Capítulo 7

1223 Words
Capítulo 7 — Sob o mesmo teto Narração: Lipe Eu não sou de levar problema pra dentro de casa, muito menos quando o problema tem olhar firme, resposta na ponta da língua e zero noção de limite, mas naquele momento não era sobre escolha, era sobre controle, e deixar aquela garota solta depois do que tinha acabado de acontecer na barreira era abrir espaço pra algo que eu ainda não entendia, e eu não trabalho com coisa que eu não entendo. — Sobe na moto — falei, direto, já sem paciência pra prolongar aquela cena na frente de todo mundo. Ela não perguntou, não hesitou, não tentou negociar, o que por si só já dizia muito, porque gente que não questiona ordem daquele jeito ou é muito burra ou sabe exatamente o que tá fazendo, e eu já tinha descartado a primeira opção no momento em que ela pegou o rádio na marra e falou comigo daquele jeito. Senti o peso dela subir na moto atrás de mim, firme, sem aquele cuidado típico de quem não tá acostumado, e isso me fez apertar o maxilar sem perceber, porque até nisso ela não parecia deslocada, como se já estivesse mais adaptada àquilo do que deveria. Arranquei sem olhar pra trás, cortando o caminho de volta com mais velocidade do que o normal, não por pressa, mas porque eu precisava tirar ela dali antes que mais gente começasse a se envolver, antes que aquilo virasse espetáculo, porque espetáculo naquele lugar nunca termina bem. O silêncio no caminho não foi confortável, não foi leve, foi carregado de uma tensão que não precisava de palavra pra existir, e mesmo sem olhar, eu sentia que ela tava ali, atenta, observando, absorvendo tudo como se estivesse montando um quebra-cabeça que eu ainda não sabia qual era a imagem final. — Como pai você é um péssimo anfitrião — ela falou de repente, quebrando o silêncio com um tom debochado que fez minha mão apertar mais o guidão. Soltei o ar pelo nariz, irritado, mas não parei a moto. — Eu já falei que não sou teu pai — respondi, seco. — Então para com essa p***a antes que eu perca a paciência de vez. Ela soltou um riso baixo, como se minha resposta fosse previsível demais pra causar qualquer impacto. — Engraçado — murmurou, mais pra ela mesma do que pra mim — porque você tem o mesmo problema de homem que foge de responsabilidade. Aquilo me arrancou um olhar rápido pelo retrovisor, suficiente pra ver que ela tava com a mesma expressão firme de antes, como se estivesse testando até onde podia ir, como se estivesse cutucando exatamente onde sabia que incomodava. E o pior era que incomodava. Não pelo que ela tava dizendo. Mas pelo contexto que vinha junto. Acelerei mais, encerrando a conversa sem precisar de palavra, porque tinha coisa ali que eu não ia resolver no meio da rua, e definitivamente não com metade do morro olhando. Quando parei na frente da casa, desci da moto sem olhar pra ela, já entrando direto, porque se tinha uma coisa que eu não ia fazer era dar espaço pra ela achar que tava no controle de alguma coisa ali. Ouvi o som da porta abrindo logo atrás de mim, seguido dos passos dela entrando sem pedir, sem hesitar, como se já tivesse decidido que aquele espaço agora fazia parte do caminho dela, e aquilo me irritou mais do que deveria. Fechei a porta com força, virando de frente pra ela pela primeira vez desde que saímos da barreira, deixando o silêncio se instalar por um segundo que pareceu mais longo do que realmente foi. — Agora tu vai falar direito — comecei, cruzando os braços. — Quem tu é e por que c*****o tu acha que pode chegar aqui daquele jeito. Ela me encarou de volta, sem baixar o olhar, sem demonstrar nem um pingo de nervosismo, como se estivesse exatamente onde queria estar, e isso só reforçou a sensação de que tinha coisa ali que ainda não tava clara. — Já falei — respondeu, simples. — Sou filha do Carlos. Passei a mão pelo rosto devagar, tentando organizar a cabeça antes de responder, porque aquilo não era informação leve, não era coisa pra ser jogada assim no meio de uma conversa qualquer, e mesmo assim, o jeito que ela falava não parecia invenção, não parecia tentativa de ganhar espaço, parecia verdade. E isso complicava tudo. — E resolveu aparecer depois de quinze anos? — questionei, mais baixo agora, mas não menos sério. — Quinze anos sumida e acha que é só chegar e pronto? O olhar dela mudou por um segundo, quase imperceptível, mas o suficiente pra mostrar que ali tinha mais coisa do que ela tava falando. — Eu não sumi — retrucou, firme. — Eu fui afastada. Aquilo bateu diferente. Não pela frase em si, mas pelo jeito que ela falou, como se estivesse cansada de carregar aquilo sozinha, como se fosse uma resposta que ela já tinha repetido mais vezes do que queria. — Quem te afastou? — perguntei, já sabendo a resposta antes mesmo dela abrir a boca. — Minha mãe — disse, direta. — Vanessa. O silêncio que veio depois foi pesado, porque não tinha como fugir daquilo, não tinha como fingir que não fazia sentido, não quando eu sabia exatamente o que tinha acontecido anos atrás, não quando eu tinha visto com meus próprios olhos o dia que ele mandou a Vanessa ir embora. Olhei pra ela de novo, agora com outro tipo de atenção, buscando detalhe, buscando confirmação, buscando qualquer coisa que me dissesse se aquilo era real ou só uma coincidência bem construída. E foi aí que eu percebi. Não era só a postura. Não era só o olhar. Tinha alguma coisa ali. Alguma coisa que eu já tinha visto antes. Mas eu não aceitei aquilo. Ainda não. — Mesmo assim — falei, firme, cortando o rumo do pensamento — eu não sou teu pai. Então para de agir como se eu fosse. Ela inclinou a cabeça de leve, aquele mesmo meio sorriso voltando, como se estivesse se divertindo com a situação de um jeito que eu não conseguia entender. — Relaxa — disse, com um tom que misturava ironia com provocação. — Eu já percebi que você não é ele. Aquilo devia aliviar. Devia encerrar o assunto. Mas não aliviou. Porque, de algum jeito, estranho e m*l explicado, aquilo me incomodou mais do que a ideia anterior. — Então por que continua aqui? — questionei, direto. Ela deu um passo à frente, diminuindo a distância sem pedir, sem hesitar, me encarando com aquele mesmo olhar firme que já tinha me tirado do eixo mais cedo. — Porque você sabe onde ele tá — respondeu. Simples. Direto. Sem espaço pra interpretação. E ali ficou claro. Ela não ia embora. Não sem resposta. E, pelo jeito, eu também não ia me livrar dela tão fácil quanto gostaria. Fiquei olhando pra ela por mais um segundo, sentindo aquela mesma mistura de irritação com algo que eu ainda não tinha nome, algo que não encaixava, algo que eu não gostava de não entender. Mas uma coisa já tava clara. Aquilo não era só problema. Era problema grande. E, de algum jeito que eu ainda não conseguia explicar… eu já tava envolvido.
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