Capítulo 3

1264 Words
Capítulo 3 — Sem pedir permissão Narração: Maria Depois da discussão, a casa ficou do mesmo jeito de sempre, com os mesmos móveis, os mesmos sons baixos vindo dos cômodos e o mesmo silêncio que minha mãe usava como escudo sempre que não queria continuar uma conversa, mas dentro de mim nada tinha permanecido igual, porque dessa vez não era só mais um assunto m*l resolvido sendo empurrado pra depois, dessa vez era uma decisão que eu já tinha tomado e que não dependia mais da vontade dela pra acontecer. Eu sabia que ela estava acordada, mesmo sem ouvir nenhum movimento vindo do quarto, porque conhecia o jeito dela o suficiente pra entender que, depois de uma conversa como aquela, ela não simplesmente deitava e esquecia, ela ficava pensando, remoendo, tentando encontrar formas de controlar o que já estava escapando, e talvez fosse exatamente isso que me fazia sentir uma urgência ainda maior de agir antes que ela tentasse me impedir de verdade. Sentei na cama com o celular na mão, olhando para a tela apagada enquanto deixava o tempo passar por alguns segundos, não por dúvida, porque essa parte já tinha ficado pra trás, mas porque eu precisava organizar o que vinha depois, precisava transformar aquela vontade em ação sem espaço pra arrependimento, sem deixar brecha pra interferência. Desbloqueei o celular e fui direto ao que precisava, sem rodeio, sem perder tempo com pensamento desnecessário, porque quanto mais eu pensasse, mais chances eu dava pra alguma coisa me travar, e aquilo era exatamente o que eu não podia permitir. Digitei rápido, sem hesitar, deixando claro pra mim mesma que não estava mais brincando com a ideia. Passagem para o Brasil. As opções começaram a aparecer na tela, e por mais simples que aquilo pudesse parecer pra qualquer outra pessoa, pra mim era como se cada detalhe carregasse um peso maior, porque não era só uma viagem, era um passo direto em direção a tudo que sempre foi escondido de mim, tudo que minha mãe tentou manter distante, tudo que eu já estava cansada de não entender. Passei os olhos pelas datas, pelos horários, pelos preços, analisando rápido, sem me perder demais, porque não precisava ser perfeito, precisava ser possível, precisava ser rápido, precisava acontecer antes que qualquer coisa pudesse mudar minha decisão. Escolhi uma opção quase no impulso, não porque não me importava, mas porque sabia que, se começasse a pensar demais, ia acabar criando problema onde não tinha, e isso nunca foi o meu jeito de lidar com as coisas. Quando cheguei na parte do pagamento, senti um leve peso na mão, não de dúvida, mas de consciência, porque naquele momento tudo deixava de ser ideia e passava a ser real, e eu sabia que, depois daquele passo, não existia mais volta sem consequência. Respirei fundo, firmei o celular e finalizei. O aviso de confirmação apareceu na tela, simples, direto, sem importância nenhuma pra qualquer outra pessoa, mas pra mim foi como um marco silencioso, como se tivesse traçado uma linha que eu já tinha decidido cruzar e que agora não dava mais pra ignorar. Fiquei olhando para aquilo por alguns segundos, absorvendo a sensação que vinha junto, uma mistura estranha de adrenalina com um certo aperto no peito, não de arrependimento, mas de expectativa, porque eu sabia que aquilo era só o começo, e que o que vinha depois ia ser muito maior do que qualquer planejamento que eu pudesse fazer ali. Joguei o celular de lado na cama e levantei, andando pelo quarto sem rumo definido, passando a mão pelo cabelo enquanto tentava organizar os próximos passos, porque comprar a passagem era só uma parte, e eu ainda precisava resolver todo o resto sem levantar suspeita, sem dar tempo pra minha mãe reagir. Abri o guarda-roupa e fiquei olhando por alguns segundos, analisando o que fazia sentido levar, mas sem cair na armadilha de exagerar, porque eu não estava indo pra uma viagem qualquer, eu estava indo pra resolver coisa que ninguém nunca quis resolver por mim, e isso exigia mais atitude do que preparação. Comecei a separar algumas roupas sem muita cerimônia, jogando em cima da cama de forma prática, escolhendo o essencial, sem apego, sem frescura, porque sempre fui do tipo que se adapta, que dá um jeito, que não precisa de muito pra seguir em frente. Enquanto fazia isso, minha cabeça não parava, e não era de dúvida, era de expectativa, de imaginar como seria chegar no Brasil, como seria pisar naquele lugar que sempre existiu na minha história, mas nunca na minha realidade, como seria encarar tudo aquilo de frente sem ninguém pra filtrar ou esconder as coisas de mim. Meu pai. Pensar nele ainda era estranho, porque não existia uma imagem concreta, não existia memória suficiente pra sustentar um sentimento definido, mas ao mesmo tempo existia uma presença constante, um espaço vazio que sempre esteve ali e que agora eu finalmente tinha decidido preencher. Fechei a mala sem perder mais tempo, olhando ao redor do quarto como se estivesse registrando cada detalhe, não por nostalgia, mas porque eu sabia que, quando voltasse, nada mais ia ser do mesmo jeito, nem dentro de mim, nem fora. Sentei na cama por um instante, apoiando os braços nas pernas enquanto encarava o chão, deixando um leve silêncio se instalar, não de indecisão, mas de preparação, como se aquele fosse o último momento onde tudo ainda estava sob controle antes de começar a mudar de verdade. O som de um leve movimento vindo do corredor me fez levantar o olhar na mesma hora, ficando atenta, porque eu sabia que precisava agir com cuidado a partir dali, e qualquer descuido podia colocar tudo a perder antes mesmo de começar. Levantei sem fazer barulho, caminhando até a porta e abrindo devagar, olhando para o corredor vazio, confirmando que minha mãe ainda estava no quarto, provavelmente achando que tinha encerrado a conversa mais cedo, provavelmente acreditando que tinha me convencido, e aquilo quase me fez soltar um sorriso curto, porque se tinha uma coisa que ela ainda não tinha entendido, era que eu não era mais criança pra aceitar decisão sem questionar. Voltei para dentro do quarto e fechei a porta com cuidado, encostando nela por um instante enquanto respirava fundo, sentindo o peso da decisão, mas sem deixar que isso se transformasse em insegurança, porque eu sabia exatamente por que estava fazendo aquilo, e isso era mais do que suficiente pra seguir em frente. Peguei o celular de novo, abrindo a confirmação da passagem mais uma vez, só pra reforçar o que já era real, só pra lembrar que não era mais plano, não era mais ideia, era algo que já estava acontecendo. E pela primeira vez em muito tempo, eu não me senti perdida. Me senti no controle. Deitei na cama sem apagar a luz, olhando para o teto enquanto deixava o corpo relaxar aos poucos, mas com a mente ainda acelerada, passando por tudo que estava por vir, por tudo que eu ainda não sabia, por tudo que eu ia ter que enfrentar sem ninguém pra me proteger ou segurar. Mas isso nunca foi problema pra mim. Porque, se tinha uma coisa que eu sempre soube fazer, era me virar. E agora não seria diferente. Fechei os olhos devagar, deixando o cansaço tomar conta, mas mantendo aquela certeza firme dentro de mim, aquela sensação de que, independente do que acontecesse, eu não ia recuar, não ia desistir, não ia voltar atrás. Porque dessa vez não era sobre escolha dos outros. Era sobre a minha. E eu já tinha decidido.
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