez o que te pedi?
Ela disse que sim. Foram juntas para a sala, Estela e Kim. O Toni saiu pela área de serviço, foi indo para o quintal. O Ramon falou para a Rebeca:
— Ele não pode ficar sozinho lá fora, nunca. Não perca ele de vista.
Ela saiu logo atrás, falou pra ele toda sem jeito:
— Toni, me espera. O que você acha da gente jogar algo? Brincar aqui no gramado?
Ele foi correndo para o canil. Ela falou que ele não podia soltar os cachorros, se não iam atacar ela. Ele falou irônico, cheio de maldade:
— Está com medo, né? Imagina só se a Nora escapa e te morde de novo.
Ela falou apreensiva:
— É, eu tenho medo mesmo, doeu e muito.
Eles entraram no canil. O Toni foi acariciando os cachorros pelo portão, chamando de cavalo, falando para a Rebeca os nomes deles. Ela ficou parada, olhando quieta. Ele falou sério:
— Cadê a Estelinha? Você não sabe brincar de nada, não sabe que a gente brinca imaginando as coisas.
Ela falou que então podiam construir algo imaginando, perguntou se ele gostava de desenhar. Ele falou curioso:
— Eu gosto muito. Como assim construir? De mentirinha?
Ela falou tentando entreter ele:
— Não de mentirinha, de papel, papelão. Vamos fazer algo, decorar e brincar.
Super animado, ele disse que ia chamar a Estelinha, pedir ajuda para a Ioiô. Entrou correndo, perguntando, gritando para a Rebeca do que iam precisar. Ela falou, surpresa com tanto entusiasmo dele:
— Não sei, lápis de cor, canetinhas, folhas, cola.
Ele chegou na sala falando desembestado, pulando:
— Estelinha, vamos fazer coisas, construir e brincar. Eu quero meus lápis, canetas, tesoura, folhas, muitas folhas branquinhas. Posso pegar um pacote, mãe? Rebeca, a gente vai usar o grampeador? Ou só a cola?